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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

o grito claro

de escadas insubmissas
de fechaduras alerta
de chaves submersas
e roucos subterrâneos
onde a esperança enlouqueceu
de notas dissonantes
dum grito de loucura
de toda a matéria escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro

António Ramos Rosa, Antologia Poética

sexta-feira, 20 de junho de 2014

amanhã, sempre amanhã. ou do Chico

perguntaram-me um dia, numa daquelas perguntas feitas com amizade pura, se eu fosse para uma ilha e pudesse levar só uma música qual seria. o exercício é hiperbólico mas mereceu resposta inequívoca.

mesmo que ingrata, e potencialmente injusta, esta escolha não levantou dúvidas, porque o Chico nunca foi equívoco ou ambíguo. não foi conivente ou pactuante e exilou-se do outro lado do Atlântico. foi deste lado de cá, que rejubilou de alegria e esperança quando em 1974, apesar das léguas a nos separar, nos pediu a semente esquecida nalgum canto de jardim. e nós, a partir de Trás-os-Montes, onde nasce o rio Amazonas, não esquecemos quem nos amou. e essa mesma amizade pura, aquela que me lançou na malha hiperbólica da ilha, quando eu lhe pedia novidades, dizia-me sempre que ali, na terra, estão jogando futebol, tem muito choro, muito samba e rock'n'roll. que a tarifa não tem graça e que só faltava o correio andar a isco. o que ela me queria dizer é que ali, aqui, a coisa está preta. e não se esqueceu de, no momento em que me preparava para deixar terras frias da Europa central, me lembrar que eu tinha razão em pegar esse avião e fugir assim daquele frio. lembrou-me de pedir perdão pela duração dessa temporada e pela omissão um tanto forçada. e o Chico, que um dia chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar, mandou-nos trabalhar. logo a nós, malandros por excelência, e que fomos exímios em lhe(s) ensinar a arte da malandragem. nós, que já fomos a nata da malandragem, estamos agora indefesos perante o malandro regular profissional, com o aparato de malandro oficial, candidato a malandro federal, com retrato na coluna social; com contrato, com gravata e capital, e que nunca se dá mal. o Chico, que viveu o grande amor, sambando, falou-nos da Carolina, da Bárbara, da Rita, da Geni e de seu zepelim, da Ana, que era de Amsterdam, e de todas as mulheres, até as de Atenas, para nos relembrar que, olhos nos olhos, muitos foram os homens que as amaram bem mais e melhor que ele. o Chico, que herdou nas veias a verve de Cartola, Tom, Vinicius, e Gilberto - o João e o Gil - foi, durante as últimas cinco décadas, político, cronista, trovador, amante e malandro. eu, que ontem lhe deixei passar o dia de comemoração dos seus 70 de vida, sem a prosa lírica de Caetano, mas com o mesmo grau de amor, rendo-me a ele nesta singela homenagem, que é mais para mim do que para ele, porque ele sempre foi muito mais para mim.

e a resposta maturada à pergunta hiperbolicamente acertada, foi esta, sempre esta, aquela que se pode ouvir sem parar e sem exaustão. tinha de ser esta, porque mesmo nos tempos mais escuros e mais sombrios, aqueles em que nos querem fazer viver, mesmo quando cessa toda a esperança e a opressão parece comprimir até o nascer do dia, nunca nada vai impedir o galo de cantar. mesmo nos dias mais cinzentos, como os que correm, pejados de interesses e orientados sem felicidade, quem inventou o pecado e a tristeza, vai ter a fineza de desinventar. e quando alguém tentar proibir, a água nova de brotar, a gente vai-se amar, sem parar.  tinha de ser esta, porque amanhã vai ser sempre outro dia.


terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Lugar, lugares. a excelência de Herberto Helder



era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. as pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído. e diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso. e não devemos malquerer às mitologias assim, porque são das pessoas, e neste assunto de pessoas, amá-las é que é bom. e então a gente ama as mitologias delas. à parte isso o lugar era execrável. as pessoas chiavam como ratos, e pegavam nas coisas e largavam-nas, e pegavam umas nas outras e largavam-se. dizia: boa tarde, boa noite. e agarravam-se, e iam para a cama umas com as outras, e acordavam. às vezes acordavam no meio da noite e agarravam-se freneticamente. tenho medo - diziam. e depois amavam-se depressa e lavavam-se, e diziam: boa noite, boa noite. isto era uma parte da vida delas, e era uma das regiões (comovedoras) da sua humanidade, e o que é humano é terrível e possui uma espécie de palpitante e ambígua beleza. e então a gente ama isto, porque a gente é humana, e amar é que é bom, e compreender, claro, etc. E no tal lugar, de manhã, as pessoas acordavam. bom dia, bom dia. e desatavam a correr. é o meu inferno, o meu paraíso, vai ser bom, vai ser horrível, está a crescer, faz-se homem. e a gente então comove-se, e apoia, e ama. está mais gordo, mais magro. e o lugar começa a ser cada vez mais um lugar, com as casas de várias cores, as árvores, e as leis, e a política. porque é preciso mudar o inferno, cheira mal, cortaram a água, as pessoas ganham pouco - e que fizeram da dignidade humana? as reivindicações são legítimas. não queremos este inferno. dêem-nos um pequeno paraíso humano. bom dia, como está? mal, obrigado. pois eu ontem estive a falar com ela, e ela disse: sou uma mulher honesta. e eu então fui para o emprego e trabalhei, e agora tenho algum dinheiro, e vou alugar uma casa decente, e o nosso filho há-de ser alguém na vida. e então a gente ama, porque isto é a verdadeira vida, palpita bestialmente ali, isto é que é a realidade, e todos juntos, e abaixo a exploração do homem pelo homem. e era intolerável. ouvimos dizer que, numa delas, o pequeno inferno começou a aumentar por dentro, e ela pôs-se silenciosa e passava os dias a olhar para as flores, até que elas secavam, e ficava somente a jarra com os caules secos e a água podre. mas o silêncio tornava-se tão impenetrável que os gritos dos outros, e a solícita ternura, e a piedade em pânico - batiam ali e resvalavam. e então a beleza florescia naquele rosto, uma beleza fria e quieta, e o rosto tinha uma luz especial que vinha de dentro como a luz do deserto, e aquilo não era humano - diziam as pessoas. temos medo. e o ruído delas caminhava para trás, e as casas amorteciam-se ao pé dos jardins, mas é preciso continuar a viver. e havia o progresso. eu tenho aqui, meus senhores, uma revolução. desejam examinar? por este lado, se fazem favor. aí à direita. muito bem. não é uma boa revolução? bem, compreende... claro é uma belíssima revolução. e é barata? uma revolução barata?! não, senhores, esta é uma verdadeira revolução. algumas vidas, alguns sacrifícios, alguns anos, algumas. um bocado cara. mas de boa qualidade, isso. e o rosto que se perdera, que possivelmente caíra do corpo e rolara debaixo das mesas, o rosto? lembras-te? como foi que ficou assim? não sei: tinha uma luz. sim, lembro-me: parecia uma flor que apodrecesse friamente. era terrível. boa noite. e ela trazia um vestido de seda branca, e nesse dia fazia dezoito anos, e estava queimada pelo sol, e era do signo da Balança, e tomou os comprimidos todos, e acabou-se. não compreendo. e julgas tu que eu compreendo? quem pode compreender? ela era a própria força, aquela irradiante virtude da alegria, aquele fulgor radical..., compreendes? sim, sim. tinha um vestido de seda, e era nova, e então acabou-se. para diante, para diante. não se deve parar. enforquem-nos, a esses malditos banqueiros. este vai ter trinta e cinco andares, será o mais alto da cidade. por pouco tempo, julgo eu. como? sim, vão construir um com trinta e seis, ali à frente. remodelemos o ensino. cantemos aquela canção que fala da flor da tília. bebamos um pouco. e o outro, o outro, o que viu Deus quando ia para o emprego?! isto, imaginem, às 8h. e 45 m. de uma tranquila manhã de março. uma partida. uma partida de Deus? boa piada. não amará Deus essas maliciosas surpresas? um pequeno Deus folgazão?! ele ficou doido. começou a gritar e a fugir. que Deus vinha atrás dele. e depois? bem, lá construíram o prédio com trinta e seis andares, e o outro ficou em segundo lugar. isto é o trabalho do homem: pedra sobre pedra. é belo. vamos amar isto? vamos, é humano, é do homem. e as crianças cresceram todas, e andavam de um lado para outro, e iam fazendo pela vida - como elas próprias diziam. e então as condições sociais? sim, melhoraram bastante. mas uma delas começou a beber, e depois o coração estoirou, e ficou apenas para os outros uma memória incómoda. parece que sim, que tinha demasiada imaginação, e levaram-na ao médico e ele disse: aguente-se, e ela não se aguentou. era uma criança. não, não, nessa altura já tinha crescido, bebia pelo menos um litro de brandy por dia. nada mau, para uma antiga criança. a verdade é que era uma criança, e não se aguentou quando o médico disse: aguente-se. e as ruas são tão tristes. precisam de mais luz. mas nesta, por exemplo, já puseram mais luz, e mesmo assim é triste. é até mais triste que as outras. estou tão triste. vamos para férias, para o pequeno paraíso. contaram-me que ele tinha uma alegria tão grande que não podia agarrar num copo: quebrava-o com a força dos dedos, com a grande força da sua alegria. era uma criatura excepcional. depois foi-se embora, e até já desconfiavam dele, e embarcou, e talvez não houvesse lugar na terra para ele. e onde está? mas era uma alegria bárbara, uma vocação terrível. partiu. e agora chove, e vamos para casa, e tomamos chá, e comemos aqueles bolos de que tu gostas tanto. e depois, e depois? ele era belo e tremendo, com aquela sua alegria, e não tinha medo, e só a vibração interior da sua alegria fazia com que os copos se quebrassem entre os dedos. foi-se embora.

