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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

sobre coisas que é preciso entender

The Shock Doctrine - um documentário realizado por Mat Whitecross e Michael Winterbottom, com base na obra homónima de Naomi Klein.

terça-feira, 26 de junho de 2012

terça-feira, 12 de junho de 2012

grito sufocado


demorámos muitos séculos até conseguirmos atribuir a todos aquilo que sempre foi privilégio de apenas alguns. a massificação dos direitos humanos - a sua democratização, como muitas vezes se proporciona chamar - obrigou-nos a ultrapassar os direitos divinos, os direitos reais, os direitos nobiliárquicos, os direitos feudais e a terminar com a ignorância que permitia a sua perpetuação. ultrapassámos direitos e ultrapassámos rupturas históricas, retrocessos, contra-revoluções ou contra-reformas. renascemos e depois iluminámo-nos até nos revolucionarmos - almas mecânicas industrializadas que entraram de rompante pelo século XX adentro.

por aqui, pelas nossas terras, começámos o século a fazer jorrar sangue para pôr fim aos direitos que ele continha. findou a monarquia e, com ela, triunfaram os ideais de uma república que se queria de todos, por todos e para todos. nesse período, não houve preocupação maior que não a de lutar contra o obscurantismo em que vivia mergulhado grande parte da população portuguesa, a escuridão da iliteracia, da falta de cuidados de saúde e da fome. foram dezasseis anos que tiveram o mérito de deixar germinar a ideia de que era possível uma sociedade diferente, construída por quem a constitui e não por quem tinha a sorte do destino.

e eis que, sobre a pretensão do dealbar de sentimentos nacionalistas, do retorno do messias salvador, o déspota iluminado, o ditador bom, na linguagem borgiana - o nosso pequenino, não o Nosso grande, do outro lado do Atlântico - mergulhámos, novamente, nas mais profundas trevas e num tremendo retrocesso civilizacional a que hoje se chama austeridade necessária. décadas de deliberada ignorância e solidão, de mesquinhez instituída no estado, de empobrecimento voluntário, de miséria exacerbada como sinal de orgulho lusitano, de exploração humana aquém e além mar, da carne para canhão porque Angola era nossa, de mortalidade infantil e iliteracia dignas de qualquer país abaixo do nível do mar em que se encontra o Saara, enfim, pobrezinhos mas felizes.

e, depois, florescemos para a liberdade, liderados por capitães alumiados pelo conhecimento que a nato e as américas lhes proporcionaram, condição talvez não sine qua non mas certamente determinante para a arrancada fulgurantemente democrática dos nossos militares, povo também eles, como nós, connosco. durante as décadas que se seguiram, enveredámos pelos caminhos sinuosos que nos afrontavam, procurando arrancar as raízes da ignorância, do medo, da mediocridade, da escassez de cuidados de saúde, da fome, da moral parola. criámos o sistema nacional de saúde e a escola universal - do 4º para o 6º, do 6º para o 9º e do 9º para o 12º - públicos, free of charge, que em inglês percebe-se tudo melhor por cá, hediondamente acessíveis aos filhos dos doutores e dos serventes, numa mistura escusada, que assim há menos exigência e menos qualidade, não é? esforço hercúleo para nos equipararmos às linhas hemisféricas do norte pelo qual nos pretendemos equiparar e que hoje, olhando para trás, se apelida de viver acima das possibilidades intrínsecas de cada um e de todos nós. que importância tem que a probabilidade que os valorosos guerreiros da paternidade enfrentam de ver sobreviver o seu infante à nascença seja incomparavelmente superior àquela que eles próprios terão tido que contrariar? que importa que tenhamos conseguido melhorar a qualidade dos acessos sanitários da grande generalidade da população e a sua consciência disso mesmo se não tínhamos possibilidade de o fazer? porra, nós não tínhamos dinheiro para andar a salvar vidas! à boa maneira portuguesa, pouco nos importámos com isso e foi gastar e gastar e gastar, como se nos pudéssemos dar ao luxo de salvar todas as vidas que eram precisas salvar ou dar a dignidade que todos os momentos exigiam. e, já se sabe, a ilusão da igualdade é coisa de esquerdistas radicais que a malta não é toda igual, que não temos cá dinheiro para andar a perder tempo a ensinar o b-a-ba a quem só quer é enveredar pelo caminho fácil da ladroagem.

na luta por estes ganhos civilizacionais, pela nossa transformação social, errámos muitas vezes e também destruímos o que não devíamos ter destruído. não decidimos sempre pelo bem comum, não fomos sempre democráticos nas nossas escolhas nem republicanos no impacto das nossas decisões. protestámos, gritámos, interviemos, resignámo-nos, protestámos outra vez. conseguimos, quase sempre, ao longo de trinta e tal anos, um saldo positivo na construção de uma sociedade mais justa, mais livre e mais solidária. não fomos, muitas vezes, capazes de dar continuidade ao que tinha sido feito anteriormente, nem tão pouco nos preocupámos em avaliar os impactos do passado nas ações do futuro. cada ciclo governativo era novo, cada alinhamento de protagonistas uma hipótese de renascimento, de recomeço, de renovação, de reconstrução. mantivemos a coerência na defesa das grandes opções do plano -  na saúde, na educação e na proteção social - mesmo com a aplicação prática das diferenças da argamassa teórica da ideologia.

