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terça-feira, 13 de outubro de 2015

os torna-viagem tornarão

110.000 por ano. o mito que nunca saiu da Portela. o drama que não é drama nenhum. um país de costas voltadas, dividido e quebrado. mal tratante.
"As malas do portugueses | São como os olhos das rezes | Que se mastigam três vezes | Em cada chão"

quinta-feira, 4 de julho de 2013

a palavra

havia uma palavra em português antigo que se aplicava aos direitos e à democracia. e à palavra dada. ou nos contratos. e nas promessas. nas decisões.

depois essa palavra caiu em desuso. perdeu-se pela má utilização.

de repente já ninguém sabia o que ela queria dizer. uns diziam que era uma coisa, outros diziam que era outra. linguistas reuniram-se e debateram durante dias. foi uma algazarra e o povo assistiu, ávido por saber a douta decisão. puristas da lingua portuguesa dos cinco continentes reuniram-se em Lisboa, trocando argumentos, defendendo uma e outra vez as suas posições.

quando terminaram, deram por perdido o seu tempo. o significado dessa palavra perdera-se para sempre.

hoje em dia, ninguém sabe o que ela significa e cria o caos sempre que é utilizada.

essa palavra era irrevogável. irrevogável era essa palavra.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

sobre a hipocrisia à escala europeia

antes, a estratégia era "não somos gregos". no hoje radiante a estratégia é "nós também somos a Grécia". viva a coesão e solidariedade europeias!

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

f*ck off

alguém devia dizer ao Henrique que ele não tem piada e que é porco e que este texto dá asco e vómitos e parece a transcrição exacta da mente de um depravado sexual. podia ser que ele decidisse reverter de vez o processo que deu origem ao seu nascimento.

http://expresso.sapo.pt/o-adriana-da-me-o-teu-amor=f755770

terça-feira, 26 de junho de 2012

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

o regresso da mediocridade comezinha e do moralismo de algibeira


nada que surpreenda. quem não entende o significado e a origem da bandeira que "orgulhosa e patrioticamente" ostenta na lapela, pouco pode saber sobre liberdade e direitos civis.

Las mujeres tendrán que volver a dar una justificación para abortar

El País, 2 de Fevereiro de 2012 (aquele ano que é, ao que tudo indica, no século XXI)

iOnline, 2 de Fevereiro de 2012 (aquele ano que, ao que tudo indica, continua a ser no século XXI)

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

quem se importa?

17 de janeiro, 2012. faz hoje 1 ano. 1 inteirinho, daqueles com 365 dias bem redondinhos. quase 5 anos depois. foi em 2007. já lá vão 5 trabalhos diferentes. 3 estágios. 1 ano a trabalhar no mesmo sítio. a 1ª vez. com contrato. seguem-se, espera-se, mais 9 meses. com contrato. muitos números, 1 pensamento, impronunciável. mais 1 número, foi aos 25. o pensamento: nem é muito mau.

não ia ser assim. não devia ter sido assim. eu ia mudar o mundo. ou só combater a hipocrisia. e a precariedade. juntei-me a ela.

que importa se aos 11 anos o meu avô carregava vigas de ferro de um lado ao outro de Lisboa? e que antes tivesse estado a ajudar os pais a preparar a banca no mercado, logo pela "fresquinha", às 4 da manhã. deitar cedo e cedo erguer, não deu saúde, mas fez o fascismo florescer. e que ele se tenha reformado aos 65, com 54 de de trabalho. que importa?

que importa se, por causa disso, o meu avô teve de aprender a ser o mais culto dos homens sozinho? que importa se as lutas sindicais do meu avô por mais direitos e protecção no trabalho estão a ir por água abaixo?

que importa se bastou apenas pouco mais de meio século para estarmos todos a duplipensar e que conceitos como horas extraordinárias tenham sido substituídos pelos seus correspondentes em novilíngua como competitividadedefensum ou produtividadeaumentum?

