Mostrar mensagens com a etiqueta poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta poesia. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 13 de outubro de 2015

os torna-viagem tornarão

110.000 por ano. o mito que nunca saiu da Portela. o drama que não é drama nenhum. um país de costas voltadas, dividido e quebrado. mal tratante.
"As malas do portugueses | São como os olhos das rezes | Que se mastigam três vezes | Em cada chão"

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

o grito claro

de escadas insubmissas
de fechaduras alerta
de chaves submersas
e roucos subterrâneos
onde a esperança enlouqueceu
de notas dissonantes
dum grito de loucura
de toda a matéria escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro

António Ramos Rosa, Antologia Poética

terça-feira, 14 de agosto de 2012

sobre a insuficiência

Sobre estas duras, cavernosas fragas,
Que o marinho furor vai carcomendo,
Me estão negras paixões n’alma fervendo
Como fervem no pego as crespas vagas:

Razão feroz, o coração me indagas,
De meus erros a sombra esclarecendo,
E vás nele (ai de mim!) palpando, e vendo
De agudas ânsias venenosas chagas:

Cego a meus males, surdo a teu reclamo,
Mil objetos de horror co’a idéia eu corro,
Solto gemidos, lágrimas derramo:

Razão, de que me serve o teu socorro?
Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;
Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro.

Insuficiência dos ditames da razão contra o poder do amor, Bocage

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

simplesmente zeca

23 de fevereiro de 1987, faz hoje 25 anos. há precisamente 25 anos atrás faltavam 2 dias para completar 2 meses de existência. o Zeca deixou-nos e os meus pais deixaram-me, pela primeira vez, para irem até Setúbal, ao seu funeral. ainda bem que o fizeram.

cresci com as suas músicas, as músicas do Zeca; nas viagens de carro, com aquelas pequenas cassetes que nos acompanharam durante várias horas. decorei-as todas, uma a uma, Grândola, Vila Morena à cabeça, gosto e gesto revolucionário acompanhado por uma voz, a minha, que nunca nasceu para cantar. o Zeca fez de nós livres; libertou-nos da única maneira que é possível, tornando-nos conscientes. e nós, eu, ganhámos consciência do que fomos, do que somos e do que podemos ser. o Zeca fez bem a Portugal e sem ele seríamos, certamente, menos do que aquilo que somos.

eu ganhei consciência com o Zeca e hoje sou mais livre.

viva Zeca, viva sempre.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

coisas que merecem destaque II

Coragem é outra coisa
Olá, espero que estejas bem.

Escrevo-te por egoísmo. Fui encontrando por aí, nas últimas semanas e por culpa de um texto que escrevi, elogios à minha suposta coragem. Mas sempre que me chamam corajoso apareces tu. E ficas por aqui até eu ser capaz de destruir esta coisa tão minha de acreditar, ou querer acreditar à força, na existência de um herói romântico cá dentro.

As pessoas confundem coragem com dever cívico. Eu não fui corajoso, nem deixei de ser. Escrevi um texto. Gritei com os dedos. Senti que devia escrever e escrevi. Coragem é outra coisa. Ninguém é mais ou menos corajoso por narrar aquilo que toda a gente vê. Coragem e indignação são coisas diferentes. Exprimir o sentir de uma geração e ser reconhecido por isso é motivo de orgulho. É. Mas não é um acto de coragem. Coragem é escrever cartas de amor a um sábado à noite e deixar o mundo ler.

Escrevi-te algumas. Nunca que te disse. Não te mostrei. O mundo não sabe que escrevo coisas destas. As cartas de amor são sempre ridículas. Mas as dos outros são ainda mais ridículas. Parece que carregamos todos esse medo: o de parecermos ridículos aos olhos daqueles que nunca escreveram uma carta de amor. Ter coragem é perder esse medo.

Num tempo em que partilhamos tudo: fotografias, músicas, notícias e vídeos, porque é que não partilhamos cartas de amor? Porque é que não lançamos cartas na rede? Porque é que não nos ligamos às cartas de amor uns dos outros? Eu não tenho medo de escrever cartas de amor, nem que me achem ridículo. Tenho é medo que me respondam. Por isso é que nunca arrisquei. Foram ficando por aqui. Há uns meses, num rasgo de coragem, pensei engarrafar a última e lançá-la ao rio. Acobardei-me. Não conheço as marés. Começava assim:

“Subi as escadas na ânsia de escrever uma carta de amor, mas não estou apaixonado. Ninguém escreve cartas de amor a um sábado à noite, muito menos sem estar apaixonado.

Tenho saudades daquilo que não fui contigo. Das coisas que nunca te disse. As outras também não disse: foram morrendo antes de ter tido a bravura de deixar-te vivê-las. As palavras que guardei não são minhas, são nossas. Foram nossas. Agora são tuas: aprendi a viver com elas como se já não fizessem parte de mim. Nunca te falei como queria, nem como sentia que te perdia. Nunca me despi devagarinho, sílaba a sílaba, como naquela primeira noite em que o mar deixou de enrolar a areia daquela praia. Aquela. Apaixonaste-te. Mesmo assim apaixonaste-te. E eu apaixonei-me pela ideia de ter alguém apaixonado por mim, assim, de repente, sem me pedir o mesmo. Sempre pensei que a paixão chegaria de outra forma: caprichosa, exigente, como eu.

Transformaste tudo. Desde a minha ideia de paixão até à cega paixão de mim por mim. Transformaste tudo numa noite de sábado como esta: apagaram as luzes da ponte e fizeram desaparecer o Cristo Rei. Parece que a cidade decidiu dormir e entregar-se ao sono que experimentei enquanto estiveste aqui. Vale-me o eléctrico.

