Mostrar mensagens com a etiqueta liberdade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta liberdade. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 13 de outubro de 2015

apesar de você, amanhã vai ser (de novo) outro dia

hoje é dia da República. não de uma qualquer imaginária, mas da nossa, da portuguesa. hoje, pela terceira vez, não é feriado, forma simbólica de assinalar um dia histórico, determinante para a evolução e consolidação do nosso regime democrático - porque a República é, sobretudo, sobre democracia, renovação de mandatos e a sua legitimidade. hoje, pela primeira vez, o Presidente da República não comemora a República. mas, se outra prova fosse necessária, 105 anos depois, e mesmo apesar da negritude dos 48 anos de interrupção, as eleições de ontem demonstram a sua vivacidade. e que ela sobrevive aos golpes contra ela desferidos.

os resultados de ontem constituem o triunfo de uma visão de sociedade e de estado na qual não me revejo. um estado reduzido aos seus serviços mínimos, uma sociedade injusta e desigual. elegeu-se um governo que, à semelhança do que fez nos últimos quatro anos, continuará a destruir os mecanismos de proteção social, a tentar privatizar os últimos recursos económicos do Estado e a aumentar o fosso entre ricos e pobres, jovens e seniores, empregados e desempregados, os que ficaram e os que partiram, aparentemente, até, entre o norte e o sul. ontem, como há quatro anos, a vitória veio assente em falsas promessas, em mentiras, em ocultações. amanhã, como antes, saber-se-á o que foi escondido, mesmo com o rabo de fora.

com os resultados de ontem, a lição também fica para quem com ela quiser aprender. e há uma renovação no socialismo que é necessária fazer. recentrá-lo à esquerda. e não dividir para reinar. sobretudo não dividir para reinar.

com os resultados de ontem, o dia hoje amanheceu cinzento, metáfora sublime do porvir. mas, como diz o Chico Buarque, na música que tudo cura, "Hoje [ontem] você é quem manda | Falou, tá falado | Não tem discussão | A minha gente hoje anda | Falando de lado | E olhando pro chão, viu". felizmente, "Apesar de você | Amanhã há de ser | Outro dia | Você vai ter que ver | A manhã renascer | E esbanjar poesia | Como vai se explicar | Vendo o céu clarear | De repente, impunemente | Como vai abafar | Nosso coro a cantar | Na sua frente"

avante, camarada. amanhã há de ser outro dia.


sexta-feira, 20 de junho de 2014

amanhã, sempre amanhã. ou do Chico

perguntaram-me um dia, numa daquelas perguntas feitas com amizade pura, se eu fosse para uma ilha e pudesse levar só uma música qual seria. o exercício é hiperbólico mas mereceu resposta inequívoca.

mesmo que ingrata, e potencialmente injusta, esta escolha não levantou dúvidas, porque o Chico nunca foi equívoco ou ambíguo. não foi conivente ou pactuante e exilou-se do outro lado do Atlântico. foi deste lado de cá, que rejubilou de alegria e esperança quando em 1974, apesar das léguas a nos separar, nos pediu a semente esquecida nalgum canto de jardim. e nós, a partir de Trás-os-Montes, onde nasce o rio Amazonas, não esquecemos quem nos amou. e essa mesma amizade pura, aquela que me lançou na malha hiperbólica da ilha, quando eu lhe pedia novidades, dizia-me sempre que ali, na terra, estão jogando futebol, tem muito choro, muito samba e rock'n'roll. que a tarifa não tem graça e que só faltava o correio andar a isco. o que ela me queria dizer é que ali, aqui, a coisa está preta. e não se esqueceu de, no momento em que me preparava para deixar terras frias da Europa central, me lembrar que eu tinha razão em pegar esse avião e fugir assim daquele frio. lembrou-me de pedir perdão pela duração dessa temporada e pela omissão um tanto forçada. e o Chico, que um dia chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar, mandou-nos trabalhar. logo a nós, malandros por excelência, e que fomos exímios em lhe(s) ensinar a arte da malandragem. nós, que já fomos a nata da malandragem, estamos agora indefesos perante o malandro regular profissional, com o aparato de malandro oficial, candidato a malandro federal, com retrato na coluna social; com contrato, com gravata e capital, e que nunca se dá mal. o Chico, que viveu o grande amor, sambando, falou-nos da Carolina, da Bárbara, da Rita, da Geni e de seu zepelim, da Ana, que era de Amsterdam, e de todas as mulheres, até as de Atenas, para nos relembrar que, olhos nos olhos, muitos foram os homens que as amaram bem mais e melhor que ele. o Chico, que herdou nas veias a verve de Cartola, Tom, Vinicius, e Gilberto - o João e o Gil - foi, durante as últimas cinco décadas, político, cronista, trovador, amante e malandro. eu, que ontem lhe deixei passar o dia de comemoração dos seus 70 de vida, sem a prosa lírica de Caetano, mas com o mesmo grau de amor, rendo-me a ele nesta singela homenagem, que é mais para mim do que para ele, porque ele sempre foi muito mais para mim.