perdemos essa coerência. perdemo-la passivamente, mesmo que não a quiséssemos entregar ao desbarato, porque nos venderam a ideia que tínhamos querido mais do que poderíamos sequer ter almejado. paulatinamente, puxaram-nos o tapete, de fininho, mês a mês, décimo quarto, décimo terceiro, cortaram-nos a rede, pequenos buracos, justificados, insignificantes até ao momento em que têm de sustentar o nosso corpo e, completamente desempossadas das suas funções vitais, nos deixam, jovens ou velhos trapezistas, cair na mais profunda miséria e desespero. e quando, na miséria, precisamos dos mais básicos e elementares cuidados, dizem-nos que a saúde não a tem e que apenas resiste ligada às máquinas, aguardando a declaração de óbito, prevista mais para ontem que para amanhã; temos doenças acima das nossas possibilidades. ou então estamos saudáveis de mais, que trabalhar quarenta e cinco anos - se formos daqueles modernos que só começam a trabalhar depois dos vinte, que dantes é que era a sério, trabalhar a partir dos dez - não é sustentável. é assim que vivemos, a querer sempre mais e mais, sempre descontentes, inconformados, a querer casa, carro e férias, desvarios pequeno-burgueses, sem nada fazermos para os merecermos, que somos preguiçosos e calões e saudosistas e melancólicos fadistas. porra, comemos acima das nossas possibilidades!

e mal não estivéssemos por estes dias, quebram-se, agora, as últimas barreiras e destroem-se os últimos pilares democráticos, ataca-se a escola, elitiza-se o ensino com o vocabulário cratino e inflaciona-se a exigência, medida pelo nível de quem não consegue atingir aquilo que não sabia que tinha de saber. restauram-se, por decreto, os valores nacionais de outrora - a roupa, oh, a roupa certa e adequada ao local - e reduzem-se conhecimentos supérfluos - a história e as ciências, que nos basta ler, escrever e contar. pensar não traz riqueza nem dinheiro de além mar, pensar só baixinho, que o dinheiro da televisão e da rádio públicas não serve para propagandear o anti-patriotismo de quem não se digna a suster o peso da nação na lapela. mergulhamos, novamente, num obscurantismo profundo, invertemos prioridades, objetivos, declaramos guerra ao excesso de alunos nas nossas escolas, responsáveis exclusivos pelo despesismo, pelo excesso de verbas gastas com o ensino. hipotecamos o futuro, hipotecamos gerações que deviam aprender a combater desde cedo a instituição nacional da cunha, da corrupção, da servidão do interesse próprio, a serem melhores que todos nós. remetemos gerações para a ignorância automata papagueada pelos arautos do neo-liberalismo, que acasalam entre si, no interior das oportunas e sólidas paredes dos colégios privados das elites, reproduzindo o conservadorismo reacionário e invadindo os corredores de poder do estado, aonde, progressivamente, só eles conseguem aceder. porra, pensamos acima das nossas possibilidades!

hoje, a rolha que nos tapava a garganta aperta-se cada vez mais e já não se vai soltando; vemos como inevitável que se concretize este país de pelintras [onde] se acha normal haver mãos desempregadas e se acha inevitável haver terras por cultivar! porra, sonhamos acima das nossas possibilidades!

hoje vamos para a rua fazer democracia?

quarta-feira, 16 de maio de 2012

hipocrisia retórica / retórica hipócrita

recordo-me bem de vários debates que fui tendo com os cavaleiros do liberalismo, arautos da iniciativa privada. o tema, as "novas oportunidades", reunia, junto destes vanguardistas, um incrível consenso. e os elogios ao programa não eram poupados: facilitismo, oportunismo, falta de rigor, falta de credibilidade, amiguismo, injustiça, deslealdade, aproveitamento, incompetência, desperdício de fundos.

por uma vez, os membros do governo cumpriram com o prometido antes de serem eleitos para o cargo que ora ocupam e, logo que em plena posse, decidiram encerrar o malfadado programa. fim por decreto dos centros que o albergavam e despedimento sumário de quem nele exercia legitimamente a sua profissão. missão sobejamente bem cumprida.

recordo-me bem de vários debates com os mais radicais defensores do programa, os mais comprometidos com a iniciativa, alguns dos seus responsáveis, dos que a idealizaram e aplicaram. um incrível consenso na assunção das falhas - curriculares, letivas, de avaliação. havia desfasamentos, facilitismo, desadequações. e havia essa consciência. nada de extraordinário, portanto. a solução lógica seria corrigi-los, algo que reunia consenso e unanimidade, também, entre estes últimos. não era, não foi, a solução lógica.

com este encerramento, faltou uma coisa a este governo: perceber a essência do nome da coisa. não há desadequamento algum aí - o programa, era, foi, de facto, uma nova oportunidade para quem não a tinha tido ou a tinha desaproveitado. era, foi, a oportunidade de entender que o desemprego é o maior flagelo social que uma comunidade pode enfrentar, que a falta de realização profissional corrói o funcionamento da própria sociedade à velocidade de uma térmita, seguindo o mesmo padrão e adoptando as suas características, lentamente até à deterioração final súbita e repentina. que esta era, foi, uma nova oportunidade para combater o atraso educacional, o atraso na literacia que, ainda hoje, temos de dívida do tempo da outra senhora.