Herberto Helder, Lugar, Lugares, in Os Passos em Volta

domingo, 14 de outubro de 2012

sobre a ausência de razão

o primeiro amor

É fácil saber se um amor é o primeiro amor ou não. Se admite que possa ser o primeiro, é porque não é, o primeiro amor só pode parecer o último amor. É o único amor, o máximo amor, o irrepetível e incrível e antes morrer que ter outro amor. Não há outro amor. O primeiro amor ocupa o amor todo.

Nunca se percebe bem por que razão começa. Mas começa. E acaba sempre mal só porque acaba. Todos os dias parece estar mesmo a começar porque as coisas vão bem, e o coração anda alto. E todos os dias parece que vai acabar porque as coisas vão mal e o coração anda em baixo.

O primeiro amor dá demasiadas alegrias, mais do que a alma foi concebida para suportar. É por isso que a alegria dói – porque parece que vai acabar de repente. E o primeiro amor dói sempre demais, sempre muito mais do que aguenta e encaixa o peito humano, porque a todo o momento se sente que acabou de acabar de repente. O primeiro amor não deixa de parte um único bocadinho de nós. Nenhuma inteligência ou atenção se consegue guardar para observá-lo. Fica tudo ocupado. O primeiro amor ocupa tudo. É inobservável. É difícil sequer reflectir sobre ele. O primeiro amor leva tudo e não deixa nada.

Diz-se que não há amor como o primeiro e é verdade. Há amores maiores, amores melhores, amores mais bem pensados e apaixonadamente vividos. Há amores mais duradouros. Quase todos. Mas não há amor como o primeiro. É o único que estraga o coração e que o deixa estragado.

É como uma criança que põe os dedos dentro de uma tomada eléctrica. É esse o choque, a surpresa «Meu Deus! Como pode ser!» do primeiro amor. Os outros amores poderão ser mais úteis, até mais bonitos, mas são como ligar electrodomésticos à corrente. Este amor mói-nos o juízo como a Moulinex mói café. Aquele amor deixa-nos cozidos por dentro e com suores frios por fora, tal e qual num micro-ondas. Mas o «Zing!» inicial, o tremor perigoso que se nos enfia por baixo das unhas e dá quatro mil voltas ao corpo, naquele micro-segundo de electricidade que nos calhou, só acontece no primeiro amor. [...]

