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segunda-feira, 18 de março de 2013

sobre a raíz

nunca há só uma, pois não? raíz, quero dizer. eu tenho várias. vão crescendo em mim e brotando quando menos se esperam, envoltas num misto qualquer de saudade cigana, nómada, daqui e dali. não têm sequer assentado, talvez nem precisem, antes têm vagueado.

há cerca de um ano atrás, em Siena, no congresso dos Giovani Democratici, lembro-me de duas pessoas terem subido ao palanque para relembrar outros dois camaradas, sicilianos ambos, de quem tinham perdido o rasto, porque a eles lhes cortaram abruptamente as raízes. assim, sem mais, retirados à força de onde tinham acidentalmente nascido. levaram-nos sob protecção policial para longe da sua ilha. a "cosa nostra", que não é de mais ninguém a não ser dos próprios, considerou-os incómodos e ameaçou a sua ligação à terra e à vida. e assim partiram, sem deixar nova morada, sem poder olhar para trás, levando apenas na memória o que também lhes deu identidade, o sítio onde lhes assentaram os arraiais. o fim de linha das opções de quem se vê obrigado a preservar a sua vida no anonimato de uma nova vida é um drama sem comparação, cujas marcas não se apagam nem com a erosão do tempo. perduram como perdura toda a injustiça até que o homem e a mulher, não o tempo, se encarreguem de a eliminar. e esta, em particular, teima em persistir na história, apoiada nos ombros irredutíveis do medo.

em portugal cortam-se raízes de outra forma, mas com a mesma força implacável. empurra-se devagarinho até que elas se soltam e se esvaem. e, mesmo que o salto para esta realidade seja do tamanho dos mares que separam a Sicília deste nosso atlântico, este sentimento de perda persiste em mim, persiste em aproximar a dor de uma com a dor da outra. veio-me este sentimento de uma conversa com o Hugo, uma das muitas, como sempre, consciência que se desperta. dizia-me ele, o Hugo, que dos amigos mais próximos, foram quase uma dezena que partiram. quebraram-nas porque o peso delas os fazia vergar. e as árvores, como os homens e as mulheres, nasceram para estar direitas. esse peso, da falta de oportunidades, dos salários desproporcionais, da miséria que se incrosta no corpo faminto, do desemprego, do desespero, do desânimo, do descrédito, esse peso, dizia, é de tal forma insuportável que obriga a desfazer esperanças e a arrumá-las numa mala de viagem. os sonhos comprimem-se, bem apertadinhos, para caberem todos, ficando sempre de fora aquele que mais se almejava, o de se cumprir Portugal. desses amigos ficam as memórias e as visitas ocasionais, as dores partilhadas de uma ausência sentida todos os dias, os abraços que se apertam na esperança que durem mais, sem que se aguentem até ao próximo reencontro. raízes que se agarram desesperadamente, com a força que cresce nos dentes, que quem não se sente escorraçado não é filho de boa gente. triste dura sina de quem não se vê ter bom destino. triste duro país que devasta raízes como se de uma inevitabilidade se tratasse. triste dura sorte esta de a Grândola ecoar bem alto na voz de um povo para se depositar, do outro lado, num coração que não a sabe escutar. triste duro fado.

dos amigos do Hugo, eu sou um deles. e os abraços nunca me chegam.