o combate ao facilitismo faz-se numa linguagem própria, o idioma eduquês, falado pela pseudo elite cratina, que considera que é preciso aumentar a exigência dos programas curriculares, endurecer os critérios de avaliação, apertar a malha da excelência. a pseudo elite cratina discordará de tudo o que aqui se discorre. corrijo, concordará com a dívida do tempo da outra senhora - a dívida de gratidão que, ainda hoje, temos.

vivam as cratinices!

lede:
Passos Coelho e os desempregados in Versaletes

Passos Coelho reitera que desemprego é uma «oportunidade» in TSF

Governo ordena despedimentos colectivos no Novas Oportunidades in Público

Fenprof e FNE contra encerramento dos centros Novas Oportunidades in Público

Encerrados 97 centros Novas Oportunidades desde novembro [de 2011] in SicNotícias

O teste intermédio de Matemática do 9.º ano foi “excessivamente complexo” e “completamente desadequado”, dizem as associações de professores. in Público

estamos quase lá

mais um bocadinho e consuma-se a morte. falta pouco.
"Ao fim de dez meses o cinema português corre perigo de vida", petição Cinema Português: Ultimato ao Governo in Público

hurra!

É preciso dizer mais alguma coisa?
Portugal tem das mais altas taxas de desemprego entre os jovens, de acordo com os dados hoje divulgados pela OCDE. in Público

quinta-feira, 8 de março de 2012

não resolve tudo

ou até pode nem resolver nada; mas nunca ninguém consegue resolver tudo, não é?

Kony 2012 - Invisible Children


KONY 2012 from INVISIBLE CHILDREN on Vimeo.KONY 2012 is a film and campaign by Invisible Children that aims to make Joseph Kony famous, not to celebrate him, but to raise support for his arrest and set a precedent for international justice.
HOW TO HELP:Visit: http://kony2012.comDonate to Invisible Children: https://www.stayclassy.org/checkout/set-donation?eid=14711For info on Invisible Children: http://invisiblechildren.com
DIRECTOR: Jason Russell LEAD EDITOR: Kathryn Lang EDITORS: Kevin Trout, Jay Salbert, Jesse Eslinger LEAD ANIMATOR: Chad Clendinen ANIMATOR: Jesse Eslinger 3-D MODELING: Victor Soto VISUAL EFFECTS: Chris Hop WRITERS: Jason Russell, Jedidiah Jenkins, Kathryn Lang, Danica Russell, Ben Keesey, Azy Groth PRODUCERS: Kimmy Vandivort, Heather Longerbeam, Chad Clendinen, Noelle Jouglet ORIGINAL SCORES: Joel P. West SOUND MIX: Stephen Grubbs, Mark Friedgen, Smart Post Sound COLOR: Damian Pelphrey, Company 3 CINEMATOGRAPHY: Jason Russell, Bobby Bailey, Laren Poole, Gavin Kelly, Chad Clendinen, Kevin Trout, Jay Salbert, Shannon Lynch PRODUCTION ASSISTANT: Jaime Landsverk LEAD DESIGNER: Tyler Fordham DESIGNERS: Chadwick Gantes, Stephen Witmer
MUSIC CREDIT: 
Original Instrumental Scores by Joel P. West http://www.joelpwest.com/
“02 Ghosts I” Performed by Nine Inch Nails, Written by Atticus Ross and Trent Reznor, Produced by Alan Moulder, Atticus Ross, and Trent Reznor, Nine Inch Nails appear courtesy of The Null Corporation
“Punching in a Dream”, Performed by The Naked and Famous, Written by Aaron Short, Alisa Xayalith, and Thom Powers, Produced by Thom Powers, The Naked and Famous appear courtesy of Somewhat Damaged and Universal Republic
“Arrival of the Birds”, Performed by The Cinematic Orchestra, Written by The Cinematic Orchestra, Produced by The Cinematic Orchestra, The Cinematic Orchestra appears courtesy of Disney Records
“Roll Away Your Stone”, Performed by Mumford and Sons, Written by Benjamin Lovett, Edward Dwane, Marcus Mumford, and Winston Marshall, Produced by Markus Dravs, Mumford and Sons appear courtesy of Glassnote Entertainment Group LLC
“On (Instrumental)”, Performed by Bloc PartyWritten by Bloc Party, Produced by Jacknife Lee, Bloc Party appears courtesy of Vice Records
“A Dream within a Dream”, Performed by The Glitch Mob, The Glitch Mob appears courtesy of Glass Air
“I Can’t Stop”, Performed by Flux Pavilion, Flux Pavilion appears courtesy of Circus Records Limited

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

o regresso da mediocridade comezinha e do moralismo de algibeira


nada que surpreenda. quem não entende o significado e a origem da bandeira que "orgulhosa e patrioticamente" ostenta na lapela, pouco pode saber sobre liberdade e direitos civis.