O primeiro amor é aquele que não se limita a esgotar a disposição sentimental para os amores seguintes: quer esgotá-la. Depois dele, ou depois dela, os olhos e os braços e os lábios deixam de ter qualquer utilidade ou interesse. [...]

Não há amor como o primeiro. [...] O primeiro amor é uma chapada, um sacudir das raízes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e não nos explica. Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as órbitas dos olhos, do impensável calor de podermos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde saltamos. Saltamos e caímos. [...]

Há amores melhores, mas são amores cansados, amores que já levaram na cabeça, amores que sabem dizer «Alto-e-pára-o-baile», amores que já dão o desconto, amores que já têm medo de se magoarem, amores democráticos, que se discutem e debatem. E todos os amores dão maior prazer que o primeiro. O primeiro amor está para além das categorias normais da dor e do prazer. Não faz sentido sequer. Não tem nada a ver com a vida. Pertence a um mundo que só tem duas cores – o preto-preto feito de todos os tons pretos do planeta e o branco-branco feito de todas as cores do arco-íris, todas a correr umas para as outras.

Podem ficar com a ternura dos 40 e com a loucura dos 30 e com a frescura dos 20 – não outro amor como o doentio, fechado-no-quarto, o amor do armário, com uma nesga de porta que dá para o Paraíso, o amor delirante de ter sempre a boca cheia de coração e não conseguir dizer outra coisa com coisa, nem falar, nem pedir para sair, nem sequer confessar: «Adeus Mariana – desta vez é que me vou mesmo suicidar.» Podem ficar (e que remédio têm) com o savoir-faire e os fait-divers e o «quero com vista pró mar se ainda houver». Não há paz de alma, nem soalheira pachorra de cafunés com champagne, que valha a guerra do primeiro amor, a única em que toda a gente morre e ninguém fica para contar como foi.

Não há regras para gerir o primeiro amor. Se fosse possível ser gerido, ser previsto, ser agendado, ser cuidado, não seria primeiro. A única regra é: Não pensar, não resistir, não duvidar. Como acontece em todas as tragédias, o primeiro amor sofre-se principalmente por não continuar. Anos mais tarde, ainda se sonha retomá-lo, reconquistá-lo, acrescentar um último capítulo mais feliz ou mais arrumado. Mas não pode ser. O primeiro amor é o único milagre da nossa vida – e não há milagres em segunda mão. É tão separado do resto como se fosse uma primeira vida. Depois do primeiro amor, morre-se. Quando se renasce há uma ressaca. É um misto de «Livra! Ainda bem que já acabou!» e de «Mas o que é isto? Para onde é que foi?».

Os outros amores são maiores, são mais verdadeiros, respeitam mais as personalidades, são mais construtivos – são tudo aquilo que se quiser. Mas formam um conjunto entre eles. O segundo e o terceiro e o quarto, por muito diferentes, são mais parecidos. São amores que se conhecem uns aos outros, bebem copos juntos, telefonam-se, combinam ir à Baixa comprar cortinados. O primeiro amor não forma conjunto nenhum. Nem sequer entre os dois amantes – os primeiros, primeiríssimos amantes. Acabam tão separados os dois como o primeiro amor acaba separado dos demais. [...]

Mas é por ser insustentável e irrepetível que o primeiro amor não se esquece. Parece impossível porque foi. Não deu nada do que se quis. Não levou a parte nenhuma. O primeiro amor deveria ser o primeiro e esquecer-se, mas toda a gente sabe, durante o primeiro amor ou depois, que é sempre o último.

Afinal nem é por ser primeiro, nem é por ser amor. A força do primeiro amor vem de queimar – do incêndio incontrolável - todas aquelas ilusões e esperanças, saudades pequenas e sentimentos, que nascem em nós com uma força exagerada e excessiva. Como se queima um campo para crescer plantas nele. Se fôssemos para todos os outros amores com o coração semelhantemente alucinado e confuso, nunca mais seríamos felizes. É essa a tristeza do primeiro amor. Prepara-nos para sermos felizes, limando arestas, queimando energias, esgotando inusitadas pulsões, tornando-nos mais «inteligentes».