não ia ser assim. não devia ter sido assim. não lhe ia dar razão. era só um reality show. só um big brother. para ver como é que corre. correu bem. ganhou-nos, a todos.

que importa se, na mudança dos ciclos, não se depura a escória e a mediocridade? que importa se se destrói tudo o que se conquistou e, mais importante, tudo o que está certo? que importa se as pessoas perderam valor? que o ser humano seja uma moeda que desvaloriza com a inflação dos mercados financeiros? que importa?

domingo, 9 de outubro de 2011

mais troikistas que a troika

o Crato é um homem de convicções. e quando disse que queria implodir o ministério da educação esqueceu-se de nos avisar que isso implicava impedir a colocação de mais professores, aumentar o número de alunos por sala, parar o processo de modernização das escolas (mesmo que, à semelhança do que aconteceu com algumas obras públicas, os processos de construção e reconstrução já estavam em marcha) e voltar a fazer uma trapalhada na colocação dos professores como não se via há mais de 6 anos...

mas agora está tudo mais claro: o Crato veio e veio com toda a força! estes cortes não são cegos. este é o início de uma nova era em Portugal. uma era mais livre, com mais possibilidade de escolha, em que as famílias poderão optar pela escola onde querem pôr os seus filhos. e para garantir que esta escolha é acertada, aí vêm os contratos com as escolas privadas, com reforço do seu financiamento... e aí vamos nós, caminhando para o elitismo que tanto precisamos em Portugal que, a juntar-se à maior liberdade de escolha na saúde, nos colocará no topo do ranking de liberdades e garantias!

Liberdade para escolher uma escola vai inspirar-se nos EUA e Reino Unido - Público



terça-feira, 27 de setembro de 2011

sobre o fim da barbárie

a última tourada na "Monumental" de Barcelona animou muito a comentarite nacional esta semana. os arautos da tradição logo se apressaram a esgrimir argumentos em como esta era uma tomada de posição independentista contra Madrid mais que contra as touradas, que era uma opressão das minorias, uma falta de respeito pelos amantes da "arte tauromáquica", o fim de mais uma tradição e, até, o início do fim de uma espécie (o touro bravo).

que vão todos, inclusivamente o Miguel, dar uma grandessíssima e digníssima curva ao bilhar grande.

como refere, e bem, o Sérgio Lavos, a história encarregar-se-á de nos ridicularizar por termos chegado ao século XXI com esta trampa legalizada!


quarta-feira, 7 de outubro de 2009

troca-tintas

a suposta juventude e as coisas que ela perdoa

inspirado pelos escritos de uma amiga, decidi escrever sobre aquilo de que não gosto. não consegui ter a mesma capacidade para fazer uma lista de tudo aquilo que me irrita e que eu não aprecio, mas decidi escrever sobre algo de que não gosto particularmente.


o presidente da Comissão Europeia, José Barroso, José Manuel Barroso, Durão Barroso, Durão, seja qual for o seu nome artístico neste momento, é uma personagem interessante da cena política. tem um percurso académico excepcional, sabe falar várias línguas, estudou em várias universidades de vários países europeus, não é mau de todo a falar e a discursar perante multidões, estejam elas à sua frente ou recostadas tranquilamente no sofá, gosta de viajar, gosta de ir aos Açores, sabe receber e aperta muito bem as mãos enquanto sorri. o senhor presidente (para não complicar a escolha do melhor nome de entre os possíveis), viveu a sua juventude, a sua entrada na vida adulta, em tempos de grande indefinição política, de enormes e compreensíveis euforias, de exageradas divisões e exacerbadas afirmações ideológicas, um período marcado por um maravilhoso idealismo revolucionário, uma total esperança no futuro e a certeza absoluta de uma ruptura consumada com o passado. facilmente se percebe o quão difícil terá sido para o jovem senhor presidente ultrapassar as dúvidas normais de qualquer jovem quando a estas acresce uma conjuntura política nacional extremamente complicada de definir. naturalmente, o jovem senhor presidente teve dificuldades em ajustar-se ao tempo em que vivia e em definir as suas convicções ideológicas e acabou por se juntar ao grande partido revolucionário e defensor dos direitos dos operários (trabalhadores já é uma concessão contemporânea), o PCTP / MRPP - Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses / Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado - para ajudar a liderar os seus colegas estudantes na luta do proletariado. em 1980, o já não tão jovem senhor presidente percebeu finalmente e de forma definitiva as suas convicções ideológicas e abraçou-as para sempre. desvarios de uma juventude difícil. não faz mal porque era jovem e não sabia bem o que andava a fazer. hoje defende outros ideais, tem outra população alvo, outras preocupações e outros conceitos económicos que o guiam; hoje pertence ao "centro"-direita, ao PPD / PSD - Partido Popular Democrático / Partido Social-Democrata - e a uma família partidária europeia diferente, chamada popular.
são coisas que acontecem. porque era jovem.
hoje já não é jovem, por isso não faz mal.

