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domingo, 7 de abril de 2013

o Estado de Direito é à prova da Canalha

na noite em que o Presidente Nixon se demitiu, Lanny Davis, que viria mais tarde a ser conselheiro de Bill Clinton, conta que pegou nos filhos, conduziu em direcção à Casa Branca e estacionou na Pennsylvania Avenue. terá dito aos seus filhos que, nesse dia, o homem mais poderoso do mundo acabava de deixar o poder e que não havia uma única milícia na rua ou um golpe de Estado; era o Estado de Direito e agora outro homem ocupava o seu lugar.*1

a importância do Estado de Direito, sublimado pelas palavras de Davis, não é volátil, não é ajustável e não oscila ao sabor dos momentos. em Portugal, define-o a Constituição, garantem-no as instituições do Estado. o Tribunal Constitucional afirmou, sexta feira passada, que a Constituição não tinha sido respeitada na elaboração de algumas normas do Orçamento de Estado, exercendo o poder que a própria lhe confere. no rescaldo da decisão, o Governo, num violento e ilegítimo ataque, acusou o TC de responsabilidade na orientação orçamental, convocou um Conselho de Ministros - de onde não saíram soluções -, correu para Belém e viu aprovada a moção de confiança presidencial.

ferido o Estado de Direito, o Governo prepara-se, agora, para atacar o Estado-Social, com cortes na saúde, na educação e na protecção social. prevêem-se despedimentos na função pública e mais miséria, que isto de estar vivo sai caro.

da esquerda, das minhas esquerdas, a portuguesa e a europeia, sinto falta de rumo, de líder e do socialismo. sinto falta da esquerda, que de tão preocupada em ser "democrata" - pensando eu que democratas eram todos os partidos verdadeiros - se esqueceu de ser socialista. sinto falta dos líderes que falam quando têm de falar. da América, sinto falta de Lenny Davis; e da figura legal de impeachment. a usar com moderação, o quanto antes.



*1 "[Lanny Davis] put his two small kids in the back seat of the car and drove them to the White House. He parked the car on Pennsylvania Avenue and gave a speech to his kids about how the most powerful man in the world left office today. There was no militia, and there was no coupe; it was the rule of law, and now a new man is taking office. retirado daqui."

terça-feira, 27 de novembro de 2012

sobre a hipocrisia à escala europeia

antes, a estratégia era "não somos gregos". no hoje radiante a estratégia é "nós também somos a Grécia". viva a coesão e solidariedade europeias!

quarta-feira, 16 de maio de 2012

hipocrisia retórica / retórica hipócrita

recordo-me bem de vários debates que fui tendo com os cavaleiros do liberalismo, arautos da iniciativa privada. o tema, as "novas oportunidades", reunia, junto destes vanguardistas, um incrível consenso. e os elogios ao programa não eram poupados: facilitismo, oportunismo, falta de rigor, falta de credibilidade, amiguismo, injustiça, deslealdade, aproveitamento, incompetência, desperdício de fundos.

por uma vez, os membros do governo cumpriram com o prometido antes de serem eleitos para o cargo que ora ocupam e, logo que em plena posse, decidiram encerrar o malfadado programa. fim por decreto dos centros que o albergavam e despedimento sumário de quem nele exercia legitimamente a sua profissão. missão sobejamente bem cumprida.

recordo-me bem de vários debates com os mais radicais defensores do programa, os mais comprometidos com a iniciativa, alguns dos seus responsáveis, dos que a idealizaram e aplicaram. um incrível consenso na assunção das falhas - curriculares, letivas, de avaliação. havia desfasamentos, facilitismo, desadequações. e havia essa consciência. nada de extraordinário, portanto. a solução lógica seria corrigi-los, algo que reunia consenso e unanimidade, também, entre estes últimos. não era, não foi, a solução lógica.

com este encerramento, faltou uma coisa a este governo: perceber a essência do nome da coisa. não há desadequamento algum aí - o programa, era, foi, de facto, uma nova oportunidade para quem não a tinha tido ou a tinha desaproveitado. era, foi, a oportunidade de entender que o desemprego é o maior flagelo social que uma comunidade pode enfrentar, que a falta de realização profissional corrói o funcionamento da própria sociedade à velocidade de uma térmita, seguindo o mesmo padrão e adoptando as suas características, lentamente até à deterioração final súbita e repentina. que esta era, foi, uma nova oportunidade para combater o atraso educacional, o atraso na literacia que, ainda hoje, temos de dívida do tempo da outra senhora.

o combate ao facilitismo faz-se numa linguagem própria, o idioma eduquês, falado pela pseudo elite cratina, que considera que é preciso aumentar a exigência dos programas curriculares, endurecer os critérios de avaliação, apertar a malha da excelência. a pseudo elite cratina discordará de tudo o que aqui se discorre. corrijo, concordará com a dívida do tempo da outra senhora - a dívida de gratidão que, ainda hoje, temos.

vivam as cratinices!

lede:
Passos Coelho e os desempregados in Versaletes

Passos Coelho reitera que desemprego é uma «oportunidade» in TSF

Governo ordena despedimentos colectivos no Novas Oportunidades in Público

Fenprof e FNE contra encerramento dos centros Novas Oportunidades in Público

Encerrados 97 centros Novas Oportunidades desde novembro [de 2011] in SicNotícias

O teste intermédio de Matemática do 9.º ano foi “excessivamente complexo” e “completamente desadequado”, dizem as associações de professores. in Público

estamos quase lá

mais um bocadinho e consuma-se a morte. falta pouco.
"Ao fim de dez meses o cinema português corre perigo de vida", petição Cinema Português: Ultimato ao Governo in Público

hurra!