É por isso que o primeiro amor fica com a metade mais selvagem e inocente de nós. Seguimos caminho, para outros amores, mais suaves e civilizados, menos exigentes e mais compreensivos. Será por isso que o primeiro amor nunca é o único? Que lindo seria se fosse mesmo. Só para que não houvesse outro.

Miguel Esteves Cardoso, Os meus problemas

sexta-feira, 13 de abril de 2012

sobre a vergonha

habituei-me, todas as manhãs, a ouvir o Fernando Alves. não falho um programa, uma crónica, uma aula. fico sempre suspenso durante aqueles 3 ou 4 minutos, sem saber de mais nada.

esta é das mais bonitas - daquela beleza cruel, que põe a nu toda a realidade que preferimos fingir desconhecer, aquela beleza das palavras que servem para despertar para a dureza dos factos, aqueles factos que dizem que 23% da população espanhola não tem emprego. são os novos pobres, aquela expressão de contraponto, aquela expressão que cunha toda uma nova realidade de pessoas que, repentinamente, entram na triste espiral da pobreza miserável.

Fernando Alves manda calar Sarkozy, como ainda precisam de fazer os franceses.

Alejandro Toledo é um bem sucedido criativo de uma agência espanhola de publicidade. Há dias, caminhava em Madrid quando viu um antigo companheiro de profissão. Cumprimentaram-se e ele percebeu que o outro ia buscar comida a uma instituição de solidariedade.
Estou a contar-vos isto que li num jornal espanhol e não me sai da cabeça a frase de campanha de Sarkozy pedindo que votem nele para evitar uma crise como a da Espanha. E Mario Monti repetindo a cantilena. E a justa cólera dos espanhóis, Rajoy pedindo prudência nas declarações. Rajoy prudente, engolindo a cólera, engolindo a vontade de desatar o latim.
Mas Toledo percebeu que o outro, ainda ontem, tal como ele, um publicitário bem sucedido, ia agora à sopa dos pobres. Viu que o outro entrou num refeitório social e saiu com a sua ração de comida. Por dentro, a dignidade amarfanhada. Por fora, a roupa cuidada, disfarçando a condição de novo pobre.
Pode acontecer contigo, comigo. Já amanhã.
Alejandro Toledo ficou muito impressionado, a tal ponto que decidiu fazer um spot televisivo para a Caritas, chamando a atenção para a importância do trabalho humanitário. O resultado foi um filme comovente. Teria custado 40 mil euros. Mas todos os que nele participaram o fizeram gratuitamente. O homem que representa o novo pobre de Madrid é um malabarista que Toledo encontrou na rua. A menina que faz de sua filha é a filha de Toledo, o autor da campanha.
...
A primeira cena mostra-nos uma rua movimentada, fim de dia. A cidade já iluminada, reflexos de luzes nos estabelecimentos. Um homem, ainda jovem, caminha com uma menina. Agora ela pára. Encosta a cara ao vidro da montra. Tem um gorro roxo, uma mochila. Não larga um urso de peluche que aperta contra o peito.
O homem puxa uma enorme mala de viagem com rodas. Há uma loja de frutas. Atravessam, agora, um centro comercial. A menina chora junto a uma das montras. Depois senta-se no passeio. O pai incita-a a que prossiga. Estugam o passo, puxando a grande mala. O rosto do homem cruza-se com o de uma deusa da publicidade, num cartaz. Escureceu. É a menina que puxa agora a grande mala, como se fosse um cão pela trela. A casa pela trela. Há grupos de sem abrigo estendendo os seus cartões. O homem e a menina hão-de fazer o mesmo, adiante.
Agora amanheceu. Caminham de novo pelas ruas, entram na casa onde outros esperam não se sabe o quê. Podia ser uma sala de espera de um hospital. Sentam-se, o homem coloca uns sacos de plástico na cadeira ao lado. A menina não larga o urso de peluche. A fila começa a mover-se. Mulheres de bata branca estendem aos da fila embalagens com alimentos.
Saem para a rua. Agora estão sentados num banco de jardim. O homem abre a embalagem. É sopa, ainda fumegante. Ele dá sopa à menina. Talvez conte uma história enquanto leva a colher de sopa à boca da filha. Há um homem que toca acordeon. O homem e a filha sorriem. Abraçam-se. A menina corre para um escorrega.
...
Cala-te, Sarkozy. Um pouco de pudor. Verguenza.