troca-tintas - ou nas palavras de Sepúlveda, vomitivo, carne de blogue!


um destacado jornalista de referência e director de referência de um jornal de referência, mais constante no nome utilizado, José Manuel Fernandes, vive neste momento os seus últimos dias nessas mesmas funções directivas. José Manuel Fernandes pertenceu à UDP - União Democrática Popular -, colaborou com A Voz do Povo, abraçou na sua juventude os ideias ideológicos de um partido de esquerda, lutou por esses ideais, escreveu sobre eles, eram a sua convicção. há não muito tempo atrás, durante um período de campanha eleitoral, participou num jantar de campanha do PPD / PSD.
são coisas que acontecem, porque era jovem.
hoje já não é jovem, por isso não faz mal.

troca-tintas - vomitivo, carne de blogue!


João Carlos Espada... é mais difícil porque oficialmente não pertence a nenhum partido. já pertenceu, quando era novo, quando era jovem e até foi director d' A Voz do Povo, o jornal da UDP. hoje tem opiniões um bocadinho diferentes de quando tinha convicções ideológicas fortes e era de esquerda e defendia o socialismo revolucionário e os operários e trabalhadores e as classes desfavorecidas e os estudantes e tudo o mais que havia para defender.
são coisas que acontecem, porque era jovem.
hoje já não é jovem, por isso não faz mal.

troca-tintas - vomitivo, carne de blogue!

terça-feira, 15 de setembro de 2009

sexta-feira, 12 de junho de 2009

coisas... aqui ao lado... para não julgar...