e a resposta maturada à pergunta hiperbolicamente acertada, foi esta, sempre esta, aquela que se pode ouvir sem parar e sem exaustão. tinha de ser esta, porque mesmo nos tempos mais escuros e mais sombrios, aqueles em que nos querem fazer viver, mesmo quando cessa toda a esperança e a opressão parece comprimir até o nascer do dia, nunca nada vai impedir o galo de cantar. mesmo nos dias mais cinzentos, como os que correm, pejados de interesses e orientados sem felicidade, quem inventou o pecado e a tristeza, vai ter a fineza de desinventar. e quando alguém tentar proibir, a água nova de brotar, a gente vai-se amar, sem parar.  tinha de ser esta, porque amanhã vai ser sempre outro dia.


terça-feira, 26 de março de 2013

sobre os cravos de março, em abril que começa

este fim de semana que passou, o de 23 de março, em Bordéus, o congresso do Parti de Gauche revestiu-se de cravos vermelhos e, na sua sala principal, soltaram a voz do Zeca. o cravo, flor emblemática de tantas revoluções, foi entregue em mãos aos congressistas como um pedaço de história, de muitas histórias, dos momentos em que a liberdade irrompeu e brotou nas cidades dos homens e das mulheres, como brotam os cravos na primavera. de todas essas histórias, uma se sobrepôs, uma que foi nosso património para se tornar no de todos, a história de um dia de abril de 74 e da sua Grândola e de como hoje não precisamos tanto de senhas, mas de revoluções.

um bocadinho antes, no início do mês, ainda antes da Primavera e, porque os cravos ainda não abriam as suas pétalas em todo o seu esplendor, inebriados por um inverno extraordinariamente austero e longo, os portugueses não aguentaram mais as portas fechadas e abriram-nas de par em par. quando saíram à rua, depois de terem deixado escancaradas as celas do quotidiano que os aprisionavam, caminharam em silêncio, quase sempre, para que, a uma só voz, pudessem libertar o que lhes estava preso na garganta. foi então que, nas nossas ruas, se ouviu Grândola, como se o Zeca estivesse ali em pessoa. e, quando as vozes se calaram, e suspenderam por momentos a sua presença, agora permanente, na rua, outras se fizeram ouvir. essas vozes, acostumadas a falar por cima de todas as outras, encandeadas pelos holofotes mediáticos e desprovidas da liberdade da palavra, fizeram questão de explicar que, da explicação, aquela em jeito de música, não tinham entendido nada.