quarta-feira, 28 de março de 2012

sobre a arte

a Arte existe porque a Vida não basta
Ferreira Goulart


El niño y la paloma
Pablo Picasso

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

coisas que merecem destaque II

Coragem é outra coisa
Olá, espero que estejas bem.

Escrevo-te por egoísmo. Fui encontrando por aí, nas últimas semanas e por culpa de um texto que escrevi, elogios à minha suposta coragem. Mas sempre que me chamam corajoso apareces tu. E ficas por aqui até eu ser capaz de destruir esta coisa tão minha de acreditar, ou querer acreditar à força, na existência de um herói romântico cá dentro.

As pessoas confundem coragem com dever cívico. Eu não fui corajoso, nem deixei de ser. Escrevi um texto. Gritei com os dedos. Senti que devia escrever e escrevi. Coragem é outra coisa. Ninguém é mais ou menos corajoso por narrar aquilo que toda a gente vê. Coragem e indignação são coisas diferentes. Exprimir o sentir de uma geração e ser reconhecido por isso é motivo de orgulho. É. Mas não é um acto de coragem. Coragem é escrever cartas de amor a um sábado à noite e deixar o mundo ler.

Escrevi-te algumas. Nunca que te disse. Não te mostrei. O mundo não sabe que escrevo coisas destas. As cartas de amor são sempre ridículas. Mas as dos outros são ainda mais ridículas. Parece que carregamos todos esse medo: o de parecermos ridículos aos olhos daqueles que nunca escreveram uma carta de amor. Ter coragem é perder esse medo.

Num tempo em que partilhamos tudo: fotografias, músicas, notícias e vídeos, porque é que não partilhamos cartas de amor? Porque é que não lançamos cartas na rede? Porque é que não nos ligamos às cartas de amor uns dos outros? Eu não tenho medo de escrever cartas de amor, nem que me achem ridículo. Tenho é medo que me respondam. Por isso é que nunca arrisquei. Foram ficando por aqui. Há uns meses, num rasgo de coragem, pensei engarrafar a última e lançá-la ao rio. Acobardei-me. Não conheço as marés. Começava assim:

Subi as escadas na ânsia de escrever uma carta de amor, mas não estou apaixonado. Ninguém escreve cartas de amor a um sábado à noite, muito menos sem estar apaixonado.

Tenho saudades daquilo que não fui contigo. Das coisas que nunca te disse. As outras também não disse: foram morrendo antes de ter tido a bravura de deixar-te vivê-las. As palavras que guardei não são minhas, são nossas. Foram nossas. Agora são tuas: aprendi a viver com elas como se já não fizessem parte de mim. Nunca te falei como queria, nem como sentia que te perdia. Nunca me despi devagarinho, sílaba a sílaba, como naquela primeira noite em que o mar deixou de enrolar a areia daquela praia. Aquela. Apaixonaste-te. Mesmo assim apaixonaste-te. E eu apaixonei-me pela ideia de ter alguém apaixonado por mim, assim, de repente, sem me pedir o mesmo. Sempre pensei que a paixão chegaria de outra forma: caprichosa, exigente, como eu.

Transformaste tudo. Desde a minha ideia de paixão até à cega paixão de mim por mim. Transformaste tudo numa noite de sábado como esta: apagaram as luzes da ponte e fizeram desaparecer o Cristo Rei. Parece que a cidade decidiu dormir e entregar-se ao sono que experimentei enquanto estiveste aqui. Vale-me o eléctrico.

