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terça-feira, 13 de outubro de 2015

Portugal, vermelho esperança

Foram várias décadas a colar o PS à direita, que só ao centro não chegava. Pinceladas de cinzentismo que lhe quiseram esbater o vermelho escarlate da sua identidade. Um pragmatismo excessivo, uma impossibilidade de base histórica no entendimento à sua esquerda e forças internas levaram a que, 40 anos depois dos cravos, acordos à esquerda tenham sido sempre impossíveis. 40 anos depois do outro 25, o de novembro, estamos à beira dum acordo histórico, único, esclarecedor.

No dealbar da assinatura de um compromisso jamais registado na nossa história democrática, repetem-se as opiniões e as manipulações, quais lobos em pele de cordeiro, mascarados de conselhos amigos. De uma noite eleitoral que se antevia dura, marcada pelo irritante e inconsequente chiar das longas facas afiadas, das análise prematuras mas previamente traçadas, emergiu a esperança clara e real de, finalmente, ser alcançada uma aliança de esquerda, desavergonhada, fora do seu armário, despida de preconceitos e amarras datadas. Uma coligação pré-eleitoral, formada com o único e legítimo interesse de alcançar, de novo, a maioria suficiente para a continuação de mais austeridade nos quatro anos que aí vêm, saiu inequivocamente derrotada, afastada dessa possibilidade, objectivos gorados pela votação expressiva de quem na urna depositou a sua aspiração. E, da rejeição desses interesses, emergiu uma nova e absoluta maioria, forjada na afirmação de um caminho novo, diferente, desfasado dos trilhos austeritários do passado recente.

Ao longo deste processo, ainda em curso, e revolucionário apenas na novidade que representa, será necessário às partes definirem, aliás, clarificarem e esclarecerem, qual o caminho que pretendem trilhar. As diferenças não cessarão de emergir se a elas apenas se dedicarem os seus intervenientes, iludidos por aqueles que lhe anteveem – e lhe desejam – o fracasso. Por sobre as diferenças, urge fazer triunfar os pontos comuns. Importa respeitar compromissos internacionais e parcerias europeias estratégicas para o desenvolvimento, mas não ficar refém das imposições sancionatórias e restritivas de ação que vêm da Europa concêntrica e monocéfala; é essencial definir que o modelo de sociedade a (re)construir é, de uma vez por todas, de inclusão, que não deixa ninguém de fora nem para trás, seja por motivos de identidade de género, de sexo, de raça, de etnia, de nacionalidade, ou de condição económica; que, definido este modelo de sociedade, se procura alcançar o equilíbrio e a sustentabilidade do Estado que a regula; urge estabelecer que se garante que a escola pública voltará a ser o pilar elementar da eliminação total das desigualdades económicas e sociais, garantindo uma educação de excelência, melhor como as melhores do mundo; que aos hospitais acorrerão todos por igual, e que nesses hospitais serão tratados pelos melhores profissionais, nas melhores condições possíveis; assegurar que a justiça estará, já hoje, por ontem ser por demais tarde, à disposição de todos, e não apenas acessível a quem melhores recursos puder empenhar na defesa dos seus direitos; e é fundamental criar em Portugal, se assim entenderem os que por cá andam e por cá fazem a sua vida, um lugar de futuro, agora que precisa, também, de se tornar num lugar de retorno para os que de cá partiram.

Neste mês de outubro de 2015, sem messianismos ou ambições revolucionárias, que não todas aquelas que acompanham e formam os sonhos de um futuro melhor, outubro pode trazer o triunfo adiado da esquerda unida na governação de Portugal. E, pela primeira vez, enterrar definitivamente o espectro de medo instalado sobre o socialismo, elevando-o e conotando-o com os padrões a que sempre aspirou, de igualdade, justiça e liberdade. Que este triunfo seja, ao contrário dos agoiros que por ele pairam, a oportunidade dourada de construção de um verdadeiro estado social, protegendo aqueles que mais do estado necessitam e potenciando o desenvolvimento humano de todos aqueles que em Portugal depositarem o seu futuro. Que em outubro, o vermelho rubro possa voltar a ser sinónimo da verde esperança que o acompanha, desfraldados ambos que foram pela República.

apesar de você, amanhã vai ser (de novo) outro dia

hoje é dia da República. não de uma qualquer imaginária, mas da nossa, da portuguesa. hoje, pela terceira vez, não é feriado, forma simbólica de assinalar um dia histórico, determinante para a evolução e consolidação do nosso regime democrático - porque a República é, sobretudo, sobre democracia, renovação de mandatos e a sua legitimidade. hoje, pela primeira vez, o Presidente da República não comemora a República. mas, se outra prova fosse necessária, 105 anos depois, e mesmo apesar da negritude dos 48 anos de interrupção, as eleições de ontem demonstram a sua vivacidade. e que ela sobrevive aos golpes contra ela desferidos.