É preciso dizer mais alguma coisa?
Portugal tem das mais altas taxas de desemprego entre os jovens, de acordo com os dados hoje divulgados pela OCDE. in Público

sexta-feira, 13 de abril de 2012

mais cretinice falaciosa

estas declarações de Morais Sarmento são as palavras dos comentaristas à la Saraiva: falaciosas, hediondas, desumanas e impunemente aceitáveis em prime time português.

é o maior! morra o Sarmento, morra! pim!


sobre a imbecilidade e a cretinice falaciosas

José António Saraiva tem uma propensão grande para abordar temas sobre a homossexualidade.
José António Saraiva tem uma propensão grande para abordar temas sobre a homossexualidade pela rama e sem saber do que fala.
José António Saraiva tem uma propensão grande para abordar temas sobre a homossexualidade pela rama, sem saber do que fala e de forma homofóbica.

José António Saraiva escreveu um tratado homofóbico sem sequer se ter apercebido de que o estava a fazer. para ele, isto - Homossexuais contestatários - são verdades dogmáticas universais, generalizações não abusivas, declarações intemporais de genialidade incompreendida, de quem está fora do seu tempo, de quem está fora de moda.

José António Saraiva está, de facto, fora de moda. já não é moda cheirar a bafio salazarista, já não é moda ser machista e homofóbico, já não é moda ser Saraiva. aflige-me a cretinice legitimada em folhas de jornal, em ondas de rádio ou imagens de TV. aflige-me sempre a cretinice falaciosa, incoerente, insustentável, preconceituosa e dogmática. afligem-me sempre os Saraivas desta vida.

aflige-me sempre a propagação desta espécie que nem vírus, tão comum por cá, os comentaristas, que tratam o público para quem escrevem ou falam com sobranceria e arrogância, como se o leitor, o ouvinte ou o espectador não fosse verificar o que está a ser dito ou escrito, não se fossem revoltar ou indignar ou contrapor sempre que a situação o justifique. espécie prolífera em Portugal esta, que exalta rejubilante quando em palco -  na ponta da pena, ao microfone em estúdio, atrás das câmaras. espécie que passa por entre a chuva da desregulação, da incompetência, da falta de critérios de qualidade e rigor que tantas vezes medeiam e regulam o panorama mediático, obedecendo a um único desígnio - ditadura do lucro.

triste sorte esta quando sobrevivem com destaque e mérito os Saraivas desta vida e nos faltam tanto os Almadas que fazem Pum! honra feita a isto, que merece destaque - Bruno Nogueira à la Almada.

morra o Saraiva, morra! pim!

sexta-feira, 9 de março de 2012

retratos de um país a afundar


é pena os valores de uma e outra coisa serem tão coincidentes; se não fossem, era mais difícil dizer que o dinheiro pago à Lusoponte podia estar a ser aplicado na manutenção da programação cultural em Portugal, nomeadamente a do Teatro Nacional São Carlos. assim é fácil.

no fundo, pequenos retratos de como se afunda um país - e a uma profundidade que nem de submarino lá chegamos. e de como, em Portugal, reformular significa tantas vezes cancelar.

Na sequência do corte na indemnização compensatória para aquele organismo de produção artística [OpArt], que passou de 19 milhões de euros, em 2011, para 15 milhões, em 2012, a direção artística do Teatro Nacional de São Carlos foi obrigada a reformular a programação.

Retirado daqui.
 



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

o regresso da mediocridade comezinha e do moralismo de algibeira


nada que surpreenda. quem não entende o significado e a origem da bandeira que "orgulhosa e patrioticamente" ostenta na lapela, pouco pode saber sobre liberdade e direitos civis.

Las mujeres tendrán que volver a dar una justificación para abortar

El País, 2 de Fevereiro de 2012 (aquele ano que é, ao que tudo indica, no século XXI)

iOnline, 2 de Fevereiro de 2012 (aquele ano que, ao que tudo indica, continua a ser no século XXI)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

soluções para a mediocridade comezinha

Quer inovação? Contrate alguém de humanidades

Quantas pessoas na sua organização são pensadores inovadores que podem ajudar nos seus problemas de estratégia mais espinhosos? Quantos possuem uma compreensão interessada das necessidades dos clientes? Quantos sabem o que é preciso para assegurar que os funcionários se envolvam no trabalho?