não perceberam que não foram os vampiros, mesmo se o céu é cinzento, o astro mudo e chupam o sangue à manada; não foi a formiga no carreiro, mesmo se, à chegada de outro carreiro, se quer mudar de rumo; não foi o que faz falta, mesmo quando a corja topa da janela e o pão sabe a merda; não foi o coro dos tribunais, quando todos viram que o inocente já se abateu; nem sequer clamaram por mais cinco, mesmo quando nesta terra quem trepa o coqueiro é rei, a bucha é cada vez mais dura e a troucha já se embalou para zarpar. não foi nenhuma destas, nem nenhuma das outras. foi aquela, da vila alentejana, feita para que, se um dia tivesse de abandonar o país, ele, Zeca, encontrasse nos homens e mulheres do Alentejo a razão para voltar. foi a Grândola, Vila Morena, que ecoou nas ruas portuguesas porque, quis o destino, ela se tornasse senha de uma revolução. foi a Grândola que percorreu as nossas calçadas como galgou a terra de Madrid, Bordéus, Atenas ou Roma. foi a Grândola, que não foi uma Grandolada, nem é fenómeno mediático ou movimento organizado (e a vergonha devia cobrir de rubor as faces de quem assim a diminuiu, como cobriu a minha quando assim a ouvi chamar). e foi a Grândola porque mais nenhuma podia lançar tão alto o sentido clamor deste povo, um grito inédito desta nossa história democrática, o clamor inequívoco para que nos devolvam aquilo que nos tiraram: a nossa liberdade.


terça-feira, 19 de junho de 2012

sobre a história

Albert Camus e Thomas Mann não foram decerto os únicos a compreender depressa, mal a guerra terminou, o que todos ansiamos esquecer: o bacilo fascista estará sempre presente no corpo da democracia de massas. Negar este facto ou dar outro nome ao bacilo não nos tornará mais resistentes a ele. Pelo contrário. Se queremos combatê-lo eficazmente, teremos de começar por admitir que está novamente prestes a contaminar a nossa sociedade, teremos de o chamar pelo seu nome: «fascismo». Além disso, o fascismo nunca é um desafio, é sempre um grave problema porque desemboca, inevitavelmente, no despotismo e na violência. E chamamos perigo a tudo o que provoque estas consequências. Negar a existência de um problema ou, pior ainda, de um perigo é praticar a política da avestruz. Quem não aprende com a história está condenado a vê-la repetir-se.

Rob Riemen, O eterno retorno do fascismo

quinta-feira, 10 de maio de 2012

a crise precoce dos quarenta

*vem atrasado, mas vem...


aos 38 anos, a nossa democracia entrou na crise de meia-idade – entrada precoce. deixou de acreditar na sua própria capacidade de se regenerar, de se proteger; perdeu a crença nos seus mecanismos intrínsecos, como um corpo gasto que deixa de ter orgulho no que foi e, agora, passou a ser, as duas sempre uma e a mesma coisa. 

abstenção em 2011: 41%; 
desemprego em 2012: 15%; 
desemprego jovem em 2012: 36%; 
apoios sociais – todos e mais alguns: sempre a descer; 
custos de educação e saúde todos e mais alguns: sempre a subir.

alguns dados preocupantes que põem qualquer um a questionar sobre a forma como se permitiu chegar a este ponto de desleixo; um desleixo humano, que despreza tudo e todos, que transforma as pessoas em algarismos, números frios, absolutos, acríticos. suspendem-se direitos, revogam-se liberdades, põe-se em causa princípios elementares da democracia, lápis azula-se a informação, resolvem-se os problemas à bastonada – braço armado da incoerência mais incompetente. emigra-se.

a crise dos quarenta chegou mais cedo, irrompendo casa a dentro, rua a fora, penetrando tetos como se fossem caixas de cartão – há cada vez mais caixas de cartão – forçando-nos a todos a crer que não há saída possível. quer sejam sintomas ou consequências, a resignação, a indiferença e a apatia instalam-se, impotentemente coniventes com o estado a que chegámos – há cada vez menos Salgueiros –, impedindo a reação enérgica que se exige. o remédio, qual receita prescrita pelo mais conceituado dos médicos, está ao alcance de um pulmão e é simples: é a nossa voz, somos nós! 

viva a Liberdade, viva Abril!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

simplesmente zeca

23 de fevereiro de 1987, faz hoje 25 anos. há precisamente 25 anos atrás faltavam 2 dias para completar 2 meses de existência. o Zeca deixou-nos e os meus pais deixaram-me, pela primeira vez, para irem até Setúbal, ao seu funeral. ainda bem que o fizeram.