domingo, 2 de dezembro de 2012

sobre nós

"muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo." muitos anos depois, também nós vamos recordar este tempo, este mesmo, que agora nos vemos incapazes de prender com as nossas próprias mãos. este tempo que é já história feita por nós, pelas mesmas mãos que não o conseguem segurar. tempo feio, frio, escuro e obscuro e opaco; tão opaco como brumas que se erguem como muros impenetráveis, inquebráveis, imperscrutáveis, entrelaçados por números e mais números e mais números, sem face nem alma, perdidos na sua origem, acumulados em forma de milhões e biliões e triliões de interesses; interesses triunfantes, como os porcos do Orwell, e os outros, que nos esmagam e nos estilhaçam, que nos trespassam e despedaçam, indiferentes ao fluir do sangue que jorram à sua passagem. e as nossas mãos? mudam elas o tempo ou enrugam incoscientemente, impotentes e inoperantes, contrárias à natureza que as criou, logo elas, moldadas para trabalhar e talhar o que sem elas permaneceria imutável? que fatalidade inevitável seria a imutabilidade, sem elas, as mãos; essas mãos, aquelas mãos. quais? aquelas da Ilíada e da Odisseia, essas d'Os Lusíadas e do Quixote, aquelas dos prelúdios e fugas, essas das sonatas e as dos nocturnos, as mãos que se heterenomizaram, as mãos do Pessoa, fragmentos de luz num cristal; as mãos do Zeca. do Zeca? sim, as mãos do Zeca. não era a voz? se fosse a voz como é que ele podia penetrar no meu peito e contrair o meu coração até que ele se torna tão apertado que só lhe resta explodir num grito, num clamor de justiça, uníssono com o mundo, urlando e bombeando sangue, suor e lágrimas e raiva e revolta? não, o Zeca cantava com as mãos dele, pedindo as nossas.

muitos anos depois, mesmo muitos anos depois, depois de nós, depois dos nossos depois de nós e até depois dos deles dos nossos depois de nós, vão lembrar-se deste tempo, deste tempo que de gelo não é porque fascínio não tem, mas que com ele se parece na frieza, na aspereza e na dureza com que nos queima. não pode ser de gelo este tempo porque neste tempo, não como no gelo, as partículas separam-se, quebram-se, dividem-se, dividem-nos. Onde está a "cidade | sem muros nem ameias | gente igual por dentro | gente igual por fora | onde a folha da palma | afaga a cantaria | cidade do homem | não do lobo, mas irmão | capital da alegria || braço que dormes | nos braços do rio | toma o fruto da terra | é teu a ti o deves | lança o teu desafio || homem que olhas nos olhos | que não negas | o sorriso, a palavra forte e justa | homem para quem | o nada disto custa | será que existe | lá para os lados do oriente | este rio, este rumo, esta gaivota | que outro fumo deverei seguir | na minha rota?" quando foi que deixámos de lutar pela utopia e nos entregámos à fatalidade do choque, da crise, da oportunidade, da crise que cria o choque que gera a oportunidade?

por entre este meio, navegamos nós com a incerteza, peso constante sobre os ombros e na cabeça. alteram-se, novamente, as relações de trabalho, na lengalenga da dialéctica dos detentores do aparelho produtivo e da força de trabalho, malandros uns e outros, fascistas imperialistas aqueles, marxistas grevistas estes. como diria o Zé Mário, companheiro camarada do Zeca, "somos todos, ou anti-comunistas ou anti-fascistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá" e no caminho esquecemos o único ismo que importa, o do humano. quando foi mesmo que esquecemos o caminho que percorremos, que nos esquecemos que somos gregos desde que nascemos até ao momento em que morremos e que lá pelo meio existe uma longa e duradoura catarse a que chamamos vida. esquecemos que da grécia importámos - em linguagem mercantilista, de fácil compreensão - tudo aquilo que hoje perpetuamos na Ακαδήμεια; sim, a academia. quem tornou a solidariedade um produto do situacionismo, quem transformou em objecto a mais plena das palavras, uma arma à espera de uma oportunidade para ser utilizada, em vez de praticada todos os dias? quem silenciou os deuses quando Atenas ardia e Europa assistia impávida e serena, ou correndo num frenesim para salvar os seus filhos predilectos, hiper-activos e de risco, de valor superior a qualquer cidadão, dos antigos ou dos modernos.

porque não fazemos como Ferreira Gullar, que sabia que "a cidade não está no homem | do mesmo modo que em suas | quitandas praças e ruas"? porque a ele não nos juntamos no clamor límpido do seu poema sujo "e também rastejais comigo | pelos túneis das noites clandestinas | sob o céu constelado do país | entre fulgor e lepra | debaixo de lençóis de lama e de terror | vos esgueirais comigo, mesas velhas, | armários obsoletos gavetas perfumadas de passado, | dobrais comigo as esquinas do susto | e esperais esperais | que o dia venha"? porque capitalizámos os valores e lhes atribuímos números, preços, cifras? porque não realizamos - assim mesmo, tal como no Brasil - que "o homem é um ser cultural, porque a essência dele é a cultura e os valores" e que o sentido da vida é o outro? que grilhetas tão fortes nos aprisionam que nos impedem de estender a mão fraternalmente a quem dela precisa quando a nossa mão é tudo o que de nós precisam? façamos a história que queremos que contem de nós, porque dela hoje somos parte, livres de grilhetas e prisões, sem cedências éticas e morais, sem preço nos nossos valores, seguindo o sentido da vida.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

sobre a insuficiência

Sobre estas duras, cavernosas fragas,
Que o marinho furor vai carcomendo,
Me estão negras paixões n’alma fervendo
Como fervem no pego as crespas vagas:

Razão feroz, o coração me indagas,
De meus erros a sombra esclarecendo,
E vás nele (ai de mim!) palpando, e vendo
De agudas ânsias venenosas chagas:

Cego a meus males, surdo a teu reclamo,
Mil objetos de horror co’a idéia eu corro,
Solto gemidos, lágrimas derramo:

Razão, de que me serve o teu socorro?
Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;
Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro.

Insuficiência dos ditames da razão contra o poder do amor, Bocage

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Naturalmente que apoio!

*declaração de apoio à candidatura de Madalena Alves Pereira à Federação Distrital de Setúbal do PS

É sempre bom questionarmos o porquê das coisas; é sempre necessário irmos à raiz das nossas escolhas. “Porquê a Madalena?” foi uma questão que me surgiu tão naturalmente quanto a sucessão de respostas que lhe advieram. Tive, e tenho, o privilégio de conviver com a Madalena nesta terra barreirense que a ambos formou e viu crescer. Tive, e tenho, o privilégio de lutar politicamente, todos os dias, ao lado dela por uma convicção irredutível na força dos ideais que nos ligam e nos unem.

Foi, precisamente, por causa desta convivência que pude descobrir tão facilmente a minha primeira resposta, a minha primeira razão: sim, fazer política com a Madalena é caminhar ao lado dela. É ser constantemente desafiado a fazer mais e melhor; a ver, em cada momento, como é a primeira a dar o exemplo e a estar na linha da frente.

Depois compreendi a segunda razão: a dedicação e abnegação à causa pública. A Madalena é republicana, democrata e socialista todos os dias, em tudo o que faz na vida e na política. É real e efetivamente militante, servindo sempre o que considera ser o interesse geral e nunca se servindo daquilo que é de todos.

A Madalena é, profissional e politicamente, uma pessoa extremamente competente e rigorosa. Demonstrou, ou melhor, tem demonstrado de forma sistemática como sabe compreender e enfrentar os principais problemas que enfrentamos enquanto comunidade, sem nunca descurar os pequenos pormenores que marcam, diariamente, a vida de todos nós.

Estas são as minhas razões, foram as minhas respostas. Tantas outras existem, sei-o bem. A competência política faz dela um dos melhores quadros que o nosso distrito tem; a honra, a dignidade, a justiça e o humanismo fazem dela a pessoa certa para liderar a nossa federação.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

o regresso da mediocridade comezinha e do moralismo de algibeira


nada que surpreenda. quem não entende o significado e a origem da bandeira que "orgulhosa e patrioticamente" ostenta na lapela, pouco pode saber sobre liberdade e direitos civis.

Las mujeres tendrán que volver a dar una justificación para abortar

El País, 2 de Fevereiro de 2012 (aquele ano que é, ao que tudo indica, no século XXI)

iOnline, 2 de Fevereiro de 2012 (aquele ano que, ao que tudo indica, continua a ser no século XXI)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

sobre a inteligência

gostava que, no meu tempo de vida, houvesse alguém que crescesse para se tornar nisto. não me importa se é homem, mulher, preto, branco, amarelo ou vermelho. mas crescei e sede assim.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

coisas que merecem destaque II

Coragem é outra coisa
Olá, espero que estejas bem.

Escrevo-te por egoísmo. Fui encontrando por aí, nas últimas semanas e por culpa de um texto que escrevi, elogios à minha suposta coragem. Mas sempre que me chamam corajoso apareces tu. E ficas por aqui até eu ser capaz de destruir esta coisa tão minha de acreditar, ou querer acreditar à força, na existência de um herói romântico cá dentro.