Se a resposta for "não muitos", bem-vindo ao clube! Os líderes empresariais em todo o mundo têm-me dito que desesperam por encontrar pessoas que os possam ajudar a resolver problemas complicados - ou mesmo por fazê-las pensar no assunto. Não é que as empresas não tenham pessoas inteligentes a trabalhar para elas. Existem muitos MBA e até doutorados em economia, química ou ciências informáticas nos quadros das empresas. Não falta potencial intelectual. O potencial indicado é que é difícil de encontrar. Simplesmente não há um número suficiente de pessoas com os conhecimentos certos.

Isto acontece porque os nossos sistemas educativos se centram em ensinar os alunos de ciências e de gestão a controlar, prever, verificar, garantir e testar dados. Não ensinam como navegar nas questões "e se..." ou em futuros desconhecidos. Como Amos Shapira, o CEO da Cellcom, a operadora de rede móvel líder em Israel, afirmou: "O conhecimento que eu uso como CEO pode ser adquirido em duas semanas ... A principal coisa que se deve ensinar a um estudante é como deve estudar e analisar as coisas (incluindo) história e filosofia."

As pessoas formadas em humanidades que estudam poesia de Shakespeare, ou os quadros de Cézanne, por exemplo, aprenderam a lidar com grandes conceitos e a aplicar novas formas de raciocínio aos problemas difíceis que não podem ser analisados de forma convencional.

Aqui estão algumas coisas em que a multidão das artes liberais o pode ajudar:

Complexidade e ambiguidade.

Muitas empresas não têm o alcance de entendimento para acabar com problemas antes de estes começarem porque a sua equipa está demasiado focada em tarefas imediatas, ou submersa em tantos dados que não consegue ver os sinais de alerta. O desastre do derrame de petróleo da BP, os problemas de produção na Johnson&Johnson e na Genzyme e muitos outros poderiam ter sido evitados se tivessem aprendido a identificar ameaças ambíguas.

Qualquer grande obra de arte – seja literária, filosófica, psicológica ou visual – desafia um humanista a ser curioso, a fazer perguntas de resposta livre, a ter uma visão geral. Este tipo de pensamento é precisamente o que necessita se estiver a enfrentar um futuro sombrio ou a lidar com problemas complicados e incipientes.

Inovação

Se quer um pensamento original, precisa de libertar a criatividade inerente das pessoas. Os humanistas são treinados para serem criativos e estão adaptados de uma forma única a liderar equipas criativas. (Um caso aplicável: Steve Jobs, que reconhece abertamente como estudar a bela arte da caligrafia o levou a criar a interface do Macintosh).

Comunicação e apresentação

As pessoas formadas em artes liberais estão bem treinadas para escrever e apresentar, tornando-os naturalmente aptos para o marketing, formação e investigação. Um enfoque na escrita (que é necessária para licenciaturas em história, literatura, filosofia e retórica) ajuda as pessoas a desenvolver argumentos convincentes, e uma formação em actuação (como em teatro ou música) dá às pessoas muitas competências de apresentação. E uma compreensão da história é indispensável se quiser entender a arena competitiva e os mercados globais mais amplos.

Satisfação do cliente e funcionário

A capacidade de "se pôr na pele" dos clientes e dos funcionários para descobrir as suas verdadeiras necessidades e preocupações exige algo mais do que estudos, que produzem informação superficial. Em vez disso, precisa de poderes perspicazes de observação e psicologia – o material dos poetas e romancistas.

E que mais?

Uma pessoa que estudou uma língua estrangeira ou literatura pode gerir os seus escritórios no exterior, ou ajudar com a sua estratégia global, disponibilizando conhecimentos locais ou análise de negócios. Os filósofos podem ajudá-lo com a ética. Os historiadores podem ajudá-lo a compreender o passado enquanto lhe dão uma imagem do futuro. (Pergunte a A.G.Lafley da P&G, que em tempos planeava ser professor de história medieval e do renascimento).

Se quiser outra boa razão para contratar alguém formado em humanidades, pense nisto: empresas de consultoria como a McKinsey e Bain gostam de os contratar por todas as razões acima descritas. Pode ser você próprio a contratar pessoas formadas em artes liberais, ou pode pagar balurdios às grandes empresas de consultoria que as irão contratar para pensarem por si.

Tony Golsby-Smith*, Harvard Business Review in Dinheiro Vivo 
 
* fundador e CEO da Second Road, uma empresa de concepção e transformação de negócios sediada em Sydney, na Austrália.
 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

SOPA devia ser só para comer

* título roubado de uma amiga
Começou o grande protesto contra a censura na Internet
Grandes sites aderiram

Wikipedia, Google, Wordpress, Huffington Post, Boing Boing e muitos outros sites relevantes ou de referência estão hoje em protesto contra a legislação antipirataria que se estava a preparar nos Estados Unidos. Quem acede à versão inglesa ou norte-americana da maior enciclopédia online, a Wikipedia, por exemplo, não encontra mais do que uma página com fundo negro e algumas frases a explicar que hoje ninguém navega naquele site. O protesto irá durar 24 horas.