cresci com as suas músicas, as músicas do Zeca; nas viagens de carro, com aquelas pequenas cassetes que nos acompanharam durante várias horas. decorei-as todas, uma a uma, Grândola, Vila Morena à cabeça, gosto e gesto revolucionário acompanhado por uma voz, a minha, que nunca nasceu para cantar. o Zeca fez de nós livres; libertou-nos da única maneira que é possível, tornando-nos conscientes. e nós, eu, ganhámos consciência do que fomos, do que somos e do que podemos ser. o Zeca fez bem a Portugal e sem ele seríamos, certamente, menos do que aquilo que somos.

eu ganhei consciência com o Zeca e hoje sou mais livre.

viva Zeca, viva sempre.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

sobre democracia, liberdade e protesto

O assalto à Democracia

Temos de aceitar tudo o que nos é imposto com fatalista resignação? A violência das obrigações imputadas autoriza-nos a reagir com semelhante atitude, exactamente porque o que poderá ser legal perdeu a legitimidade por excesso e atropelo. Ninguém sabe o que nos espera no final desta longa e penosa travessia: nem mesmo aqueles que para ela nos impeliram. Temos de reflectir nas actividades políticas de um Governo que não parece muito animado em aspirações sociais e em equilíbrios éticos. Um Governo declaradamente inclinado em nos empobrecer, em estancar qualquer manifestação de cidadania e pouco preocupado em sacrificar legiões de desempregados e de excluídos. A justiça económica da livre troca é uma monstruosa falácia. Todos os dias sofremos ou temos conhecimento dessa fraude ideológica, mas não conseguimos mobilizar as forças da nossa inteligência e o domínio da nossa razão a fim de enfrentar o embuste que nos desgraça.

O poder perdeu (se alguma vez os teve) o pudor e a respeitabilidade. O exemplo recente das nomeações para a EDP tem o carimbo da coligação; mas, antes, o PS procedeu de igual ou pior forma. Eis a ressurreição do rotativismo do séc. XIX. Não há meio de alterar este pêndulo. O assunto da deslocação de Alexandre Soares dos Santos para a Holanda, reprovável no que comporta de moralmente indigno, define o tratado de hipocrisia dos que desencadearam a "polémica". Então, e os antecessores do processo?, são anjos imaculados ou pertencem todos a uma hagiografia de tratantes? Os mesmos preopinantes que, nos jornais, em bravas elucubrações, esgarçam o projecto socialista e, por antinomia, constituem-se como indefectíveis paladinos do capitalismo, viram-se, agora, contra quê?

O sistema que os procriou é aquele que colonizou as mentes e favorece quem o protege e preserva. Passem os olhos pelos rostos dos que dominam o Governo, mas não mandam no País. Assustam. As ordens procedem de fora. E as rodas dentadas da grande engrenagem movem-se através dessas cumplicidades ocultas. Lenta mas perseverantemente foram roubando o nosso já de si tão ausente protagonismo. Deixámos, há muito, de decidir o nosso destino; mas, pelo menos, possuíamos uma noção de presente, por obscuro que fosse. A marcha de José Mário Branco: "Qual é a tua, ó meu / andares a dizer / quem manda aqui sou eu?" - é o apogeu simbólico e trágico da nossa derrota. Andámos quase sempre enganados; no entanto, talvez aprendêssemos que podíamos ser livres no opróbrio. O regresso ao passado talvez forme novos resistentes.

O Governo a nada acede; não se trata de ceder, sim de aceder. E desrespeita a concertação social, simplesmente ignorando-a, e insultando os sindicatos com a soberba da omissão. Não restam dúvidas de que o assalto à democracia está em andamento acelerado.