Aprender a viver com saudades tuas é a paz vista desta janela. Lá vai o quinze. Chia, como sempre. E enquanto chia lembra que o silêncio é tantas vezes um acto de coragem. Como no dia em que guardaste para sempre a resposta à minha pergunta: E porque não tentamos outra vez? Outra e mais outra e mais outra. As vezes que tu achares que são precisas para eu ser outra coisa. Porquê?

O eléctrico já lá vai. Última paragem: Algés. Enquanto vai e volta vou desfiando a saudade.

Queria voltar a falar do azul dos teus olhos e desses caracóis dourados. Queria voltar a sussurrar-te contos de fadas e as aventuras “do príncipe”. Queria gozar outra vez com os teus pés, enormes, e implicar com a areia da praia que deixavas na banheira. Queria dizer-te tudo outra vez, de outra maneira. As praias onde nos perdemos têm hoje mais rocha. Estive lá. Há um bocadinho de ti em cada uma delas. De mim, pouco, muito pouco. Entretanto, aprendi mais coisas sobre aquelas estrelas que te fui mostrando enquanto complicávamos o trânsito na A2. Queres saber? Não importa. Eu continuo cheio de vontade de te contar.

A saudade vive deste gosto pelo ausente. Deste “like” permanente anotado nas coisas que vivemos ou que deixamos por dizer. Todo o homem é livre de não voltar atrás. Mas não há liberdade que assalte esta coragem: a de escrever cartas de amor a um sábado à noite e deixar o mundo inteiro ler.


Beijo

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

da série "cartas famosas" - IV

Fotos do Fogo

Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira

A guerra deu na tv
foi na retrospectiva
corpo dormente em carne viva
revi p´ra mim o cheio aceso
dos sítios tão remotos
e do corpo ileso
vou-te mostrar as fotos
olha o meu corpo ileso

Olha esta foto, eu aqui
era novo e inocente
"às suas ordens, meu tenente!"
E assim me vi no breu do mato
altivo e folgazão
ou para ser mais exacto
saudoso de outro chão
não se vê no retrato

Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira

Nesta outra foto, é manhã
olha o nosso sorriso
noite acabou sem ser preciso
sair dos sonhos de outras camas
para empunhar o cospe-fogo e o lança-chamas
estás são e salvo e logo
"viver é bom", proclamas

Eu nesta, não fiquei bem
estou a olhar para o lado
tinham-me dito: eh soldado!
É dia de incendiar aldeias
baralha e volta a dar
o que tiveres de ideias
e tudo o que arder, queimar! no fogo assim te estreias

Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira

Nesta outra foto, não vou
dar descanso aos teus olhos
não se distinguem os detalhes
mas nota o meu olhar, cintila
atrás da cor do sangue
vou seguindo em fila
e atrás da cor do sangue
soldado não vacila

O meu baptismo de fogo
não se vê nestas fotos
tudo tremeu e os terremotos
costumam desfocar as formas
matamos, chacinamos
violamos, oh, mas
será que não violamos
as ordens e as normas?

Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira

Álbum das fotos fechado
volto a ser quem não era
como a memória, a primavera
rebenta em flores impensadas
num livro as amassamos
logo após cortadas
já foi há muitos anos
e ainda as mãos geladas

Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
quando a recordo
sei que quase logo acordo
a morte dorme parada
nesta morada

Sérgio Godinho

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

da série "cartas famosas" - II

carta ao Zeca

Vieste de menino de oiro pela mão
Acordar a madrugada
E fez mais às vezes uma só canção
Do que muita panfletada

Grandes janelas soubeste abrir
Por onde o ar correu sem te pedir
Que não se cansem de nascer
As fontes onde vais beber

Nunca mais te hás-de calar
Ó Zeca, para nós
Canta sempre sem parar
Que é seiva e flor a tua voz

Vestiste a capa de caloiro coimbrão
Para ultrapassar o fado
E, em cada Natal, teu fruto temporão
Nunca foi ultrapassado.

Na distracção jogas à defesa
Com o humor disfarças a tristeza
Cantas a esperança e o amor
Que o povo te ensinou de cor.