Nem a informação de que os republicanos no Congresso só avançariam com um consenso político alargado para a aprovação de legislação antipirataria demoveu grandes nomes da World Wide Web de porem em marcha um protesto contra o que consideram ser mais uma legislação que vai mais longe do que a protecção dos direitos de autor.

Quem acede ao Google a partir dos Estados Unidos não vê o logotipo do popular motor de busca, escondido por detrás de uma fita negra. Quem tenta entrar na página inicial da plataforma de blogues Wordpress depara-se também com uma página dominada pelo negro. Cenário idêntico acontece em muitos outros sites, na sua maioria de origem norte-americana, mas cuja popularidade extravasa largamente os Estados Unidos. As adesões ao protesto estão compiladas no site www.sopastrike.com, cujo endereço tem o nome de uma das propostas legislativas que estão em causa, o SOPA (Stop Online Piracy Act).

A Wikipedia portuguesa não está paralisada como a versão inglesa ou americana, mas na versão lusa, qualquer página apresenta, no topo, um banner com informação sobre a luta e o protesto em curso.

Além dos nomes já referidos, outros demonstraram cedo o seu descontentamento com a iniciativa legislativa – que não se resume ao SOPA, incluindo outra peça jurídica, abreviadamente denominada PIPA (Protect IP Act). Entre eles estavam os fundadores do Netscape, Google, Twitter, Flickr, Yahoo!, LinkedIn, YouTube, PayPal, craigslist ou eBay, que consideram que estas duas propostas dão ao Governo dos Estados Unidos o poder de censurar a web com técnicas similares às que serão usadas na China, na Malásia ou no Irão, onde o acesso está condicionado. Sustentam estas personalidades que as propostas legislativas em cima da mesa alterariam também a estrutura básica da Internet – um argumento que explica por que está o protesto a ter a atenção mundial, uma vez que se teme que as repercussões destas consequências nefastas possam ser globais. Isto porque aquelas medidas permitem actuar contra sites fora da jurisdição americana.

Na prática, o Stop Online Piracy Act prevê que o procurador-geral norte-americano (cargo equivalente ao do ministro da Justiça em Portugal) possa pedir o encerramento de sites que considere estarem a violar direitos de autor, dependendo apenas de uma denúncia dos estúdios de cinema, da indústria discográfica ou de quaisquer outros detentores de direitos de autor. A proposta admite também que o Governo norte-americano possa exigir a remoção de um determinado site das pesquisas nos motores de busca e que os detentores de direitos de autor fiquem com o caminho aberto para cortarem o financiamento – bancário e através de publicidade, por exemplo – a um site que considerem estar a infringir a lei.

Para além do Stop Online Piracy Act, na Câmara dos Representantes, os legisladores norte-americanos estão a discutir outra proposta de lei antipirataria no Senado, conhecida como PIPA – Protect IP Act. O autor desta proposta, o democrata Patrick Leahy, já anunciou que está disposto a retirar do texto uma das suas premissas mais polémicas, que obrigaria os fornecedores de Internet a impedirem a entrada dos utilizadores em sites que contenham ou promovam o acesso a ficheiros protegidos por direitos de autor. “Esta decisão porá fim a muita da oposição que enfrentamos”, diz.

A Casa Branca está do lado dos que hoje protestam. Numa declaração do Presidente dos Estados Unidos, publicada no blogue da Casa Branca há quatro dias, afirma-se que a Administração Obama “não irá apoiar legislação que reduza a liberdade de expressão, que aumente o risco da cibersegurança ou que ponha em causa uma Internet global dinâmica e inovadora”.

18 de Janeiro de 2012 - Público

Felizmente, depois, o José Mário Branco diz isto:
"Predomina, até na autoria, na propriedade intelectual, a propriedade privada. É estupidez! Completa. Quem é que está aqui a defender a propriedade privada de Mozart ou do Beethoven, ou do Shakespeare? Ninguém!"
Haja quem o queira ouvir.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

sobre a mediocridade comezinha...

este artigo estava perdido no baú virtual, mas merece toda a recuperação, divulgação e reflexão.



Alexandra Prado Coelho, Pública

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

demagogia e nacionalismos bacocos


o Pedro Santos Guerreiro fez uma coisa simples, simples, simples: não foi demagogo. e isto já é dizer muito. e, depois, fez outra coisa, quase tão simples e aproximadamente tão invulgar nos dias que correm: pôs os conhecimentos que tem, que são muitos, ao serviço do que escreve. e não parece que lho custe fazer, como tem feito, "de janeiro a janeiro..."

impostos nos Países Baixos

Estamos saturados de manhosos, desconfiados de moralistas, estamos sem ídolos, sem heróis, estamos encandeados pelos faróis dos que saltam para o lado do bem para escapar à turba contra o mal. Quando apanhamos, abocanhamos. Estraçalhamos. Somos uma multidão furiosa. Às vezes, erramos. A família Soares dos Santos não está a fugir aos impostos. Mesmo se vai fugir ao País.