Baptista Bastos, Diário de Notícias


(Última) Crónica de Pedro Rosa Mendes
Programa "Este Tempo" - Antena 1

Este Tempo - Pedro Rosa Mendes by melhorjuventude

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

seis anos para uma vida


tinha onze anos quando entrei para esta escola. Escola Secundária Alfredo da Silva, assim, sem mais; não era preciso. o nome tinha tudo e representava, como representa, talvez ainda mais hoje que então, a essência do que é ser barreirense, do factor mais agregador que a nossa cidade nos oferece e que mais nos identifica. senti aqui o Barreiro, Lisboa, Portugal, a Europa e o mundo, como Alfredo da Silva também sentiu e fez sentir. vêm visitar a nossa cidade e começo “esta é a Av. Alfredo da Silva, esta é a estátua do Alfredo da Silva e esta é a escola Alfredo da Silva, a escola onde eu andei quando era pequenino”. uma imprecisão que merece correção, porque eu, que sempre fui grande, entrei pequenino para sair de lá muito maior.

aprendi a igualdade e aprendi a liberdade; e aprendi que só há igualdade e liberdade na escola e pela escola. aprendi que a escola pública é a oportunidade que a vida nos oferece de equilibrar a balança das (des)igualdades e percebi que a Escola Secundária Alfredo da Silva é uma escola pública e nunca deixará que alguém diga o contrário; porque aqui, quem cá ensina, sabe libertar as gentes, sabe desamarrar as grilhetas do jugo da ignorância.

foi aqui que ganhei os meus grandes companheiros de viagem, aqueles com quem ainda hoje tenho a honra de a continuar, que me dão a sua generosidade e amizade, e aqueles que nunca conheci, mas que me deram, e dão, toda a sua vida Sócrates, Platão, Pitágoras, Camões, Descartes, Da Vinci, Kant, Darwin, Pessoa, Picasso, Churchill, Salgueiro Maia… em seis anos que estive nesta escola, nunca me senti de passagem, nunca me senti estranho, nunca me senti pequenino; nunca tive de berrar porque percebi que não é preciso gritar para nos fazermos ouvir e que a importância do que dizemos não se compara à importância do que fazemos; que a coerência é o mais íntegro dos valores e que o sentir da gente pequena é sempre respeitado. Aqui entrei menino para me fazer pessoa, para aprender a sentir e a agir, a ser cidadão e político. nesta escola entrei um barreirense pequenino e saí grande para todo o mundo. na Escola Secundária Alfredo da Silva sempre se falou verdade – na Escola Secundária Alfredo da Silva nunca se ouvirá dizer que é impossível mudar o mundo!


texto escrito para a comemoração dos 65 anos da Escola Secundária Alfredo da Silva

sábado, 31 de dezembro de 2011

sobre a perda...

"voglievo bene a tutti i due ma non sono stato capace di imprigionargli dentro questo bene. era la mia idea di libertà. pensavo che ognuno ha il diritto di vivere come gli pare. ma che libertà è morire?"

terça-feira, 6 de setembro de 2011

que tontos estes pobrezinhos...



ouvir o primeiro ministro temer a revolta social contra as suas medidas de austeridade e ameaçar com repressão implacável qualquer distúrbio aquece-nos a alma de saudosismo fascista, não aquece?

bem sei que o esforço está a ser bem feito para que o balanço final deste mandato seja igual ao que se fez de 40 aninhos de Salazarismo: "epah, ao menos as contas estavam em ordem". como dizia o zé mário (que todos podemos tratar assim, mesmo sem nunca lhe ter apertado a mão, porque ele é de todos) "uma porra pá, um autêntico desastre o 25 de Abril, / esta confusão pá, / a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa..."

bons tempos esses, da malta sossegadinha, em que se ia ao bolso com propriedade; tempo refrescante esse dos bufos oficiais, que tanta saudade deixa por aí; os ajuntamentos perigosos com mais de três pessoas, os jornais a defenderem o interesse nacional em vez de o denegrirem; ah, e as cargas policiais do país feliz, esse país que continuou depois de abril, um país que ganhou sufixo de ão pelo génio de quem o governou dez anos imerso em maiorias e certezas absolutas. que bons tempos esses...