As pessoas confundem coragem com dever cívico. Eu não fui corajoso, nem deixei de ser. Escrevi um texto. Gritei com os dedos. Senti que devia escrever e escrevi. Coragem é outra coisa. Ninguém é mais ou menos corajoso por narrar aquilo que toda a gente vê. Coragem e indignação são coisas diferentes. Exprimir o sentir de uma geração e ser reconhecido por isso é motivo de orgulho. É. Mas não é um acto de coragem. Coragem é escrever cartas de amor a um sábado à noite e deixar o mundo ler.

Escrevi-te algumas. Nunca que te disse. Não te mostrei. O mundo não sabe que escrevo coisas destas. As cartas de amor são sempre ridículas. Mas as dos outros são ainda mais ridículas. Parece que carregamos todos esse medo: o de parecermos ridículos aos olhos daqueles que nunca escreveram uma carta de amor. Ter coragem é perder esse medo.

Num tempo em que partilhamos tudo: fotografias, músicas, notícias e vídeos, porque é que não partilhamos cartas de amor? Porque é que não lançamos cartas na rede? Porque é que não nos ligamos às cartas de amor uns dos outros? Eu não tenho medo de escrever cartas de amor, nem que me achem ridículo. Tenho é medo que me respondam. Por isso é que nunca arrisquei. Foram ficando por aqui. Há uns meses, num rasgo de coragem, pensei engarrafar a última e lançá-la ao rio. Acobardei-me. Não conheço as marés. Começava assim:

Subi as escadas na ânsia de escrever uma carta de amor, mas não estou apaixonado. Ninguém escreve cartas de amor a um sábado à noite, muito menos sem estar apaixonado.

Tenho saudades daquilo que não fui contigo. Das coisas que nunca te disse. As outras também não disse: foram morrendo antes de ter tido a bravura de deixar-te vivê-las. As palavras que guardei não são minhas, são nossas. Foram nossas. Agora são tuas: aprendi a viver com elas como se já não fizessem parte de mim. Nunca te falei como queria, nem como sentia que te perdia. Nunca me despi devagarinho, sílaba a sílaba, como naquela primeira noite em que o mar deixou de enrolar a areia daquela praia. Aquela. Apaixonaste-te. Mesmo assim apaixonaste-te. E eu apaixonei-me pela ideia de ter alguém apaixonado por mim, assim, de repente, sem me pedir o mesmo. Sempre pensei que a paixão chegaria de outra forma: caprichosa, exigente, como eu.

Transformaste tudo. Desde a minha ideia de paixão até à cega paixão de mim por mim. Transformaste tudo numa noite de sábado como esta: apagaram as luzes da ponte e fizeram desaparecer o Cristo Rei. Parece que a cidade decidiu dormir e entregar-se ao sono que experimentei enquanto estiveste aqui. Vale-me o eléctrico.

Aprender a viver com saudades tuas é a paz vista desta janela. Lá vai o quinze. Chia, como sempre. E enquanto chia lembra que o silêncio é tantas vezes um acto de coragem. Como no dia em que guardaste para sempre a resposta à minha pergunta: E porque não tentamos outra vez? Outra e mais outra e mais outra. As vezes que tu achares que são precisas para eu ser outra coisa. Porquê?

O eléctrico já lá vai. Última paragem: Algés. Enquanto vai e volta vou desfiando a saudade.

Queria voltar a falar do azul dos teus olhos e desses caracóis dourados. Queria voltar a sussurrar-te contos de fadas e as aventuras “do príncipe”. Queria gozar outra vez com os teus pés, enormes, e implicar com a areia da praia que deixavas na banheira. Queria dizer-te tudo outra vez, de outra maneira. As praias onde nos perdemos têm hoje mais rocha. Estive lá. Há um bocadinho de ti em cada uma delas. De mim, pouco, muito pouco. Entretanto, aprendi mais coisas sobre aquelas estrelas que te fui mostrando enquanto complicávamos o trânsito na A2. Queres saber? Não importa. Eu continuo cheio de vontade de te contar.

A saudade vive deste gosto pelo ausente. Deste “like” permanente anotado nas coisas que vivemos ou que deixamos por dizer. Todo o homem é livre de não voltar atrás. Mas não há liberdade que assalte esta coragem: a de escrever cartas de amor a um sábado à noite e deixar o mundo inteiro ler.