Só há um antídoto contra a especulação: a informação. É assustador ver tanta opinião instantânea sobre o que se desconhece. A sede de vingança tomou o lugar da fome de justiça. O problema não está na rua, nas redes sociais, nas esquinas dos desempregados. Está em quem tem a obrigação de saber do que fala. Do Parlamento, de Ana Gomes, de António Capucho, dos que pedem boicotes ao Pingo Doce (para comprar onde, já agora? No Continente da Sonae que tem praças na Holanda? No Lidl, que as tem na Alemanha?).

A decisão da família Soares dos Santos pode ser criticada mas não pelas razões que ontem se ouviu. A Jerónimo Martins não vai pagar menos impostos. E a família que a controla também não - até porque já pagava poucos.

Uma empresa tem lucro e paga IRC; depois distribui lucro pelos accionistas, que pagam IRC (se forem empresas) ou IRS (se forem particulares). Neste caso, a Jerónimo continua a pagar o mesmo IRC em Portugal (e na Polónia); o seu accionista de controlo, a "holding" da família Soares dos Santos, transferiu-se para a Holanda. Por ter mais de 10% da Jerónimo, essa "holding" não pagava cá imposto sobre os dividendos e continuará a não pagar lá. Já quando essa "holding" paga aos membros da família, cada um pagaria 25% de IRS cá - e pagará 25% lá. Com uma diferença: 10% são para a Holanda, 15% para Portugal.

Porque tomou a família uma decisão que, sendo neutra para si, prejudica o Estado português? Pela estabilidade e eficácia fiscal de lá, que bate a portuguesa. Pelo acesso a financiamento, impossível cá. E porque a família tem planos de crescimento que não incluem Portugal.

Aqueles que se escandalizaram ontem deviam ter-se comovido também quando, há um par de meses (como aqui foi escrito), a Jerónimo anunciou como iria investir 800 milhões de euros em 2012: 400 milhões da Colômbia, 300 na Polónia... e 100 milhões em Portugal. Isto sim, é sair de Portugal. E quando a Jerónimo investir na Colômbia, provavelmente vai fazê-lo também através da Holanda, onde se paga menos. Estes são problemas diferentes dos que ontem foram enunciados: a falta de atracção de investimento de Portugal; e a instabilidade fiscal, que muda leis como quem muda de camisa, afastando o capital.

A família Espírito Santo tem sede no Luxemburgo. Belmiro lançou a OPA à PT a partir do Holanda. O investimento estrangeiro é feito de fora. Isabel dos Santos investe na Zon a partir de Malta. Queiroz Pereira tem os activos estrangeiros separados de Portugal. António Mota desabafa há dias que pode ter de criar uma sede fora de Portugal só para que a banca lhe empreste dinheiro. E a família Soares dos Santos tem um plano que não nos contou mas que ainda nos vai surpreender - feito com bancos estrangeiros e a partir da Holanda, que é uma plataforma fiscal mais favorável à internacionalização para fora do espaço europeu, uma vez que não há dupla tributação da Holanda para e do resto do mundo.

O que custa a engolir não é que Soares dos Santos tenha cortado o passado com Portugal, esse mantém-no e continua a pagar impostos. É que tenha cortado o futuro. É que tenha decidido investir fora daqui porque aqui não tem por onde crescer, para procurar lucros fora de Portugal, criar postos de trabalho fora de Portugal e, então sim, pagar impostos desse futuro fora de Portugal. Pensando bem, esse é um grande problema e é um problema nosso. Mas investir fora do País não é traição. É apenas desistir dele. E a Jerónimo já partiu para a Polónia há muitos, muitos anos - ou ninguém reparou?
Pedro Santos Guerreiro, Jornal de Negócios


depois, e para gáudio geral, há os pequenos génios da demagogia que nos governam...

O deputado João Almeida referiu esta tarde no Parlamento compreender que os consumidores possam "adaptar o perfil de consumo" e deixar de comprar à Jerónimo Martins.

No debate parlamentar em que se discutiu a decisão da "holding" da família Soares dos Santos, que controla a dona do Pingo Doce, João Almeida começou por salientar que "isto tem a ver com a perda de competitividade fiscal a que o PS conduziu o País", deixando depois uma nota também sobre uma "discussão que não tem de se fazer nesta câmara".

"Se é legítimo a um empresário fazer esta opção, ainda que criticável, também é legítimo para os consumidores adaptarem o seu perfil de consumo", referiu o parlamentar democrata-cristão, numa alusão aos incentivos ao boicote à empresa que têm surgido nas redes sociais. Acusando a esquerda de querer “nivelar tudo por baixo”, João Almeida deu a fórmula da bancada para contrariar estas saídas do País.