e que poética esta visão que o primeiro ministro tem dos portugueses em geral, e dos terroristas que usam as redes sociais em particular; todos uns desordeiros que, veja-se, por não concordarem com a política anti-social deste governo, por se sentirem ultrajados quando são, de novo, privados dos seus direitos (os que deviam ser inalienáveis), o direito, inclusivamente, de ter a vida planeada com o dinheiro que é seu e que servia para pagar as contas no final do mês, decidem protestar e manifestar e gritar e barafustar e protestar.

que tontos estes pobrezinhos, que podem ser ameaçados com uma declaração na televisão de que as suas manifestações não serão toleradas e serão esmagadas. que tontos, não somos camaradas?

quarta-feira, 6 de abril de 2011

sobre estupidificação... três vezes...

como é que eu hei-de explicar isto?


o senhor Blatter e o senhor Platini já tinham dado boas provas de inépcia de pensamento e de análise; e compreendem a realidade quase tão bem como eu da melhor forma de se apanhar um bom bacalhau graúdo.
ora sucede que a Bósnia não é assim um Estado tão antigo quanto isso, pelo menos, de forma independente e, pelo menos, esta Bósnia contemporânea. e sucede da mesma forma que tem um governo tripartido que deriva da tripartição étnica, política e administrativa do país. e sucede também que há coisa de uma década estava a ocorrer um genocídio por estes lados. lembro-me sempre da forma triste como Emídio Fernando, jornalista da TSF, me contou que um dia em Lisboa, ao olhar pela janela da frente e ao ver uma senhora a regar as suas flores, se apercebeu de que, na Sarajevo que tinha acabado de deixar, muito provavelmente um deles já não estaria a olhar para o outro...
"- mas os estatutos..." "- ah! pois é, senhor presidente, os estatutos..."

e depois isto?

Cerimónia do 25 de Abril cancelada no Parlamento

por mim, acho que faz todo o sentido! também já farta tanta liberdade... dá-lhe Zé Mário:

Preocupações, crises políticas pá?
A culpa é dos partidos pá!
Esta merda dos partidos é que divide a malta pá,
pois pá, é só paleio pá, o pessoal não quer é trabalhar pá!
Razão tem o Jaime Neves pá!
(Olha deixaste cair as chaves do carro!)
Pois pá!
(Que é essa orelha de preto que tens no porta-chaves?)
É pá, deixa-te disso, não desestabilizes pá!
Eh, faz favor, mais uma bica e um pastel de nata.
Uma porra pá, um autêntico desastre o 25 de Abril,
esta confusão pá,
a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa...
Tá bem, essa merda da pide pá, Tarrafais e o carago,
mas no fim de contas quem é que não colaborava, ah?

Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, ah?
Quem é que não se calava, quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, ah?
Meia dúzia de líricos, pá,
meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá,
isto é tudo a mesma carneirada!
FMI, José Mário Branco

e por fim isto?

Parlamento italiano salva Berlusconi do caso Ruby

acho que é só assim, e chega, não?

ciao!


quinta-feira, 3 de março de 2011

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

sobre coisas... outra vez...