Las mujeres tendrán que volver a dar una justificación para abortar

El País, 2 de Fevereiro de 2012 (aquele ano que é, ao que tudo indica, no século XXI)

iOnline, 2 de Fevereiro de 2012 (aquele ano que, ao que tudo indica, continua a ser no século XXI)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

sobre democracia, liberdade e protesto

O assalto à Democracia

Temos de aceitar tudo o que nos é imposto com fatalista resignação? A violência das obrigações imputadas autoriza-nos a reagir com semelhante atitude, exactamente porque o que poderá ser legal perdeu a legitimidade por excesso e atropelo. Ninguém sabe o que nos espera no final desta longa e penosa travessia: nem mesmo aqueles que para ela nos impeliram. Temos de reflectir nas actividades políticas de um Governo que não parece muito animado em aspirações sociais e em equilíbrios éticos. Um Governo declaradamente inclinado em nos empobrecer, em estancar qualquer manifestação de cidadania e pouco preocupado em sacrificar legiões de desempregados e de excluídos. A justiça económica da livre troca é uma monstruosa falácia. Todos os dias sofremos ou temos conhecimento dessa fraude ideológica, mas não conseguimos mobilizar as forças da nossa inteligência e o domínio da nossa razão a fim de enfrentar o embuste que nos desgraça.

O poder perdeu (se alguma vez os teve) o pudor e a respeitabilidade. O exemplo recente das nomeações para a EDP tem o carimbo da coligação; mas, antes, o PS procedeu de igual ou pior forma. Eis a ressurreição do rotativismo do séc. XIX. Não há meio de alterar este pêndulo. O assunto da deslocação de Alexandre Soares dos Santos para a Holanda, reprovável no que comporta de moralmente indigno, define o tratado de hipocrisia dos que desencadearam a "polémica". Então, e os antecessores do processo?, são anjos imaculados ou pertencem todos a uma hagiografia de tratantes? Os mesmos preopinantes que, nos jornais, em bravas elucubrações, esgarçam o projecto socialista e, por antinomia, constituem-se como indefectíveis paladinos do capitalismo, viram-se, agora, contra quê?

O sistema que os procriou é aquele que colonizou as mentes e favorece quem o protege e preserva. Passem os olhos pelos rostos dos que dominam o Governo, mas não mandam no País. Assustam. As ordens procedem de fora. E as rodas dentadas da grande engrenagem movem-se através dessas cumplicidades ocultas. Lenta mas perseverantemente foram roubando o nosso já de si tão ausente protagonismo. Deixámos, há muito, de decidir o nosso destino; mas, pelo menos, possuíamos uma noção de presente, por obscuro que fosse. A marcha de José Mário Branco: "Qual é a tua, ó meu / andares a dizer / quem manda aqui sou eu?" - é o apogeu simbólico e trágico da nossa derrota. Andámos quase sempre enganados; no entanto, talvez aprendêssemos que podíamos ser livres no opróbrio. O regresso ao passado talvez forme novos resistentes.

O Governo a nada acede; não se trata de ceder, sim de aceder. E desrespeita a concertação social, simplesmente ignorando-a, e insultando os sindicatos com a soberba da omissão. Não restam dúvidas de que o assalto à democracia está em andamento acelerado.

Baptista Bastos, Diário de Notícias


(Última) Crónica de Pedro Rosa Mendes
Programa "Este Tempo" - Antena 1

Este Tempo - Pedro Rosa Mendes by melhorjuventude

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

ainda sobre a SOPA


acho que foi o vídeo mais original feito sobre o assunto

soluções para a mediocridade comezinha

Quer inovação? Contrate alguém de humanidades

Quantas pessoas na sua organização são pensadores inovadores que podem ajudar nos seus problemas de estratégia mais espinhosos? Quantos possuem uma compreensão interessada das necessidades dos clientes? Quantos sabem o que é preciso para assegurar que os funcionários se envolvam no trabalho?

Se a resposta for "não muitos", bem-vindo ao clube! Os líderes empresariais em todo o mundo têm-me dito que desesperam por encontrar pessoas que os possam ajudar a resolver problemas complicados - ou mesmo por fazê-las pensar no assunto. Não é que as empresas não tenham pessoas inteligentes a trabalhar para elas. Existem muitos MBA e até doutorados em economia, química ou ciências informáticas nos quadros das empresas. Não falta potencial intelectual. O potencial indicado é que é difícil de encontrar. Simplesmente não há um número suficiente de pessoas com os conhecimentos certos.

Isto acontece porque os nossos sistemas educativos se centram em ensinar os alunos de ciências e de gestão a controlar, prever, verificar, garantir e testar dados. Não ensinam como navegar nas questões "e se..." ou em futuros desconhecidos. Como Amos Shapira, o CEO da Cellcom, a operadora de rede móvel líder em Israel, afirmou: "O conhecimento que eu uso como CEO pode ser adquirido em duas semanas ... A principal coisa que se deve ensinar a um estudante é como deve estudar e analisar as coisas (incluindo) história e filosofia."

As pessoas formadas em humanidades que estudam poesia de Shakespeare, ou os quadros de Cézanne, por exemplo, aprenderam a lidar com grandes conceitos e a aplicar novas formas de raciocínio aos problemas difíceis que não podem ser analisados de forma convencional.

Aqui estão algumas coisas em que a multidão das artes liberais o pode ajudar:

Complexidade e ambiguidade.