“Se uns são competitivos e nós não somos, então somos nós que temos de fazer as reformas”, disse, citando o documento de estratégia orçamental por falar em planos de “redução do número de escalões, baixar as taxas e trazer ao sistema fiscal português a competitividade que ao longo destes anos perdemos”. Alinhando pelo mesmo diapasão, também o parceiro de coligação reforçou que “o controlo do défice e da dívida pública é o primeiro passo para evitar estas situações”.

“Embora legal é moralmente reprovável”, assumiu também o deputado Virgílio Macedo, para quem “mais do que aumentarmos a carga fiscal sobre as empresas e perseguirmos os seus investimentos para evitarmos isto, temos é de fazer o percurso inverso: tornar o País mais atractivo do ponto de vista fiscal”.

João Almeida & CDS-PP, Jornal de Negócios

terça-feira, 27 de setembro de 2011

e continua a senda da destruição

depois do aumento de impostos, da privatização de empresas de sectores energéticos estratégicos, depois das reduções orçamentais em diversas áreas da saúde, vem agora aquele que é sempre o deus menor de todos os governos (de esquerda e de direita, diga-se): a cultura.

o Francisco pensa assim sobre o assunto e prepara-se para dar mais uma machadada ignóbil sobre o já paupérrimo estado geral da coisa:

Entidades públicas da cultura deixam de poder viver abstraídas do grande teste da bilheteira, "i"

Francisco José Viegas, secretário de Estado e da Cultura, avançou que o Governo está a avaliar a "aplicação" do IVA nas atividades culturais. "Expresso"

para além de há muito tempo termos deixado de apostar na educação cultural, e de protegermos os nossos melhores artistas, agora também temos de entrar na lógica mercantilista de que tudo tem de dar lucro.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

os tempos estão a mudar

depois das declarações de Paulo Macedo, a Médis lançou agora um novo anúncio publicitário absolutamente mórbido e que resume em si toda uma nova forma de encarar a saúde pública em Portugal. mais uma vez se prova que a escolha dos ministros foi a mais adequada para cada um dos cargos em questão e que Paulo Macedo paulatinamente vai fazendo o trabalho que agrada de sobremaneira ao seu anterior empregador. Ora veja-se:



terça-feira, 6 de setembro de 2011

que tontos estes pobrezinhos...



ouvir o primeiro ministro temer a revolta social contra as suas medidas de austeridade e ameaçar com repressão implacável qualquer distúrbio aquece-nos a alma de saudosismo fascista, não aquece?

bem sei que o esforço está a ser bem feito para que o balanço final deste mandato seja igual ao que se fez de 40 aninhos de Salazarismo: "epah, ao menos as contas estavam em ordem". como dizia o zé mário (que todos podemos tratar assim, mesmo sem nunca lhe ter apertado a mão, porque ele é de todos) "uma porra pá, um autêntico desastre o 25 de Abril, / esta confusão pá, / a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa..."

bons tempos esses, da malta sossegadinha, em que se ia ao bolso com propriedade; tempo refrescante esse dos bufos oficiais, que tanta saudade deixa por aí; os ajuntamentos perigosos com mais de três pessoas, os jornais a defenderem o interesse nacional em vez de o denegrirem; ah, e as cargas policiais do país feliz, esse país que continuou depois de abril, um país que ganhou sufixo de ão pelo génio de quem o governou dez anos imerso em maiorias e certezas absolutas. que bons tempos esses...

e que poética esta visão que o primeiro ministro tem dos portugueses em geral, e dos terroristas que usam as redes sociais em particular; todos uns desordeiros que, veja-se, por não concordarem com a política anti-social deste governo, por se sentirem ultrajados quando são, de novo, privados dos seus direitos (os que deviam ser inalienáveis), o direito, inclusivamente, de ter a vida planeada com o dinheiro que é seu e que servia para pagar as contas no final do mês, decidem protestar e manifestar e gritar e barafustar e protestar.

que tontos estes pobrezinhos, que podem ser ameaçados com uma declaração na televisão de que as suas manifestações não serão toleradas e serão esmagadas. que tontos, não somos camaradas?

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

troca-tintas

a suposta juventude e as coisas que ela perdoa

inspirado pelos escritos de uma amiga, decidi escrever sobre aquilo de que não gosto. não consegui ter a mesma capacidade para fazer uma lista de tudo aquilo que me irrita e que eu não aprecio, mas decidi escrever sobre algo de que não gosto particularmente.


