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terça-feira, 13 de outubro de 2015

apesar de você, amanhã vai ser (de novo) outro dia

hoje é dia da República. não de uma qualquer imaginária, mas da nossa, da portuguesa. hoje, pela terceira vez, não é feriado, forma simbólica de assinalar um dia histórico, determinante para a evolução e consolidação do nosso regime democrático - porque a República é, sobretudo, sobre democracia, renovação de mandatos e a sua legitimidade. hoje, pela primeira vez, o Presidente da República não comemora a República. mas, se outra prova fosse necessária, 105 anos depois, e mesmo apesar da negritude dos 48 anos de interrupção, as eleições de ontem demonstram a sua vivacidade. e que ela sobrevive aos golpes contra ela desferidos.

os resultados de ontem constituem o triunfo de uma visão de sociedade e de estado na qual não me revejo. um estado reduzido aos seus serviços mínimos, uma sociedade injusta e desigual. elegeu-se um governo que, à semelhança do que fez nos últimos quatro anos, continuará a destruir os mecanismos de proteção social, a tentar privatizar os últimos recursos económicos do Estado e a aumentar o fosso entre ricos e pobres, jovens e seniores, empregados e desempregados, os que ficaram e os que partiram, aparentemente, até, entre o norte e o sul. ontem, como há quatro anos, a vitória veio assente em falsas promessas, em mentiras, em ocultações. amanhã, como antes, saber-se-á o que foi escondido, mesmo com o rabo de fora.

com os resultados de ontem, a lição também fica para quem com ela quiser aprender. e há uma renovação no socialismo que é necessária fazer. recentrá-lo à esquerda. e não dividir para reinar. sobretudo não dividir para reinar.

com os resultados de ontem, o dia hoje amanheceu cinzento, metáfora sublime do porvir. mas, como diz o Chico Buarque, na música que tudo cura, "Hoje [ontem] você é quem manda | Falou, tá falado | Não tem discussão | A minha gente hoje anda | Falando de lado | E olhando pro chão, viu". felizmente, "Apesar de você | Amanhã há de ser | Outro dia | Você vai ter que ver | A manhã renascer | E esbanjar poesia | Como vai se explicar | Vendo o céu clarear | De repente, impunemente | Como vai abafar | Nosso coro a cantar | Na sua frente"

avante, camarada. amanhã há de ser outro dia.


sexta-feira, 20 de junho de 2014

amanhã, sempre amanhã. ou do Chico

perguntaram-me um dia, numa daquelas perguntas feitas com amizade pura, se eu fosse para uma ilha e pudesse levar só uma música qual seria. o exercício é hiperbólico mas mereceu resposta inequívoca.

mesmo que ingrata, e potencialmente injusta, esta escolha não levantou dúvidas, porque o Chico nunca foi equívoco ou ambíguo. não foi conivente ou pactuante e exilou-se do outro lado do Atlântico. foi deste lado de cá, que rejubilou de alegria e esperança quando em 1974, apesar das léguas a nos separar, nos pediu a semente esquecida nalgum canto de jardim. e nós, a partir de Trás-os-Montes, onde nasce o rio Amazonas, não esquecemos quem nos amou. e essa mesma amizade pura, aquela que me lançou na malha hiperbólica da ilha, quando eu lhe pedia novidades, dizia-me sempre que ali, na terra, estão jogando futebol, tem muito choro, muito samba e rock'n'roll. que a tarifa não tem graça e que só faltava o correio andar a isco. o que ela me queria dizer é que ali, aqui, a coisa está preta. e não se esqueceu de, no momento em que me preparava para deixar terras frias da Europa central, me lembrar que eu tinha razão em pegar esse avião e fugir assim daquele frio. lembrou-me de pedir perdão pela duração dessa temporada e pela omissão um tanto forçada. e o Chico, que um dia chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar, mandou-nos trabalhar. logo a nós, malandros por excelência, e que fomos exímios em lhe(s) ensinar a arte da malandragem. nós, que já fomos a nata da malandragem, estamos agora indefesos perante o malandro regular profissional, com o aparato de malandro oficial, candidato a malandro federal, com retrato na coluna social; com contrato, com gravata e capital, e que nunca se dá mal. o Chico, que viveu o grande amor, sambando, falou-nos da Carolina, da Bárbara, da Rita, da Geni e de seu zepelim, da Ana, que era de Amsterdam, e de todas as mulheres, até as de Atenas, para nos relembrar que, olhos nos olhos, muitos foram os homens que as amaram bem mais e melhor que ele. o Chico, que herdou nas veias a verve de Cartola, Tom, Vinicius, e Gilberto - o João e o Gil - foi, durante as últimas cinco décadas, político, cronista, trovador, amante e malandro. eu, que ontem lhe deixei passar o dia de comemoração dos seus 70 de vida, sem a prosa lírica de Caetano, mas com o mesmo grau de amor, rendo-me a ele nesta singela homenagem, que é mais para mim do que para ele, porque ele sempre foi muito mais para mim.

e a resposta maturada à pergunta hiperbolicamente acertada, foi esta, sempre esta, aquela que se pode ouvir sem parar e sem exaustão. tinha de ser esta, porque mesmo nos tempos mais escuros e mais sombrios, aqueles em que nos querem fazer viver, mesmo quando cessa toda a esperança e a opressão parece comprimir até o nascer do dia, nunca nada vai impedir o galo de cantar. mesmo nos dias mais cinzentos, como os que correm, pejados de interesses e orientados sem felicidade, quem inventou o pecado e a tristeza, vai ter a fineza de desinventar. e quando alguém tentar proibir, a água nova de brotar, a gente vai-se amar, sem parar.  tinha de ser esta, porque amanhã vai ser sempre outro dia.