um dia na vida de drazen erdemovic

já passava das nove da manhã quando drazen erdemovic e a sua unidade chegaram à quinta colectiva de Branjevo. não tinham sido informados do objectivo da missão. o comandante, brano gojkovic, estivera pouco falador durante a viagem de autocarro desde a base, em Vlasenica; nem sequer dissera aos seus homens onde iam. a situação não agradou a drazen. normalmente, o 10º destacamento de sabotagem das forças armadas da república srpska tinha missões bem definidas, de reconhecimento ou minagem do território inimigo, e era sempre informado delas com bastante antecedência. mas esta era diferente. fosse qual fosse o seu objectivo, era secreta. a única coisa que drazen sabia é que traziam com eles muitas munições, quer para pistolas quer para armas automáticas. a viagem não foi longa e, quando saíram do autocarro, viram que se encontravam perto de uma quinta. tratava-se de uma suinicultura, mas parecia deserta; não se viam animais nem pessoas, à excepção de um vigia solitário. no pátio erguia-se um imponente carvalho e drazen sentou-se à sua sombra, com outros companheiros. (…)
agora, deitado no chão daquela quinta de Branjevo, sentiu que a terra vibrava ligeiramente. era como daquela vez que tinha encostado uma orelha a um carril e conseguira ouvir o comboio a aproximar-se antes de ter aparecido por detrás de uma colina próxima. drazen levantou-se e olhou à sua volta. os outros não tinham dado por nada, mas por pouco tempo. vinha lá uma camioneta. era um veículo bastante velho, uma daquelas camionetas de carreira entre aldeias, quase sempre avariadas. drazen viu o nome "centrotrans" pintado em grandes letras na carroçaria e alguns soldados sentados nos lugares da frente. a camioneta deteve-se junto do edifício principal da quinta, a uns quinze metros deles. o comandante disse umas palavras ao condutor, enquanto dois soldados abriam a porta traseira, da qual emergiu um homem. drazen recordá-lo-á para sempre, pois nesse instante compreendeu qual era a missão do seu destacamento e sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. o homem era alto e muito magro. tinha bigode, mas drazen não conseguiu perceber que idade teria, pois estava vendado com um trapo sujo. vestia uma camisola azulada empapada em suor, umas calças azuis com riscas brancas de lado e calçava sapatilhas. vinha com as mãos atadas atrás das costas. o homem apeou-se da camioneta e deu alguns passos tacteantes; seguiram-se-lhe outros, igualmente vendados. um soldado conduziu-os a um campo próximo.
o comandante reuniu os seus homens e informou-os de que iriam chegar mais camionetas com civis de Srebrenica - ou seja, muçulmanos que se haviam rendido às forças da república srpska, tendo sido feitos prisioneiros. "vão ser executados pela nossa unidade", acrescentou. drazen e os seus camaradas de armas ficaram subitamente a saber que o seu destacamento se iria converter num pelotão de execução. drazen ficou aflito. nunca tinham recebido uma missão semelhante, mas ninguém disse palavra. só um deles, pero, parecia ansioso por começar, mas drazen reparou que ele bebia grandes tragos de uma garrafa de aguardente. olhou para os prisioneiros que estavam de pé, de costas voltadas para os soldados. um deles virou ligeiramente a cabeça na sua direcção, como se estivesse à espera de alguma coisa. quereria algo deles? drazen sentiu-se fortemente nauseado e pensou que ia vomitar.
não, não o faria! não podia matar outros homens assim, à queima roupa. as mãos tremiam-lhe quando se aproximou do comandante. "não quero fazer isto", disse. brano gojkovic virou-se para drazen, como se não tivesse ouvido bem. "o quê?" drazen conhecia o estratagema: gojkovic queria que ele repetisse alto e bom som o que dissera, para que toda a gente ouvisse e pudesse testemunhar o que quer que acontecesse a seguir. drazen olhou para os companheiros: "camaradas, eu não quero fazer isto. vocês são normais? sabem o que estão a fazer?" ,perguntou, embora com menos firmeza, sentindo a coragem a desvanecer-se rapidamente ao ver que os outros evitavam cuidadosamente o seu olhar. pero riu-se-lhe na cara. drazen pensou de repente que não ouvira um único pássaro cantar naquele dia. gojkovic encarou-o sem vacilar; a sua expressão era séria. "erdemovic", disse, "se não quer fazê-lo, vá até ali e junte-se aos prisioneiros para que possamos matá-lo também. dê-me a sua metralhadora!"