Beijo

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

seis anos para uma vida


tinha onze anos quando entrei para esta escola. Escola Secundária Alfredo da Silva, assim, sem mais; não era preciso. o nome tinha tudo e representava, como representa, talvez ainda mais hoje que então, a essência do que é ser barreirense, do factor mais agregador que a nossa cidade nos oferece e que mais nos identifica. senti aqui o Barreiro, Lisboa, Portugal, a Europa e o mundo, como Alfredo da Silva também sentiu e fez sentir. vêm visitar a nossa cidade e começo “esta é a Av. Alfredo da Silva, esta é a estátua do Alfredo da Silva e esta é a escola Alfredo da Silva, a escola onde eu andei quando era pequenino”. uma imprecisão que merece correção, porque eu, que sempre fui grande, entrei pequenino para sair de lá muito maior.

aprendi a igualdade e aprendi a liberdade; e aprendi que só há igualdade e liberdade na escola e pela escola. aprendi que a escola pública é a oportunidade que a vida nos oferece de equilibrar a balança das (des)igualdades e percebi que a Escola Secundária Alfredo da Silva é uma escola pública e nunca deixará que alguém diga o contrário; porque aqui, quem cá ensina, sabe libertar as gentes, sabe desamarrar as grilhetas do jugo da ignorância.

foi aqui que ganhei os meus grandes companheiros de viagem, aqueles com quem ainda hoje tenho a honra de a continuar, que me dão a sua generosidade e amizade, e aqueles que nunca conheci, mas que me deram, e dão, toda a sua vida Sócrates, Platão, Pitágoras, Camões, Descartes, Da Vinci, Kant, Darwin, Pessoa, Picasso, Churchill, Salgueiro Maia… em seis anos que estive nesta escola, nunca me senti de passagem, nunca me senti estranho, nunca me senti pequenino; nunca tive de berrar porque percebi que não é preciso gritar para nos fazermos ouvir e que a importância do que dizemos não se compara à importância do que fazemos; que a coerência é o mais íntegro dos valores e que o sentir da gente pequena é sempre respeitado. Aqui entrei menino para me fazer pessoa, para aprender a sentir e a agir, a ser cidadão e político. nesta escola entrei um barreirense pequenino e saí grande para todo o mundo. na Escola Secundária Alfredo da Silva sempre se falou verdade – na Escola Secundária Alfredo da Silva nunca se ouvirá dizer que é impossível mudar o mundo!


texto escrito para a comemoração dos 65 anos da Escola Secundária Alfredo da Silva