o presidente da Comissão Europeia, José Barroso, José Manuel Barroso, Durão Barroso, Durão, seja qual for o seu nome artístico neste momento, é uma personagem interessante da cena política. tem um percurso académico excepcional, sabe falar várias línguas, estudou em várias universidades de vários países europeus, não é mau de todo a falar e a discursar perante multidões, estejam elas à sua frente ou recostadas tranquilamente no sofá, gosta de viajar, gosta de ir aos Açores, sabe receber e aperta muito bem as mãos enquanto sorri. o senhor presidente (para não complicar a escolha do melhor nome de entre os possíveis), viveu a sua juventude, a sua entrada na vida adulta, em tempos de grande indefinição política, de enormes e compreensíveis euforias, de exageradas divisões e exacerbadas afirmações ideológicas, um período marcado por um maravilhoso idealismo revolucionário, uma total esperança no futuro e a certeza absoluta de uma ruptura consumada com o passado. facilmente se percebe o quão difícil terá sido para o jovem senhor presidente ultrapassar as dúvidas normais de qualquer jovem quando a estas acresce uma conjuntura política nacional extremamente complicada de definir. naturalmente, o jovem senhor presidente teve dificuldades em ajustar-se ao tempo em que vivia e em definir as suas convicções ideológicas e acabou por se juntar ao grande partido revolucionário e defensor dos direitos dos operários (trabalhadores já é uma concessão contemporânea), o PCTP / MRPP - Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses / Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado - para ajudar a liderar os seus colegas estudantes na luta do proletariado. em 1980, o já não tão jovem senhor presidente percebeu finalmente e de forma definitiva as suas convicções ideológicas e abraçou-as para sempre. desvarios de uma juventude difícil. não faz mal porque era jovem e não sabia bem o que andava a fazer. hoje defende outros ideais, tem outra população alvo, outras preocupações e outros conceitos económicos que o guiam; hoje pertence ao "centro"-direita, ao PPD / PSD - Partido Popular Democrático / Partido Social-Democrata - e a uma família partidária europeia diferente, chamada popular.
são coisas que acontecem. porque era jovem.
hoje já não é jovem, por isso não faz mal.

troca-tintas - ou nas palavras de Sepúlveda, vomitivo, carne de blogue!


um destacado jornalista de referência e director de referência de um jornal de referência, mais constante no nome utilizado, José Manuel Fernandes, vive neste momento os seus últimos dias nessas mesmas funções directivas. José Manuel Fernandes pertenceu à UDP - União Democrática Popular -, colaborou com A Voz do Povo, abraçou na sua juventude os ideias ideológicos de um partido de esquerda, lutou por esses ideais, escreveu sobre eles, eram a sua convicção. há não muito tempo atrás, durante um período de campanha eleitoral, participou num jantar de campanha do PPD / PSD.
são coisas que acontecem, porque era jovem.
hoje já não é jovem, por isso não faz mal.

troca-tintas - vomitivo, carne de blogue!


João Carlos Espada... é mais difícil porque oficialmente não pertence a nenhum partido. já pertenceu, quando era novo, quando era jovem e até foi director d' A Voz do Povo, o jornal da UDP. hoje tem opiniões um bocadinho diferentes de quando tinha convicções ideológicas fortes e era de esquerda e defendia o socialismo revolucionário e os operários e trabalhadores e as classes desfavorecidas e os estudantes e tudo o mais que havia para defender.
são coisas que acontecem, porque era jovem.
hoje já não é jovem, por isso não faz mal.

troca-tintas - vomitivo, carne de blogue!

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

parvoíce a alta velocidade

Um destacado líder partidário, que não interessa identificar como sendo Paulo Portas, disse que 90% dos portugueses nunca usaram, não usam (e não vão usar) o TGV. Isto sugere-me duas coisas, e começo pelo fim: sempre adorei as previsões feitas pela Maia, e outras fotografias que tais, mas agora temos o Portas a fazer futurismo e isso não pode ser motivo de qualquer outro sentimento que não o de imenso contentamento. Para além de ser o líder das mais finas e requintadas elites e, simultaneamente, de toda a populaça que com ele queira conviver, agora também nos apresenta previsões futurísticas absolutamente geniais e completamente fundamentadas.
Mas a primeira coisa que me sugere foi uma experiência que decidi fazer ao ouvir as suas primeiras palavras. Fui até à Gare do Oriente, ali no Parque das Nações, em Lisboa. Entrei, calmamente, e dirigi-me ao cais de embarque. Fiquei por ali alguns minutos vendo passar os comboios. Foi quando me apercebi que tinha acabado de perder o TGV. Perdi o TGV literalmente. Ainda andei à procura dele durante várias horas, mas não o encontrei. Continuo sem o encontrar... Oferece-se recompensa a quem tiver notícias sobre o meu TGV perdido...

sábado, 12 de setembro de 2009

Mediocridade

Medíocres... para chegar ao topo

Burocratas, como Durão Barroso e Ban Ki-moon, são postos à frente de instituições internacionais por conveniência de Chefes de Estado e Governo