Muitas empresas não têm o alcance de entendimento para acabar com problemas antes de estes começarem porque a sua equipa está demasiado focada em tarefas imediatas, ou submersa em tantos dados que não consegue ver os sinais de alerta. O desastre do derrame de petróleo da BP, os problemas de produção na Johnson&Johnson e na Genzyme e muitos outros poderiam ter sido evitados se tivessem aprendido a identificar ameaças ambíguas.

Qualquer grande obra de arte – seja literária, filosófica, psicológica ou visual – desafia um humanista a ser curioso, a fazer perguntas de resposta livre, a ter uma visão geral. Este tipo de pensamento é precisamente o que necessita se estiver a enfrentar um futuro sombrio ou a lidar com problemas complicados e incipientes.

Inovação

Se quer um pensamento original, precisa de libertar a criatividade inerente das pessoas. Os humanistas são treinados para serem criativos e estão adaptados de uma forma única a liderar equipas criativas. (Um caso aplicável: Steve Jobs, que reconhece abertamente como estudar a bela arte da caligrafia o levou a criar a interface do Macintosh).

Comunicação e apresentação

As pessoas formadas em artes liberais estão bem treinadas para escrever e apresentar, tornando-os naturalmente aptos para o marketing, formação e investigação. Um enfoque na escrita (que é necessária para licenciaturas em história, literatura, filosofia e retórica) ajuda as pessoas a desenvolver argumentos convincentes, e uma formação em actuação (como em teatro ou música) dá às pessoas muitas competências de apresentação. E uma compreensão da história é indispensável se quiser entender a arena competitiva e os mercados globais mais amplos.

Satisfação do cliente e funcionário

A capacidade de "se pôr na pele" dos clientes e dos funcionários para descobrir as suas verdadeiras necessidades e preocupações exige algo mais do que estudos, que produzem informação superficial. Em vez disso, precisa de poderes perspicazes de observação e psicologia – o material dos poetas e romancistas.

E que mais?

Uma pessoa que estudou uma língua estrangeira ou literatura pode gerir os seus escritórios no exterior, ou ajudar com a sua estratégia global, disponibilizando conhecimentos locais ou análise de negócios. Os filósofos podem ajudá-lo com a ética. Os historiadores podem ajudá-lo a compreender o passado enquanto lhe dão uma imagem do futuro. (Pergunte a A.G.Lafley da P&G, que em tempos planeava ser professor de história medieval e do renascimento).

Se quiser outra boa razão para contratar alguém formado em humanidades, pense nisto: empresas de consultoria como a McKinsey e Bain gostam de os contratar por todas as razões acima descritas. Pode ser você próprio a contratar pessoas formadas em artes liberais, ou pode pagar balurdios às grandes empresas de consultoria que as irão contratar para pensarem por si.

Tony Golsby-Smith*, Harvard Business Review in Dinheiro Vivo 
 
* fundador e CEO da Second Road, uma empresa de concepção e transformação de negócios sediada em Sydney, na Austrália.
 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

coisas que merecem destaque I

Geração André

25 de Dezembro. Foi o último dia do André na redacção. Sentou-se à mesa, no bar, como se fosse ficar ali para sempre. Como se aquela fosse a sua casa. Como se a dedicação e o brilhantismo de seis meses de estágio fossem suficientes para garantir um lugar entre nós.

O André foi o melhor estagiário que passou por aquela redacção desde que cheguei. O André trabalhou dia e noite, fez sábados, domingos e feriados. Dispensou folgas, esqueceu horários, correu, transpirou, apanhou chuva, frio e voltou sempre com aquele sorriso de quem ama o jornalismo. O André fez reportagens brilhantes: entrevistou ministros, pescadores, sem-abrigo, artistas de circo, sempre com o mesmo rigor, a mesma dedicação, o mesmo profissionalismo. O André aprendeu a editar, a legendar, a sonorizar e a escrever como poucos. O André será um grande jornalista deste país, se o país deixar. O André foi-se embora no dia de Natal, depois de mais uma jornada de intenso trabalho na redacção. Acabou o estágio.

A crise. A crise. A “crise diz” que não há espaço para o André numa empresa com nove milhões de lucro. O André não é bom. O André é muito bom. Mas ser muito bom não chega num país liderado por medíocres. E é este o drama da geração do André. Esqueçam esse eufemismo da “geração à rasca”. Esta é a geração sem futuro num país liderado por uma geração parida pelas “vacas gordas” do cavaquismo à qual o guterrismo deu de mamar. É esta, sim. É esta a geração que mostrou o rabo indignada contra o aumento de meia-dúzia de tostões nas propinas. Tão rebeldes que eles eram.

Chegou ao poder a geração do “baixa as calças”, a geração jota. É a mesma coisa. Quando não havia emprego, sobrava o partido. Quando não havia partido, sobrava o amigo do partido, ou uma sociedade de advogados. E foi andando assim, nos anos loucos do Portugal do “Progresso” de Cavaco Silva, ou no país da “Razão e Coração” de Guterres. Foi-se o Progresso, ficou o monstro do Estado cheio de parasitas. Faltou a razão e o coração começou a vacilar. Já instalada nos corredores do poder, a geração habituada a baixar as calças, indignada claro, calou-se e deixou-se embalar. O poder… O poder ali tão perto.