terça-feira, 12 de julho de 2011

sobre o relativismo

Estou apreensivo. O relativismo reina por estes dias: já não existe o bonito ou o feio, o bom ou o mau, o certo ou o errado. É tudo relativo e os adjectivos já são quase desnecessários. “É diferente...” parece ser qualificação suficiente para quase tudo.
Não consigo ver as coisas assim e sinto-me apreensivo e inquieto. Há valores absolutos...tem de haver! Não pode haver relativizações nem duas perspectivas quanto à paz, ou quanto à protecção da dignidade humana! São valores absolutos, sempre! A paz será sempre preferível à guerra e nunca haverá nada que justifique a violação dos direitos e da dignidade de um qualquer ser humano!
É fácil relativizar a dor e o sofrimento de quem passa fome e de quem não tem dinheiro para pagar cuidados de saúde dignos. É fácil porque no fim de contas são só números - absolutos, relativos, percentagens - mas números. São 12% de desempregados, mais de 20% dos jovens recém-licenciados que não conseguem trabalho qualificado, 40% de idosos que são vítimas de maus tratos, 1/5 da população portuguesa que vive abaixo do limiar da pobreza, 2/5 que necessitam de subsídios sociais para conseguirem viver... Números e mais números. Tudo relativo.
Mas não há nada de relativo em passar fome. Não há nada de diferente em agonizar na solidão de um quarto bafiento, definhando e apodrecendo, imerso num monte de merda e sangue das vísceras da puta da velhice à espera que a morte venha e a humanidade espere às vezes anos para nos encontrar! Tudo isto é mau, absolutamente mau. Onde se encontra justificação para a alienação e para a indiferença? Como se tolera o sofrimento alheio?
O modelo social europeu nunca foi igual em todos os estados e sempre teve diferentes aplicações nacionais. Sempre foi um conceito abstracto, mas nunca foi relativo! Foi sempre absoluto na determinação de eliminar as desigualdades sociais e de eliminar o sofrimento que estas desigualdades provocam nas pessoas.
Hoje o modelo social europeu é relativo; é um modelo dependente. Depende de haver dinheiro para pagar subsídios, depende de os países terem os deficezinhos em ordem e as cotações do rating upa upa, depende da vontade de fantoches (paradoxal quanto baste) que presidem a comissões que de europeias têm pouco, depende, no mais fantástico de todos os “ses”, de mãos invisíveis que tudo regulam e tudo equilibram. Mas, hoje, as mãos já não são invisíveis e nada equilibram, os fantoches nada decidem, os ratings afinal são maus para a saúde económica (para a neo-liberal, pelo menos - qualquer coisa como murros no estômago) e os deficezinhos é que continuam a ter que estar absolutamente equilibradinhos.
E quando se começa diarrear sobre subsídio-dependência (neologismo demagógico relativamente conveniente) talvez não seja mau parar para pensar sobre o que está certo ou errado. Privatizar as águas (que interessam) é mau; abdicar de estatuto privilegiado em empresas energéticas e estratégicas nacionais está errado; privatizar os correios e os transportes está errado. E colocar a saúde na palma da mão invisível é bárbaro. Ou será que está certo? Diferente é seguramente e, em termos relativos, também deve ser bom... para os números!
Mas o que é verdadeiramente diferente é aquilo que a Europa (a que está “unida”) ainda não percebeu sobre os subsídios. Os subsídios atribuem-se aos números: são x milhares de euros para plantar x número de batatas ou x numero de hectares ou para produzir x número de toneladas de leite. Para as pessoas, as que não são apenas mais um número, procura-se dar conforto e dignidade. E a dignidade não tem preço! Absolutamente nenhum!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

apontamento anti-bloguistico

- se eu soubesse falar todas as línguas do mundo era deus?
- como assim?
- deus não fala todas as línguas do mundo?
- fala, sim! fala todas as línguas do mundo para que todas as pessoas do mundo possam falar com ele.
- e mais alguém fala todas as línguas do mundo?
- não!
- então, se eu soubesse falar todas as línguas do mundo era deus, e todas as pessoas do mundo podiam falar comigo e eu podia falar com elas!
- e para que queres tu ser deus?
- eu não quero ser deus...
- então o que queres tu?
- quero ouvir o que todas as pessoas do mundo têm para me dizer...

(…)

- sabes uma coisa?
- acho que sim! talvez se fosses mais específica...
- deus não é deus!
- é nisso que tens andado a pensar?
- sim, suponho que sim. deus não é deus. deus fala todas as línguas do mundo e, seja qual for essa língua, deus sabe-a. mas deus só sabe, não compreende, não sente, não escuta verdadeiramente.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

état d'éprit

estado de espírito recorrente...


état d'éprit

morena dos olhos d'água...

uma moreninha dessas que também é de angola, como na música do Chico...


motivo de orgulho

within the altar of the old village church there stands a white marble tablet, which bears as yet but one word: 'AGNES'. there is no coffin in that tomb; and may it be many, many years, before another name is placed above it! but, if the spirits of the Dead ever come back to earth, to visit spots hallowed by the love - the love beyond the grave - of those whom they knew in life, I believe that the shade of Agnes sometimes hovers round the solemn nook. I believe it none the less because the nook is in a Church, and she was weak and erring.