tenho querido escrever, mas não sei bem sobre o quê. há coisas que me desassossegam, que me inquietam, mortificado fico. Erasmo, o de Roterdão, escreveu muito, sobre coisas, concretas, sérias, sobre a vida. elaborou uma compilação de provérbios e ditados populares, adagiorum collectanea, um de entre oitocentos, a guerra é doce para quem não a experimentou. Vegécio, o de Roma, cidade imperial, explicou e não confies demasiado se o soldado bisonho tem vivo desejo de combater, pois a luta é doce para os que não a experimentaram, mas, caso lhe acuda à memória, assusta desmedidamente quem quer que seja que a conheça.
preocupam-me os exércitos profissionais; que profissão têm então os soldados que não a de fazer a guerra? um sentimento de inquietude perturbante quando ouço um oficial da marinha americana dizer, off the record (ou seja, em dissonância com a posição oficial do governo), que se a industria militar dos estados unidos parasse ou fosse desmantelada, as consequências seriam catastróficas e toda a economia ruiria. assusta-me, sobretudo, por pessimismo, ou não, escutar o meu avô dizer que o factor de equilíbrio mundial, e europeu em particular, só virá com uma guerra.
aflige-me a luta no país basco, a liga do norte em Itália, a extrema direita na mittleuropa, os minaretes na suíça, o radicalismo (islâmico) em qualquer lado, as armas nucleares em todo o lado. apoquenta-me a intolerância, a incompreensão, a presunção, sobretudo a presunção. a presunção da falta de humildade, de quem se arroga o direito de dizer tudo sobre todos, de quem faz opiniões sem o mínimo rigor nas palavras que escolhe e utiliza, sem perceber que a palavra é uma arma, criada para ser inofensiva, tantas vezes subvertida para a infâmia e o perjúrio.
angustia-me o presente, o futuro que se apresenta. nada se aprendeu, os mesmos erros cometem-se vezes atrás de vezes. ignora-se Erasmo, o tal de Roterdão sendo a paz a melhor e a mais aprazível de todas as coisas, e a guerra, ao invés, não só a mais deplorável, como, ao mesmo tempo, a mais criminosa: acaso consideraremos que estão em seu perfeito juízo estes homens que, embora possam, com pequeno trabalho, alcançar a paz, preferem mesmo assim procurar a guerra através das maiores dificuldades?
como saber escrever outra coisa que não a angustia da destruição do homem contra o homem...?

domingo, 7 de fevereiro de 2010

état d'éprit


Daniel Barenboim - Beethoven - Piano Sonata #8 In C Minor, Op. 13, "Pathétique" - 1. Grave, Allegro Di Molto E Con Brio



Daniel Barenboim - Beethoven - Piano Sonata #8 In C Minor, Op. 13, "Pathétique" - 2. Adagio Cantabile



Daniel Barenboim - Beethoven - Piano Sonata #8 In C Minor, Op. 13, "Pathétique" - 3. Rondo: Allegro

sábado, 14 de novembro de 2009

I Beg your Pardon, Sir?!

sobre direitos humanos

Os ingleses, com a sua delicadeza congénita e com o seu politicamente correcto, educado e próprio de uma nação de cavalheiros e damas, têm esta expressão simpática de interpelação quando não compreenderam aquilo que foi dito, ou quando não julgam ter compreendido e querem demonstrar o quão confusos, e por vezes, ofendidos, se estão a sentir. Há algum tempo atrás, o Tribunal Constitucional foi obrigado a deliberar sobre a constitucionalidade do casamento entre duas mulheres. A sua decisão provocou-me esta reacção, "I beg your pardon, Sir?!". Não foi uma interpelação à totalidade de suas excelências, porque numa decisão tão importante como esta, uma maioria simples de 3 para 2 (porque nem sequer estavam presentes todos os juízes) é suficiente e não quero pôr em causa o trabalho de tão competente órgão judicial. Contudo não deixa de me causar estranheza, uma estranheza bem portuguesa, de mostarda no nariz, que em Portugal se continue a contrariar tão abertamente a Constituição portuguesa e que só agora se esteja a contemplar pôr termo a uma clara violação dos direitos humanos. Pior ainda, que o Tribunal Constitucional, "ao qual compete especificamente administrar a justiça em matérias de natureza jurídico-constitucional.", bem como o Código Civil contrariem tão abertamente a Constituição. No artigo 13º da Constituição, que ostenta a epígrafe Princípio da Igualdade, não se refere a possibilidade de haver casamento entre pessoas do mesmo sexo. Contudo, diz-se: "1) todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei. e 2) ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual."
Peço desculpa pelo meu rigor gramatical, mas quando se proibem duas pessoas do mesmo sexo de usufruírem de um direito que duas pessoas de sexos diferentes gozam, parece-me que o verbo a aplicar poderá ser o verbo prejudicar. Podia ser preconceito, mas preconceito não é um verbo!