os resultados de ontem constituem o triunfo de uma visão de sociedade e de estado na qual não me revejo. um estado reduzido aos seus serviços mínimos, uma sociedade injusta e desigual. elegeu-se um governo que, à semelhança do que fez nos últimos quatro anos, continuará a destruir os mecanismos de proteção social, a tentar privatizar os últimos recursos económicos do Estado e a aumentar o fosso entre ricos e pobres, jovens e seniores, empregados e desempregados, os que ficaram e os que partiram, aparentemente, até, entre o norte e o sul. ontem, como há quatro anos, a vitória veio assente em falsas promessas, em mentiras, em ocultações. amanhã, como antes, saber-se-á o que foi escondido, mesmo com o rabo de fora.

com os resultados de ontem, a lição também fica para quem com ela quiser aprender. e há uma renovação no socialismo que é necessária fazer. recentrá-lo à esquerda. e não dividir para reinar. sobretudo não dividir para reinar.

com os resultados de ontem, o dia hoje amanheceu cinzento, metáfora sublime do porvir. mas, como diz o Chico Buarque, na música que tudo cura, "Hoje [ontem] você é quem manda | Falou, tá falado | Não tem discussão | A minha gente hoje anda | Falando de lado | E olhando pro chão, viu". felizmente, "Apesar de você | Amanhã há de ser | Outro dia | Você vai ter que ver | A manhã renascer | E esbanjar poesia | Como vai se explicar | Vendo o céu clarear | De repente, impunemente | Como vai abafar | Nosso coro a cantar | Na sua frente"

avante, camarada. amanhã há de ser outro dia.


Portuguese elections: isolated event or turning point for Europe?

My first collaboration with FEPS and the Queries Magazine, in the Millenial Progressive Dialogue Initiative. Full link here.

Next Sunday the Portuguese people will vote on what can be considered as one of the most disputed parliamentary elections of the last two decades. With abstention playing a major role, since figures have consistently increased from one election to the other, recent polls, as controversial as they have been, all seem to point to a large number of undecided voters.

This election could be just another unnoticed event in yet another austerity smashed Southern European country, with no real impact on the direction of EU policies. However, this election can be a decisive turnout point in the course of action of social democratic parties and policies. So, what is turning this regular and ordinary election into such an extraordinary event?

Austerity pack

Alongside with Greece, Portugal was one of the countries most hard-hit by the strong austerity measures imposed by the troika. Over the last four years, the Portuguese government has been extremely cooperative and willing to implement the measures that the IMF, the European Commission and the ECB have set as goals for the country. What is more, several statements by Portuguese government officials, including the Prime minister, have demonstrated a strange willingness to implement even harsher policies than those asked by the troika. However, an economic assessment of these measures after four years can show a country with a higher external and public debt, same deficit in 2014 as in 2011, and a repeated failure in achieving the set out goals of public expenditure and budget deficit. On a social level, Portugal has lost over 200.000 jobs, leading to roaring unemployment figures, particularly high among the young population, which in turn caused the Portuguese population to emigrate to levels higher than those estimated during the 1960’s, under the fascist regime and colonial war. Thus, the result of these elections will clearly indicate the acceptance or rejection of austerity measures, sending a strong message for Europe to hear.

What kind of state?

Never before as in these elections, two so very different visions of State have clashed. Over the last four years, the right-wing Government made several attempts to reduce the size of the State to its minimum: cuts on public expenditure, namely in education – which has cost the country a downfall in several of the OECD PISA indicators –, on the national healthcare system – increasing the waiting list for surgeries and everyday appointments in public hospitals or decreasing the number of nurses and doctors per patient, as well as the general time for recovery at the hospital –, and on social benefits – such as unemployment, pensions or sick leave. Adding to all of this, the average salary decreased, being now more than half of the European average, leaving Portugal with a lower average salary than Spain or Greece. In this election, the Socialist Party has clearly put emphasis on defining what kind of State we want for the future, hence setting another important discussion on a European level, and a decisive one for that matter. Will Brussels continue to promote a minimalistic State even it the majority of States oppose it? Is the minimum State model capable of promoting one of Europe’s biggest achievements after WWII, that is, the reduction of inequalities between the richer and the poorer?

The future of Europe & the future of social democracy

Which Europe do we want to build? More or less integration, which kind of powers shall the institutions have and on which level of transparency? What level of scope on a national level shall European decisions have and what kind of mechanisms can national states have during a crisis? Finally, what kind of cooperation and solidarity between States should there be? During this election, the Socialist Party has been insistently defending the utter need to reinforce the cooperation ties between States in order to increase the level of solidarity in the European Union. When facing the harshest economic crisis since the Great Depression, States cannot be let alone to face such a hardship. This is also what’s at stake next Sunday, in Portugal.