Nem tudo o que reluz é oiro, pois então
E bem gostaria o facho
De te ver calado e manso pela mão
Com medalhas no penacho.

Com a tua ronha felina e sã
Vais-lhe atirando as flechas de amanhã
O olho pisco a acender
E a garganta a acontecer.

José Jorge Letria

da série: "cartas famosas"


carta ao Tom

Rua Nascimento Silva, 107
Você ensinando prá Elizete
As canções de canção do amor de mais

Lembra que tempo feliz
Ai, que saudade...
Ipanema era só felicidade
Era como se o amor doesse em paz

Nossa famosa garota nem sabia
A que ponto a cidade turvaria
Esse Rio de amor que se perdeu

Mesmo a tristeza da gente era mais bela
E, além disso, se via da janela
Um cantinho de céu e o Redentor

É, meu amigo, só resta uma certeza
É preciso acabar com essa tristeza
É preciso inventar de novo o amor
 
Vinicius de Moraes
carta do Tom

Rua Nascimento Silva, 107
Eu saio correndo do pivete
Tentando alcançar o elevador

Minha janela não passa de um quadrado
A gente só vê Sérgio Dourado
Onde antes se via o Redentor

É, meu amigo, só resta uma certeza
É preciso acabar com a natureza
É melhor lotear o nosso amor

António Carlos Jobim

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

caetano

Caetano - por isso é um gueto. porque é fechada; é uma vida fechada. a vida da língua portuguesa é fechada ao mundo da língua portuguesa. não é como o inglês ou espanhol, entendeu? não é tão fechado quanto o esloveno, porque o esloveno é falado por um grupo pequeníssimo de pessoas apenas na Eslovénia. português é falado em Portugal, um país pequeno, mas que fez grandes viagens; e ao fazê-las, levou a língua, daqui, dessa ponta da Península Ibérica, para várias partes do mundo; e uma delas é o imenso Brasil.
CVM - acredita numa ideia de lusofonia?
Caetano - isso é a lusofonia! esse mundo onde se fala português.
CVM - acredita que há uma especificidade lusófona?
Caetano - sem dúvida! sempre há! onde há uma língua há alguma especificidade, ligada ao facto que é aquela língua que é falada e não outra. sempre há, isso é inescapável!
CVM - ainda gosta de sentir a sua língua roçar a língua de Luís de Camões?
Caetano - sim, gosto. gosto, porque eu gosto de falar, gosto de conversar e gosto de escrever. gosto de ler e gosto de ouvir. e para isso é preciso palavras, para palavras é preciso língua, e a minha língua, que eu aprendi primeiro, que minha mãe falava, meu pai falava, meus irmãos e meus vizinhos era o português. então, eu amo a primeira língua que eu falei, mas amo as outras também. vou dizer igualmente. só não é igualmente porque eu não tenho capacidade de ter a intimidade com as outras línguas que eu posso ter com o português. mas a língua, as palavras, é uma coisa que me dá prazer.

Caetano Veloso & Carlos Vaz Marques - Pessoal e Transmissível

chico

CVM - qual é a coisa mais importante da sua vida?
Chico - a coisa mais importante da vida é viver! eu faço música, escrevo para minha satisfação pessoal! eu escrevo literatura para minha satisfação pessoal e por necessidade minha, pessoal. não é para me valorizar, para me sentir mais sério, ou mais poderoso, ou mais valoroso do que a outra pessoa, do que eu mesmo antes de escrever... quando termino um livro não sou mais do que era antes de escrever!
Chico Buarque & Carlos Vaz Marques - Pessoal e Transmissível

domingo, 7 de fevereiro de 2010

état d'éprit


Daniel Barenboim - Beethoven - Piano Sonata #8 In C Minor, Op. 13, "Pathétique" - 1. Grave, Allegro Di Molto E Con Brio



Daniel Barenboim - Beethoven - Piano Sonata #8 In C Minor, Op. 13, "Pathétique" - 2. Adagio Cantabile



Daniel Barenboim - Beethoven - Piano Sonata #8 In C Minor, Op. 13, "Pathétique" - 3. Rondo: Allegro