Post Scriptum: Um dos argumentos que mais me tem convencido da parte dos opositores da rectificação desta violação dos direitos humanos é aquele que diz que há outras questões que merecem ser debatidas e que esta questão não é prioritária. Não podia estar mais de acordo. A essas pessoas digo sempre: “Têm toda a razão. Deixem lá isso e não se desgastem. Corrige-se a injustiça, altera-se a lei e não se fala mais nisso!”

artigo publicado no Jornal do Barreiro.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

viva o chico!

o Chico, o meu Chico, que também é o Chico do meu amigo André, que é dos meus pais, que é de Roma e dos exilados, que encanta Portugal e atravessa o Atlântico, como "o rio Amazonas, que corre Trás-os-Montes, e numa pororoca, deságua no Tejo", escreveu um dia um dos mais belos poemas brasileiros, teve a gentileza de o musicar e apanhou num fôlego o côtidiano do Brasil, e como não podia deixar de ser, o quotidiano de Portugal... porque as diferenças não são assim tantas...

Deus Lhe Pague

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer, e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague

Pelo prazer de chorar e pelo "estamos aí"
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir
Um crime pra comentar e um samba pra distrair
Deus lhe pague

Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui
O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir
Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi
Deus lhe pague

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair
Deus lhe pague

Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir
Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir
Deus lhe pague

Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague


Chico Buarque, Deus Lhe Pague

sexta-feira, 31 de julho de 2009

dove sono?!

che cavolo succede al'Italia?! non, non me piacciono i cavoli... me piace più: che cazzo succede al'Italia?! dove cazzo sono l'italiani combattenti e resistenti?! l'antifascisti che sembrano ormai dormenti in fronte a un cavalieri che se assomiglia più ai fascisti che Mussolini se stesso?! dov'è l'Italia sveglia che non se lascia confondere con i piedi de agnello della famiglia Mussolini di nuovo sotto le luce abbagliante del potere... oppure con il ritorno sincero, spiacente, però, finanziariamente compensatori dei Savoia?! che ha successo con l'Italia de Garibaldi e Cavour, che se ha unificato coraggiosamente, che è sopravissuta delle umiliazione de un Trattato de Versailles, le direttive fasciste de Mussolini e di nuovo le umiliazione nella guerra in Africa, che è riuscita a farse sentire nel mondo come una potenza industriale, che ha dato al mondo la gioia de la conoscere, che ha avuto le scontri destra-sinistra, che ha vinto la guerra contro i terroristi rosse - che non hanno capito che la violenza le hanno fatto perdere la ragione - che ha pianto per Aldo Moro, sinceramente o non, che ha avuto dei angeli nel mezzo del fango, che ha legalizzato l'aborto, il divorzio - anche se mancano i diritti gay - contro una Chiesa che abita proprio dentro de se stessa, proprio al suo cuore, e molto prima de tante nazione europee, con ani luce de differenza della super potenza americana...
dov'è l'Italia capace de dire basta, capace de alzare il culo di fronte dei programmi intorpidenti e insultanti della mediaset, de fare giustizia e condannare il "Cavalieri Caimano", che se ride de tutte le situazione come se fosse sopra la legge, como se fosse intoccabile, che approva una legge de immunità per se stesso, che dichiara guerra ai napoletani che hanno dichiarato guerra alla Camorra?! dov'è questa Italia, dove sono questi italiani?! se ci sono, perché non se fanno sentire, se si fanno sentire, perché non gli ascoltiamo, e se gli ascoltiamo, perché la TV è ancora sul Italia 1?!

sexta-feira, 10 de julho de 2009

contra o moralismo

os latinos diziam:

video meliora proboque, deteriora sequor
(vejo o que é melhor e aprovo, mas sigo o pior)


a adriana diz assim:


Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos
Mas o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até os estetas
Eu não julgo competência
Eu não ligo pra etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
E compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Não, não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem
Eu gosto dos que têm fome
E morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem

Adriana Calcanhotto, Senhas