THE END

Charles Dickens, Oliver Twist

510 páginas depois, de um inglês vitoriano com várias expressões de calão, cheguei ao fim desta obra. sinto-me orgulhoso. acho que tenho motivos para isso...

sábado, 14 de novembro de 2009

I Beg your Pardon, Sir?!

sobre direitos humanos

Os ingleses, com a sua delicadeza congénita e com o seu politicamente correcto, educado e próprio de uma nação de cavalheiros e damas, têm esta expressão simpática de interpelação quando não compreenderam aquilo que foi dito, ou quando não julgam ter compreendido e querem demonstrar o quão confusos, e por vezes, ofendidos, se estão a sentir. Há algum tempo atrás, o Tribunal Constitucional foi obrigado a deliberar sobre a constitucionalidade do casamento entre duas mulheres. A sua decisão provocou-me esta reacção, "I beg your pardon, Sir?!". Não foi uma interpelação à totalidade de suas excelências, porque numa decisão tão importante como esta, uma maioria simples de 3 para 2 (porque nem sequer estavam presentes todos os juízes) é suficiente e não quero pôr em causa o trabalho de tão competente órgão judicial. Contudo não deixa de me causar estranheza, uma estranheza bem portuguesa, de mostarda no nariz, que em Portugal se continue a contrariar tão abertamente a Constituição portuguesa e que só agora se esteja a contemplar pôr termo a uma clara violação dos direitos humanos. Pior ainda, que o Tribunal Constitucional, "ao qual compete especificamente administrar a justiça em matérias de natureza jurídico-constitucional.", bem como o Código Civil contrariem tão abertamente a Constituição. No artigo 13º da Constituição, que ostenta a epígrafe Princípio da Igualdade, não se refere a possibilidade de haver casamento entre pessoas do mesmo sexo. Contudo, diz-se: "1) todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei. e 2) ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual."
Peço desculpa pelo meu rigor gramatical, mas quando se proibem duas pessoas do mesmo sexo de usufruírem de um direito que duas pessoas de sexos diferentes gozam, parece-me que o verbo a aplicar poderá ser o verbo prejudicar. Podia ser preconceito, mas preconceito não é um verbo!

Post Scriptum: Um dos argumentos que mais me tem convencido da parte dos opositores da rectificação desta violação dos direitos humanos é aquele que diz que há outras questões que merecem ser debatidas e que esta questão não é prioritária. Não podia estar mais de acordo. A essas pessoas digo sempre: “Têm toda a razão. Deixem lá isso e não se desgastem. Corrige-se a injustiça, altera-se a lei e não se fala mais nisso!”

artigo publicado no Jornal do Barreiro.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

I beg your pardon, Sir?!

Os ingleses, com a sua delicadeza congénita e com o seu politicamente correcto, educado e próprio de uma nação de cavalheiros e damas, têm esta expressão simpática de interpelação quando não compreenderam aquilo que foi dito, ou quando não julgam ter compreendido e querem demonstrar o quão confusos, e por vezes, ofendidos, se estão a sentir. O Tribunal Constitucional provocou-me esta reacção, "I beg your pardon, Sir?!" Ou melhor, confesso que, influenciado pela cultura linguística predominante dos seus confrades do outro lado do Atlântico, a primeira expressão que soltei foi um singelo "What the Fuck?!". E foi só quando me lembrei de que me estava a referir a tão altas e prestigiadas autoridades do Direito Constitucional que rapida e discretamente tentei corrigir para o seu correspondente inglês. Não foi uma interpelação à totalidade de suas excelências, porque numa decisão tão importante como esta, uma maioria simples de 3 para 2 é suficiente e não quero pôr em causa o trabalho de tão competente órgão judicial. Contudo não deixa de me causar estranheza, uma estranheza bem portuguesa, de mostarda no nariz, que em Portugal se continue a contrariar tão abertamente a Constituição portuguesa e que os partidos políticos ainda só estejam a contemplar colocar esta questão nos seus programas eleitorais. Pior ainda, que o Tribunal Constitucional, "ao qual compete especificamente administrar a justiça em matérias de natureza jurídico-constitucional.", contrarie tão abertamente a Constituição. No artigo 13º, que ostenta a epígrafe Princípio da Igualdade, não se refere a possibilidade de haver casamento entre pessoas do mesmo sexo. Contudo, diz-se: "1) todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei. e 2) ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual." Peço desculpa pelo rigor gramatical, mas quando se proibem duas pessoas do mesmo sexo de usufruírem de um direito que duas pessoas de sexos diferentes gozam, parece-me que o verbo a aplicar poderá ser o verbo prejudicar. Podia ser preconceito, mas preconceito não é um verbo!