Hoje, é a geração que cresceu no tempo das “vacas-gordas” que vem falar de flexibilização laboral. Que fale. Que avance para a reforma do mercado de trabalho, sem medo, mas que entenda que isso só faz sentido se for para proteger os “Andrés” deste país. O problema é que a geração do poder, habituada a baixar as calças, fala pelos livros: leu por aí qualquer coisa sobre isso. Sopraram-lhe.

É disso que os abutres gostam: de quem baixa as calças e não sabe muito bem do que fala. É aqui que mora o perigo.

A reforma da legislação laboral deve ser feita em nome dos miúdos como o André e não para desafogar empresas que em dez anos acumularam mais de 500 milhões de lucro. O ponto de honra tem de ser outro: valorizar o mérito e conceder oportunidade a quem mostra que tem valor. Dói? Vai doer a alguém, claro. Vai doer a quem está há anos encostado, por preguiça, a fazer os serviços mínimos na empresa, a quem não acrescenta valor, a quem não veste a camisola, nem está disposto a inovar e a tentar fazer diferente todos os dias. A esses vai doer. Que doa!

Essa reforma deve ser feita tendo por base a ideia de que um estagiário como o André, brilhante, depois de seis meses a pagar para trabalhar, não pode não ser absorvido por uma empresa que dá nove milhões de lucro. Não pode. Doa a quem doer. Se para isso é preciso flexibilizar o despedimento do medíocre, do preguiçoso, do incompetente, vamos a isso. Um país que desperdiça a geração do André é um país condenado. Estes miúdos já não exigem um emprego para a vida. Querem apenas uma oportunidade.

Bem, deixemo-nos de utopias. Quando o poder é financeiro e os líderes medíocres, já toda a gente percebeu onde é que isto vai parar. Os deputados que alteram a Lei trabalham nas sociedades de advogados que prestam serviços às empresas interessadas em despedir. Está tudo dito. Um pouco como o contrato da barragem do Tua. O ministério do Ambiente tutela parte do processo e o contrato de concessão com a EDP, que pressupõe uma indemnização de quase 100 milhões de euros em caso de quebra, tem sido seguido pela antiga firma de advogados da ministra.

Deixemo-nos de utopias, de facto. Esta será mais uma reforma perdida para a maioria. O André continuará a enviar currículos. As empresas vão aproveitar a crise e a Lei. Um dia, o André acordará cansado e sem forma de continuar a trabalhar de borla em nome do sonho. Ou emigra, ou acaba na caixa do hipermercado para pagar a renda da casa que partilha com os amigos. “Não há drama”, grita a geração do poder. Pois não. Nem futuro.

SOPA devia ser só para comer

* título roubado de uma amiga
Começou o grande protesto contra a censura na Internet
Grandes sites aderiram

Wikipedia, Google, Wordpress, Huffington Post, Boing Boing e muitos outros sites relevantes ou de referência estão hoje em protesto contra a legislação antipirataria que se estava a preparar nos Estados Unidos. Quem acede à versão inglesa ou norte-americana da maior enciclopédia online, a Wikipedia, por exemplo, não encontra mais do que uma página com fundo negro e algumas frases a explicar que hoje ninguém navega naquele site. O protesto irá durar 24 horas.

Nem a informação de que os republicanos no Congresso só avançariam com um consenso político alargado para a aprovação de legislação antipirataria demoveu grandes nomes da World Wide Web de porem em marcha um protesto contra o que consideram ser mais uma legislação que vai mais longe do que a protecção dos direitos de autor.

Quem acede ao Google a partir dos Estados Unidos não vê o logotipo do popular motor de busca, escondido por detrás de uma fita negra. Quem tenta entrar na página inicial da plataforma de blogues Wordpress depara-se também com uma página dominada pelo negro. Cenário idêntico acontece em muitos outros sites, na sua maioria de origem norte-americana, mas cuja popularidade extravasa largamente os Estados Unidos. As adesões ao protesto estão compiladas no site www.sopastrike.com, cujo endereço tem o nome de uma das propostas legislativas que estão em causa, o SOPA (Stop Online Piracy Act).

A Wikipedia portuguesa não está paralisada como a versão inglesa ou americana, mas na versão lusa, qualquer página apresenta, no topo, um banner com informação sobre a luta e o protesto em curso.

Além dos nomes já referidos, outros demonstraram cedo o seu descontentamento com a iniciativa legislativa – que não se resume ao SOPA, incluindo outra peça jurídica, abreviadamente denominada PIPA (Protect IP Act). Entre eles estavam os fundadores do Netscape, Google, Twitter, Flickr, Yahoo!, LinkedIn, YouTube, PayPal, craigslist ou eBay, que consideram que estas duas propostas dão ao Governo dos Estados Unidos o poder de censurar a web com técnicas similares às que serão usadas na China, na Malásia ou no Irão, onde o acesso está condicionado. Sustentam estas personalidades que as propostas legislativas em cima da mesa alterariam também a estrutura básica da Internet – um argumento que explica por que está o protesto a ter a atenção mundial, uma vez que se teme que as repercussões destas consequências nefastas possam ser globais. Isto porque aquelas medidas permitem actuar contra sites fora da jurisdição americana.