On Sunday, October 4th, when the first results come out, Portugal can be the gateway for a bigger change in Europe and hopefully a sign of hope for a more just and equal Europe. The spanish elections will follow soon, setting what can be a turning point in the direction of European policies towards Southern countries, with a fairer and more inclusive and cohesive Europe being in sight.

a história do não que é um sim

Saibam as pessoas que fazem a política entender a mensagem dos gregos

Publicado no P3 | 13 Julho 2015 | Link completo aqui

Não, isto não é um texto sobre a Grécia. É um texto sobre todos nós, que somos gregos de herança. Este passado que carregamos hoje como se de um fardo se tratasse, foi outrora berço e ideal de democracia e filosofia e política e Εὐρώπη (Europa). E esta Europa, ali nascida, ali construída, ali mitificada, cresceu apesar das veias abertas e ardentes que nela pulsaram durante séculos e séculos. Esta Europa, que foi fratricida por mais de dois milénios, ergueu-se das cinzas e enterrou as diferenças para se unificar no que de mais encontrou em comum. Desses pontos comuns sobressaíram, que nem fénix, a democracia, a paz e uma identidade suficientemente forte para levar à construção do mais ambicioso projeto político jamais tentado neste nosso continente.

Hoje, na pressa mediática, na pressão constante do acontecimento que não alcança relevância suficiente para sequer se transformar na espuma dos dias, vemos as imagens que nos chegam dessa capital original da Europa, empoladas pelos comentários redutoramente maniqueístas, das filas de pessoas que aguardam um sinal que não seja o que tem marcado as suas vidas recentes. Esperam pela esperança, numa redundância que tem tanto de literal quanto tem pouco de realidade, porque a esperança tarda em aparecer.

Os sinais dessa Europa real, pautada pelo inevitável, pela retórica da ausência de alternativas, têm continuamente empurrado a Grécia para a parede mais funda de uma Caverna escura, onde a pouca luz que parece lá entrar, apenas reflete o mais horrendo dos passados que, mais que esquecer, todos pensávamos ter ultrapassado.

Para fazer frente a esse passado de cruzes entrelaçadas em fundos vermelhos que ameaça invadir o presente, e para construir o seu futuro sob os auspícios de uma luz de esperança, a Grécia rompeu com as ameaças, mesmo as mais altas e graves e profundas, e refundou-se no que de mais belo pôde um dia inventar. Acossada por vozes autoritárias, revestidas da enorme sapiência dos cargos que autocraticamente julgam exercer, a Grécia recorreu à Democracia e deu ao seu povo a hipótese de decidir o seu destino. A mensagem clara, que ecoou retumbante sobre a acrópole europeia, fez tremer as heras que parecem insistir em trepar sobre as fundações democráticas desta União. A mensagem, inequivocamente política, disse-nos que não é na ida e vinda do chicote que folgam as costas; é na solidez da fibra de quem sabe que o tempo é o pai de todos os deuses e que os deuses só protegem os audazes.

Os gregos, audazes, disseram-nos que a política são as pessoas. Saibam as pessoas que fazem a política entender a mensagem dos gregos. Se a austeridade nos tirou o chão onde julgávamos assentar, se nos levou a riqueza que mais estimámos porque resultou do nosso suor, se nos fez voltar costas aos nossos irmãos europeus e nos deu a conhecer a pior face da desconfiança e da xenofobia, aproveitemos a fibra helénica para não deixarmos que nos retirem aquilo que, ainda há bem pouco tempo lográmos recuperar. Não deixemos que a austeridade nos roube a democracia e a liberdade. Não deixemos que a austeridade nos retire Abril.

PS: este artigo foi escrito ao abrigo do acordo ortográfico de 1.100 a.C., sem o qual nunca teria sido possível utilizar uma parte considerável do vocabulário aqui vertido. Assim o saibamos preservar.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

a vida acima das nossas possibilidades

o primeiro sem aspas. o texto que escrevi, fresquinho e acabadinho de sair no P3. Aqui.

O discurso já o sabemos de cor: andámos a viver acima das nossas possibilidades. Gastámos, consumimos, exagerámos. Fizemos e acontecemos, irresponsáveis que fomos e insistimos em ser. De repente, quando demos por nós, a vida subiu na vida e pôs-se a viver acima das nossas possibilidades.

A narrativa construída encaixou que nem uma luva na Europa pós-crise do virar da década. Poupar, desinvestir, cortar, retirar, reestruturar, reorganizar, diminuir, tudo no mesmo sentido diminutivo do Estado. O Estado estava gordo, obeso, e agora tinha de fazer dieta. A prescrição médica surgiu simples, clara, de fácil compreensão: há que cortar nas gorduras. Não há outra solução, que não há dinheiro.