drazen deve ter percebido imediatamente que o oficial falava a sério, mas ficou desconcertado; não antecipara aquela reacção. por instantes imaginara poder sair-se daquela situação com uma simples recusa. mas de que estava ele à espera? lembrou-se de ouvir falar de um caso de desobediência anterior, na qual um soldado fora executado por ordem do tenente-coronel pelemis, e percebeu que era demasiado tarde para dizer não. já o deveria ter dito há muito tempo. o coração batia-lhe com tanta força, que não conseguia ouvir mais nada. durante um minuto, ou talvez menos, ficou pregado ao chão, com a kalashnikov nas mãos. por um instante, pensou em correr para um bosque, mas viu o rosto da sua mulher diante de si e sentiu-se impotente. podiam vingar-se nela e no bebé quando quisessem. ele era responsável por três vidas. tratava-se de uma desculpa, sim; a verdade é que demonstrara ser um cobarde, e sabia-o, mas poderia ter feito outra coisa? gojkovic não hesitaria em mandá-lo matar e pero teria cumprido a ordem de bom grado, embora drazen não percebesse o que tinha ele contra si. talvez o facto de não ser cem por cento sérvio, o que tornava ainda mais aconselhável levar a ameaça de gojkovic a sério.
o comandante já não olhava para ele, como se a sua decisão lhe fosse indiferente. ordenou aos soldados que se posicionassem atrás dos prisioneiros e a estes que se ajoelhassem. drazen tomou o seu lugar numa extremidade do pelotão. o coração continuava a bater-lhe furiosamente quando apontou a arma a um homem de idade cujo rosto, felizmente, não vira antes. rápida e febrilmente, pesou as alternativas. claro que podia fazer pontaria entre dois prisioneiros, mas aquele que lhe cabia iria morrer de qualquer forma. seria como morrer duas vezes. além disso, aquele pelotão de execução compunha-se apenas de uma dúzia de soldados, pelo que, se não apontasse devidamente, seria logo detectado. o comandante perceberia e ele seria executado. não, tinha de apontar ao prisioneiro. ouviu então a ordem, "disparar!", e o homem desapareceu do seu campo de visão. lembrava-se apenas de que a sua primeira vítima vestia uma camizeta cinzenta. drazen fechou os olhos e procurou acalmar-se, mas já outro grupo de prisioneiros estava diante dele. um deles gritou, "vão-se foder, seus...", mas a ordem de disparar foi dada antes que tivesse tempo de acabar a frase. depois da primeira vez, drazen disparou várias outras a intervalos de minutos, sem pensar muito no que estava a fazer. a única coisa que fazia conscientemente era tentar apontar a idosos e não a homens novos. parecia-lhe um desperdício menor. em pouco tempo, a camioneta ficou vazia.
quando olhou para o relógio, drazen sentiu-se chocado: tinham levado apenas um quarto de hora a executar cerca de sessenta pessoas. mas chegara entretanto uma segunda camioneta. os seus ocupantes não podiam ver o que os esperava, pois também estavam vendados. drazen sentiu-se aliviado, pensando que, afinal, se tratava de um acto de misericórdia para com aqueles pobres homens. contudo, não tardaram a chegar camionetas transportando homens sem vendas; nem sequer tinham as mãos amarradas. (...) drazen nunca vira algo semelhante: homens marchando ordeiramente para o local onde seriam executados, como animais num matadouro.
(...) já devia passar do meio-dia, mas os soldados não tinham tempo para descansar. a princípio, de meia em meia hora, drazen sentava-se debaixo da árvore e fumava um cigarro. era uma espécie de fuga, uma pausa. depois, deixou de lhe apetecer fumar. os seus movimentos tornaram-se cada vez mais mecânicos: apontava à cabeça de um homem e disparava, e ainda não tinha tido tempo para limpar o suor da testa quando já outro se ajoelhava à sua frente. era preferível assim; se fizesse um intervalo, aperceber-se-ia do cheiro desagradável que emanava dos corpos.
(...) o sol ainda ia alto e o fedor era insuportável. drazen tinha de sair daquele lugar dantesco. teve novamente vontade de saltar para dentro de água ou, pelo menos, de tomar um duche, para se libertar do cheiro a morte. se ao menos pudesse lavar as mãos... examinou-as cuidadosamente. não viu sangue, apenas uma bolha no indicador direito. uma bolha redonda, rosada. que estranho, pensou drazen, ficar com uma bolha por matar pessoas. calculou que devia ter puxado o gatilho umas setenta vezes. matara umas setenta pessoas, talvez, e tinha ficado com uma bolha. de repente, achou a situação tão hilariante, que destaou a rir histericamente.


Slavenka Drakulic, Não faziam mal a uma mosca:
como os homens banais podem ser criminosos de guerra