Na prática, o Stop Online Piracy Act prevê que o procurador-geral norte-americano (cargo equivalente ao do ministro da Justiça em Portugal) possa pedir o encerramento de sites que considere estarem a violar direitos de autor, dependendo apenas de uma denúncia dos estúdios de cinema, da indústria discográfica ou de quaisquer outros detentores de direitos de autor. A proposta admite também que o Governo norte-americano possa exigir a remoção de um determinado site das pesquisas nos motores de busca e que os detentores de direitos de autor fiquem com o caminho aberto para cortarem o financiamento – bancário e através de publicidade, por exemplo – a um site que considerem estar a infringir a lei.

Para além do Stop Online Piracy Act, na Câmara dos Representantes, os legisladores norte-americanos estão a discutir outra proposta de lei antipirataria no Senado, conhecida como PIPA – Protect IP Act. O autor desta proposta, o democrata Patrick Leahy, já anunciou que está disposto a retirar do texto uma das suas premissas mais polémicas, que obrigaria os fornecedores de Internet a impedirem a entrada dos utilizadores em sites que contenham ou promovam o acesso a ficheiros protegidos por direitos de autor. “Esta decisão porá fim a muita da oposição que enfrentamos”, diz.

A Casa Branca está do lado dos que hoje protestam. Numa declaração do Presidente dos Estados Unidos, publicada no blogue da Casa Branca há quatro dias, afirma-se que a Administração Obama “não irá apoiar legislação que reduza a liberdade de expressão, que aumente o risco da cibersegurança ou que ponha em causa uma Internet global dinâmica e inovadora”.

18 de Janeiro de 2012 - Público

Felizmente, depois, o José Mário Branco diz isto:
"Predomina, até na autoria, na propriedade intelectual, a propriedade privada. É estupidez! Completa. Quem é que está aqui a defender a propriedade privada de Mozart ou do Beethoven, ou do Shakespeare? Ninguém!"
Haja quem o queira ouvir.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

sobre a mediocridade comezinha...

este artigo estava perdido no baú virtual, mas merece toda a recuperação, divulgação e reflexão.



Alexandra Prado Coelho, Pública

terça-feira, 27 de setembro de 2011

sobre o fim da barbárie

a última tourada na "Monumental" de Barcelona animou muito a comentarite nacional esta semana. os arautos da tradição logo se apressaram a esgrimir argumentos em como esta era uma tomada de posição independentista contra Madrid mais que contra as touradas, que era uma opressão das minorias, uma falta de respeito pelos amantes da "arte tauromáquica", o fim de mais uma tradição e, até, o início do fim de uma espécie (o touro bravo).

que vão todos, inclusivamente o Miguel, dar uma grandessíssima e digníssima curva ao bilhar grande.

como refere, e bem, o Sérgio Lavos, a história encarregar-se-á de nos ridicularizar por termos chegado ao século XXI com esta trampa legalizada!


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

os tempos estão a mudar

depois das declarações de Paulo Macedo, a Médis lançou agora um novo anúncio publicitário absolutamente mórbido e que resume em si toda uma nova forma de encarar a saúde pública em Portugal. mais uma vez se prova que a escolha dos ministros foi a mais adequada para cada um dos cargos em questão e que Paulo Macedo paulatinamente vai fazendo o trabalho que agrada de sobremaneira ao seu anterior empregador. Ora veja-se:



terça-feira, 6 de setembro de 2011

se eu fosse caricaturista...

... e a polícia me tivesse partido os dedos também gostava de os ter no sítio para poder fazer isto!





retirado daqui.

que tontos estes pobrezinhos...



ouvir o primeiro ministro temer a revolta social contra as suas medidas de austeridade e ameaçar com repressão implacável qualquer distúrbio aquece-nos a alma de saudosismo fascista, não aquece?

bem sei que o esforço está a ser bem feito para que o balanço final deste mandato seja igual ao que se fez de 40 aninhos de Salazarismo: "epah, ao menos as contas estavam em ordem". como dizia o zé mário (que todos podemos tratar assim, mesmo sem nunca lhe ter apertado a mão, porque ele é de todos) "uma porra pá, um autêntico desastre o 25 de Abril, / esta confusão pá, / a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa..."

bons tempos esses, da malta sossegadinha, em que se ia ao bolso com propriedade; tempo refrescante esse dos bufos oficiais, que tanta saudade deixa por aí; os ajuntamentos perigosos com mais de três pessoas, os jornais a defenderem o interesse nacional em vez de o denegrirem; ah, e as cargas policiais do país feliz, esse país que continuou depois de abril, um país que ganhou sufixo de ão pelo génio de quem o governou dez anos imerso em maiorias e certezas absolutas. que bons tempos esses...

e que poética esta visão que o primeiro ministro tem dos portugueses em geral, e dos terroristas que usam as redes sociais em particular; todos uns desordeiros que, veja-se, por não concordarem com a política anti-social deste governo, por se sentirem ultrajados quando são, de novo, privados dos seus direitos (os que deviam ser inalienáveis), o direito, inclusivamente, de ter a vida planeada com o dinheiro que é seu e que servia para pagar as contas no final do mês, decidem protestar e manifestar e gritar e barafustar e protestar.

que tontos estes pobrezinhos, que podem ser ameaçados com uma declaração na televisão de que as suas manifestações não serão toleradas e serão esmagadas. que tontos, não somos camaradas?

