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terça-feira, 12 de agosto de 2014

Terra de Barreirenses ou da carolice

40 anos de democracia que passaram por esta nossa terra e o Barreiro continua a ser terra de barreirenses. Perdoem-me esta redundância, evidentemente La Paliceana. Explico. Sempre fomos de duas margens, fragmentados pelo Tejo que só não é mais belo que o rio que corre na nossa aldeia porque é o rio que corre na nossa aldeia. Cidadãos pendulares, acostumados ao ir e vir balançado, ondulado, que nos leva muito para além da capital. Temos sangue alentejano, algarvio, beirão, alfacinha, suburbano, e mais um pouco daqui e dali.

É com carolice que olhamos para esta nossa terra e que nos entristecemos com cada partida; sabemos de cor os nomes de quem deixou o Barreiro e compõem o número redondo de dez mil habitantes que, daqui, já não o são. É por carolice que lutamos pelo sonho que nos disseram ser esta terra, porque o futuro foi sendo sempre adiado. Da cidade industrial que morreu, sem mitos de fénix, podia ter nascido uma outra, de olhos postos no rio, explorando a frente ribeirinha, a valer-se da inovação e criatividade das suas gentes, assente no desenvolvimento económico através da reconversão do antigo tecido fabril, a recuperar o património edificado do centro histórico da cidade ao invés da desenfreada construção “nova” que promoveu, apostando, também, na sua vida nocturna, marco tão importante na nossa memória colectiva.

Ano após ano, as oportunidades parecem fugir-nos por entre os dedos, por entre os apontamentos fugazes que nos enchem mais o ego que a esperança. Por carolice, no Barreiro, os barreirenses continuam a imperar contra a lógica reinante. Abrem novos negócios, dinamizam o espaço público, criam associações culturais e desportivas, novos festivais. Não se conformam. O Barreiro continua a ser terra de barreirenses. Dos que o sempre foram, dos que continuam a ser, dos que saíram sem nunca ter deixado de o ser e dos que um dia o serão. O Barreiro será sempre a nossa terra, mesmo quando a contemplamos do outro lado. E por carolice, como bons barreirenses que somos, dela faremos terra de sonho e de futuro.

terça-feira, 25 de março de 2014

sobre a fé e o socialismo. ou a fé no socialismo.

"Oh, é certo que no mosteiro ainda acreditava com fé absoluta em milagres, mas não são os milagres que atrapalham um realista. Não são os milagres que empurram o realista para a fé. Um verdadeiro realista, se for descrente, encontrará sempre em si a força e a capacidade de não acreditar em milagres e, caso um milagre se lhe apresente como um facto irrefutável, antes não acreditará nos seus sentimentos do que admitirá o facto. Mesmo que o admita, admite-o como facto natural, só que até então desconhecido para ele. Num realista, não é a fé que nasce em resultado de um milagre, mas um milagre por causa da fé. Se um realista ganhar fé, terá, precisamente em função do seu realismo, de admitir também o milagre. O apóstolo Tomé declarou que não acreditava antes de ver e, quando viu, disse: «Meu Senhor e meu Deus!» Terá sido o milagre que o fez crer? O mais provável é que não, e que ganhou a fé unicamente porque desejava tê-la e, talvez, já a tivesse de todo, no seu íntimo secreto, já quando dizia: «Ver para crer.»
Dir-me-ão talvez que Aliocha era um lorpa, mal desenvolvido, que nem o curso acabara, etc. Que não acabou o curso é verdade, mas dizer que era lorpa ou parvo seria grande injustiça. Repito simplesmente o que disse atrás: tomou este caminho porque, na altura, era o único que o impressionava e lhe mostrava todo o ideal do êxodo da sua alma que ansiava sair das trevas para a luz. Será de ter também em conta que era um jovem, em certo sentido, pertencente à nossa época moderna, ou seja, honesto por natureza, reivindicando a verdade, procurando-a, tendo fé nela e, uma vez na sua posse, exigindo a sua própria participação nela, com toda a força da sua alma, exigindo uma façanha imediata, desejando tudo sacrificar por essa façanha, mesmo a própria vida. Embora estes jovens não compreendam, infelizmente, que o sacrifício da vida é talvez o mais fácil de todos os sacrifícios e que, por exemplo, sacrificar cinco ou seis anos da sua juventude fervilhante em estudos difíceis, penosos, em prol da ciência, com o intuito de, pelo menos, decuplicar as forças necessárias para servir essa mesma verdade e essa mesma façanha pela qual se apaixonou e que resolveu realizar - tal sacrifício, em muitos casos e para muitos desses jovens, está quase acima das suas forças. Aliocha escolheu, simplesmente, um caminho contrário ao de todos, mas com a mesma sede de façanha imediata. Quando, logo depois de uma séria reflexão, chegou à comovente convicção de que Deus e a imortalidade existiam, disse, com naturalidade e de imediato, para si mesmo: «Quero viver para a imortalidade e não aceito o compromisso.» Do mesmo modo que, se chegasse à conclusão de que Deus e a imortalidade não existiam, se tornaria imediatamente ateu e socialista (porque o socialismo não é só problema do operariado, ou seja, do assim chamado quarto estado, mas, em primeiro lugar, uma questão ateísta, uma questão da encarnação moderna do ateísmo, a questão da Torre de Babel construída sem Deus e sem pretender atingir os céus a partir da terra, mas para fazer descer os céus à terra."

Fiódor Dostoiévsky, Os Irmãos Karamazov, 1ª Parte, Volume I