O sorriso de José Manuel Durão Barroso tornou-se deslavado e inseguro. De tempos a tempos, este seu habitual sorriso desaparece e um véu acizentado parece velar-lhe o rosto bronzeado. Esta é uma fase complicada para o Presidente português da Comissão Europeia e entrar no recém-eleito Parlamento Europeu em Estrasburgo, no dia 15 de Julho, foi uma experiência particularmente difícil.
Foi no dia em que se esperava que Durão Barroso fosse eleito para mais um mandato de cinco anos à frente do quartel-general da União Europeia, em Bruxelas. Era o que estava previsto no guião escrito durante a última reunião de Chefes de Estado e de Governo. Mas o Parlamento decidiu fazer-se difícil, tendo os membros do Partido Os Verdes e os sociais-democratas decidido adiar a votação.
A próxima oportunidade para eleger Durão Barroso será a 15 de Setembro, mas talvez então nada aconteça, já que também alguns correligionários democratas cristãos começaram a distanciar-se do seu candidato.
Durão Barroso tornou-se numa figura tragicómica. Já quase ninguém o tem em grande conta. Na verdade, há agora muita gente que o critica e espalha calúnias maliciosas acerca das suas tentativas desesperadas para conseguir o apoio dos seus antigos defensores. Um destes, a chanceler alemã Angela Merkel, que em tempos o ajudou a conseguir a nomeação, ridiculariza-o agora por recorrer tantas vezes a ela. Membros do gabinete da ministra sueca dos Assuntos Europeus, Cecilia Malmstrõm, também fizeram comentários depreciativos sobre Barroso.
Este deixou de ter qualquer autoridade significativa, se é que alguma vez a teve. A questão que se coloca é saber por que motivo os líderes europeus o escolheram? E por que razão troçam agora dele e o deixam cair, como se a sua posição fosse meramente acessória e não um cargo proeminente dentro da UE, uma grande potência económica com aspirações a ser uma potência política? A razão é óbvia, diz um dirigente da Europa do Sudeste: a UE agarra-se a este homem, conhecido pela sua fraqueza, por razões de conveniência e porque a procura de uma alternativa iria provavelmente desencadear maiores conflitos.
Na verdade, políticos como Angela Merkel e o Presidente francês, Nicolas Sarkosy, valorizam a sua superioridade em relação ao Presidente da Comissão Europeia. Se fosse um dos seus pares, um homem como o francês Jacques Delors, que dirigiu a Comissão entre 1985 e 1995 com um misto de ambição e panache, e que foi justamente alcunhado de «Sr. Europa», a UE não seria o tipo de organização que os grandes países conseguem controlar em benefício próprio.
Barroso não levanta este tipo de problemas aos líderes francês e alemão. Dele não se esperam propostas sobre os limites da expansão ou sobre um «núcleo forte» europeu, que pudesse liderar uma organização que cresceu significativamente nos últimos anos.
É óbvio que esta gritante falta de iniciativa ao mais alto nível não é benéfica para uma instituição como a UE, num momento em que esta enfrenta uma grave crise económica e está cada vez mais a ser marginalizada por um Presidente americano que domina a cena mundial.
Não serve de consolo o facto de outras organizações importantes, que tentam desempenhar um papel na política mundial, terem optado por uma abordagem semelhantes. O desequilíbrio entre os princípios e a liderança é actualmente gritante nas Nações Unidas, onde o Secretário-Geral, Ban Ki-moon, um sul-coreano, é sobretudo um gestor e não um líder. Do mesmo modo, a NATO e o Banco Mundial também aplicaram o critério da discrição à escolha dos seus actuais secretários-gerais.
Estes dirigentes são o produto de uma forma de pensar equilibrada. A sua selecção assenta no princípio da mediocridade e eles são incapazes de estar à altura das possibilidades que os seus cargos oferecem. Porém, concretizar as potencialidades desses cargos parece ser exactamente aquilo que os países e líderes nacionais que os escolheram não querem que eles façam.
Há cinco anos, a Comissão Europeia poderia ter tido uma alternativa a Durão Barroso: o político belga Guy Verhofstadt, um homem que pensa pela sua cabeça, com experiência e determinado a não desempenhar um papel secundário. O então chanceler Gerhard Schroeder fez campanha a seu favor, mas, em 2004, o percurso político de Schroeder já estava em declínio, o que permitiu a Angela Merkel agarrar a sua oportunidade. Esta mobilizou os líderes europeus conservadores e derrotou Schroeder. Durão Barroso, então primeiro-ministro português, não era o melhor candidato mas tinha ambições modestas - e foi isso que contou.
(…)
Ban Ki-moon, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros da Coreia do Sul, é Secretário-Geral da ONU há dois anos e meio. Na sede da organização, em Nova Iorque, e não só, é visto como uma desilusão e como o homem errado para assumir um cargo de destaque e liderar a comunidade global, num período em que o eixo político mundial está a deslocar-se da América para a Ásia. Sempre se disse que Ban Ki-moon está mais interessado em ser secretário do que ge(ne)ral, e é exactamente isso que ele é hoje.
(…)


Der Spiegel

Ralf Beste, Klaus Brinkbäumer, Manfred Ertel,
Rüdiger Falksohn, Hans-Jürgen Schlamp

(Jornal alemão, Munique)

Publicado na edição portuguesa de Setembro do Courrier Internacional