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Jornal do Barreiro

ao longo dos vários meses de duração deste espaço, tenho evitado publicar textos com análises partidárias e referências a partidos políticos. mas, não é todos os dias que se tem um texto publicado no jornal.

Aqui fica o texto, disponível no Jornal do Barreiro.

As Evidências de uma
Estratégia Perfeita


O Partido Comunista Português venceu as últimas eleições autárquicas no Barreiro com maioria absoluta. Nada mais evidente. Tem neste momento mais um vereador do que tinha em 2005, mais deputados na Assembleia Municipal e manteve os mesmos resultados eleitorais em quase todas as freguesias. Em oposição, o Partido Socialista perdeu desastrosamente estas eleições. Igualmente evidente. Perdeu um vereador relativamente a 2005, um deputado municipal e os resultados das freguesias, com algumas excepções (com particular destaque para Coina), não chegaram para ameaçar a hegemonia do PCP no concelho. Por sua vez, o PSD e o Bloco de Esquerda mantiveram os mesmos resultados eleitorias, em termos de eleitos, embora com pequenas diferenças em termos percentuais. O PSD manteve o seu vereador na Câmara Municipal, manteve o número de deputados municipais e continua sem nenhuma Presidente de Junta de Freguesia. O BE não conseguiu eleger nenhum vereador, manteve o mesmo número de deputados municipais e nas juntas de freguesia os resultados foram semelhantes aos de 2005, com ligeiras descidas percentuais. Estas são as evidências dos resultados eleitorais.

O que para mim também é evidente é que o Partido Socialista do Barreiro foi o principal responsável pela maioria absoluta do PCP. Não quero retirar de forma alguma o mérito do Partido Comunista, até porque estou absolutamente convencido que teve muito, mas parece-me que a campanha conduzida pelo PS não correspondeu às expectativas dos barreirenses. Foram várias as falhas cometidas; a principal foi a escolha do candidato: eu estou convencido que um partido político, na escolha do seu candidato eleitoral, só tem duas hipóteses, ou escolhe um elemento do seio do partido com uma força excepcional e uma extraordinária capacidade de mobilização da máquina partidária que consiga mobilizar a população, ou escolhe uma personalidade da sociedade civil, sem filiação, que per se congrega os cidadãos em torno da sua pessoa e que é irrepreensivelmente reconhecido pelos eleitores como uma figura de referência. Ora, o PS não fez nem uma coisa nem outra e, por isso, nem sequer é necessário abordar a clara falta de preparação e o pouco conhecimento sobre o Barreiro do candidato nos debates realizados, nem outros factores de organização interna. Os resultados são evidentes.

Mas, por outro lado, existe o grande mérito do PCP. Desde que em 2005 ganhou as eleições, o executivo liderado por Carlos Humberto optou por seguir a tradição do partido no Barreiro e acomodou-se à vitória que tinha acabado de obter. Num mandato que durou 4 anos, os barreirenses assistiram à transformação do projecto do tanque de aprendizagem em piscina municipal, à inauguração do Fórum Barreiro e consequente reabilitação da zona envolvente da Rua Stara Zagora, reabilitação da Avenida Alfredo da Silva, reabilitação do Mercado Municipal 1º de Maio, recuperação do muro da Avenida Bento Gonçalves (Avenida da Praia) e repavimentação de várias artérias da cidade. Por partes: um tanque de aprendizagem é extremamente útil, mas não é uma piscina municipal; o Fórum é um investimento privado e talvez o mais importante para explicar as restantes obras – como contrapartida pelos terrenos para a construção do centro comercial, a Multi Mall Management suportou a recuperação da Avenida Alfredo da Silva e da reabilitação do Mercado Municipal, projectado pelo arquitecto Joan Busquets; o muro da Avenida da Praia foi obra da Administração do Porto de Lisboa, sem investimento municipal. Quanto ao último ponto, a repavimentação das ruas das cidades, é para mim a questão mais fantástica: durante três anos e meio as ruas do Barreiro apresentaram deficiências gravíssimas, cheias de buracos e com remendos efémeros igualmente grandes. Em menos de 6 meses, a Câmara Municipal do Barreiro interveio em diversas ruas, alcatroando e repavimentando estradas, fazendo obras de embelezamento do túnel do Barreiro. Para além disso, inaugurou-se um mercado (na altura ainda) inacabado, de um elemento escultórico na última semana de campanha e a interrupção de algumas obras por motivos eleitorais. Passadas as eleições, assegurada a vitória, as perturbações no trânsito voltaram a fazer parte da vida dos barreirenses e passar no túnel voltou a ser um inferno (e de novo de forma inesperada e sem aviso prévio), a estrada principal de Santo António voltou a entrar em obras e as primeiras chuvas intensas já vieram mostrar a falta de qualidade de algumas obras. Pelo meio, ainda ficam gravadas as declarações do Presidente da Câmara ao afirmar o seu esforço hercúleo e solitário na luta pela Terceira Travessia do Tejo, que foi um projecto aprovado pelo Governo.

O PCP ganhou as últimas eleições autárquicas no Barreiro. A estratégia delineada foi perfeita. Isto é uma evidência.

João Duarte Albuquerque