Aprender a viver com saudades tuas é a paz vista desta janela. Lá vai o quinze. Chia, como sempre. E enquanto chia lembra que o silêncio é tantas vezes um acto de coragem. Como no dia em que guardaste para sempre a resposta à minha pergunta: E porque não tentamos outra vez? Outra e mais outra e mais outra. As vezes que tu achares que são precisas para eu ser outra coisa. Porquê?

O eléctrico já lá vai. Última paragem: Algés. Enquanto vai e volta vou desfiando a saudade.

Queria voltar a falar do azul dos teus olhos e desses caracóis dourados. Queria voltar a sussurrar-te contos de fadas e as aventuras “do príncipe”. Queria gozar outra vez com os teus pés, enormes, e implicar com a areia da praia que deixavas na banheira. Queria dizer-te tudo outra vez, de outra maneira. As praias onde nos perdemos têm hoje mais rocha. Estive lá. Há um bocadinho de ti em cada uma delas. De mim, pouco, muito pouco. Entretanto, aprendi mais coisas sobre aquelas estrelas que te fui mostrando enquanto complicávamos o trânsito na A2. Queres saber? Não importa. Eu continuo cheio de vontade de te contar.

A saudade vive deste gosto pelo ausente. Deste “like” permanente anotado nas coisas que vivemos ou que deixamos por dizer. Todo o homem é livre de não voltar atrás. Mas não há liberdade que assalte esta coragem: a de escrever cartas de amor a um sábado à noite e deixar o mundo inteiro ler.
”

Beijo

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

da série "cartas famosas" - IV

Fotos do Fogo

Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira

A guerra deu na tv
foi na retrospectiva
corpo dormente em carne viva
revi p´ra mim o cheio aceso
dos sítios tão remotos
e do corpo ileso
vou-te mostrar as fotos
olha o meu corpo ileso

Olha esta foto, eu aqui
era novo e inocente
"às suas ordens, meu tenente!"
E assim me vi no breu do mato
altivo e folgazão
ou para ser mais exacto
saudoso de outro chão
não se vê no retrato

Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira

Nesta outra foto, é manhã
olha o nosso sorriso
noite acabou sem ser preciso
sair dos sonhos de outras camas
para empunhar o cospe-fogo e o lança-chamas
estás são e salvo e logo
"viver é bom", proclamas

Eu nesta, não fiquei bem
estou a olhar para o lado
tinham-me dito: eh soldado!
É dia de incendiar aldeias
baralha e volta a dar
o que tiveres de ideias
e tudo o que arder, queimar! no fogo assim te estreias

Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira

Nesta outra foto, não vou
dar descanso aos teus olhos
não se distinguem os detalhes
mas nota o meu olhar, cintila
atrás da cor do sangue
vou seguindo em fila
e atrás da cor do sangue
soldado não vacila

O meu baptismo de fogo
não se vê nestas fotos
tudo tremeu e os terremotos
costumam desfocar as formas
matamos, chacinamos
violamos, oh, mas
será que não violamos
as ordens e as normas?

Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira

Álbum das fotos fechado
volto a ser quem não era
como a memória, a primavera
rebenta em flores impensadas
num livro as amassamos
logo após cortadas
já foi há muitos anos
e ainda as mãos geladas

Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
quando a recordo
sei que quase logo acordo
a morte dorme parada
nesta morada

Sérgio Godinho

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

da série "cartas famosas" - II

carta ao Zeca

Vieste de menino de oiro pela mão
Acordar a madrugada
E fez mais às vezes uma só canção
Do que muita panfletada

Grandes janelas soubeste abrir
Por onde o ar correu sem te pedir
Que não se cansem de nascer
As fontes onde vais beber

Nunca mais te hás-de calar
Ó Zeca, para nós
Canta sempre sem parar
Que é seiva e flor a tua voz

Vestiste a capa de caloiro coimbrão
Para ultrapassar o fado
E, em cada Natal, teu fruto temporão
Nunca foi ultrapassado.

Na distracção jogas à defesa
Com o humor disfarças a tristeza
Cantas a esperança e o amor
Que o povo te ensinou de cor.

Nem tudo o que reluz é oiro, pois então
E bem gostaria o facho
De te ver calado e manso pela mão
Com medalhas no penacho.

Com a tua ronha felina e sã
Vais-lhe atirando as flechas de amanhã
O olho pisco a acender
E a garganta a acontecer.

José Jorge Letria

da série: "cartas famosas"


carta ao Tom

Rua Nascimento Silva, 107
Você ensinando prá Elizete
As canções de canção do amor de mais

Lembra que tempo feliz
Ai, que saudade...
Ipanema era só felicidade
Era como se o amor doesse em paz

Nossa famosa garota nem sabia
A que ponto a cidade turvaria
Esse Rio de amor que se perdeu

Mesmo a tristeza da gente era mais bela
E, além disso, se via da janela
Um cantinho de céu e o Redentor

É, meu amigo, só resta uma certeza
É preciso acabar com essa tristeza
É preciso inventar de novo o amor
 
Vinicius de Moraes
carta do Tom

Rua Nascimento Silva, 107
Eu saio correndo do pivete
Tentando alcançar o elevador

Minha janela não passa de um quadrado
A gente só vê Sérgio Dourado
Onde antes se via o Redentor

É, meu amigo, só resta uma certeza
É preciso acabar com a natureza
É melhor lotear o nosso amor

António Carlos Jobim