Dos lugares comuns mais clássicos que surgiram, emergiu o da crise e da oportunidade, originado num qualquer caracter chinês: tem sempre dois lados, e em cada crise há uma oportunidade e é preciso saber aproveitar e estar atento e tirar proveito, etc. Sem grandes chavões, e de forma bem mais sustentada que uma partilha de Facebook de autor indeterminado, Milton Friedman estruturou bem o seu pensamento no que diz respeito às oportunidades que emergem das crises. Friedman percebeu, bem cedo, que nos momentos de crise — sejam elas fruto de catástrofes naturais, como o tsunami no Sudeste Asiático, ou de uma queda de regime político, como o fim da URSS, ou na sequência de uma “guerra contra o terrorismo”, como a dos EUA pós-2001, ou, ainda, de cariz económico, como a que vivemos em 1929 e em 2008 —a generalidade da população, por se encontrar num estado de choque, está mais permeável a aceitar transformações radicais na sociedade, mesmo aquelas que a desestruturam e causam rupturas na sua unidade.

Foi assim que, enquanto ainda nos tentávamos recuperar do choque da crise e a tentávamos entender — o “sub-prime”, a especulação financeira, a falência de bancos e seguradoras, os “bailout” —, levámos com os novos mantras daquele mesmo mercado que tinha provocado a crise: esta crise não é minha, é vossa, que viveram acima das vossas possibilidades e, por isso, agora precisamos de austeridade. E a austeridade cumpriu-se: cortou-se na saúde, na educação, na justiça. Diminuíram-se as prestações sociais no apoio ao desemprego, nos abonos de família, nos rendimentos mínimos. Aumentaram-se os impostos, os do rendimento e os do consumo. E vendeu-se quase tudo do que restava, privatizando-se tudo, menos aquilo que pediu Saramago.

Depois disto tudo, gorados os objectivos iniciais propostos de consolidação orçamental, das contas públicas e da dívida pública, já mais despertos e atentos, olhámos em volta e vimos um fosso - um ainda maior do que aquele que existia – entre os mais ricos e os mais pobres. E nós, que vivemos acima das nossas possibilidades, desprovidos do que tínhamos, sem nada de novo termos recebido, demo-nos conta de que tentamos, agora, viver uma vida que está muito acima daquilo que podemos suportar. Até quando?

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Futuro de uma década


António Costa ganhou. Encerra-se um ciclo longo, de três anos, e começa, verdadeiramente, a mudança que, curiosamente, era pedida por quem era continuidade. Com este resultado, António Costa adquire a legitimidade exigida para começar - continuar - a trabalhar para enfrentar os desafios que o país necessita que sejam enfrentados. Estamos a caminho do quarto ano desta corrida desenfreada ao desmantelamento do Estado Social e a sua reconstrução - a sua concepção renovada com base nos tempos que correm - exigirá pelo menos uma década, se não mais. A confiança que lhe é depositada hoje pelos milhares - muitos milhares - de militantes e simpatizantes do PS deriva do reconhecimento inequívoco das capacidades que já deu prova possuir.
Mas, depois do dia de hoje, da massiva afluência às urnas, António Costa tem um desafio que se sobrepõe a todos os outros. Num momento de grande descrença nos partidos, na “política em geral” (seja lá que descrença for essa), a mobilização dos portugueses nesta eleição, a sua participação e adesão a esta iniciativa pioneira - pelo menos a esta escala - em Portugal, implica uma grande capacidade de compromisso com a causa mais nobre da política: a defesa do bem comum. É com esse desígnio que António Costa terá, agora, de continuar a unir o partido e a mobilizar Portugal! Ao trabalho!

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Terra de Barreirenses ou da carolice

40 anos de democracia que passaram por esta nossa terra e o Barreiro continua a ser terra de barreirenses. Perdoem-me esta redundância, evidentemente La Paliceana. Explico. Sempre fomos de duas margens, fragmentados pelo Tejo que só não é mais belo que o rio que corre na nossa aldeia porque é o rio que corre na nossa aldeia. Cidadãos pendulares, acostumados ao ir e vir balançado, ondulado, que nos leva muito para além da capital. Temos sangue alentejano, algarvio, beirão, alfacinha, suburbano, e mais um pouco daqui e dali.

É com carolice que olhamos para esta nossa terra e que nos entristecemos com cada partida; sabemos de cor os nomes de quem deixou o Barreiro e compõem o número redondo de dez mil habitantes que, daqui, já não o são. É por carolice que lutamos pelo sonho que nos disseram ser esta terra, porque o futuro foi sendo sempre adiado. Da cidade industrial que morreu, sem mitos de fénix, podia ter nascido uma outra, de olhos postos no rio, explorando a frente ribeirinha, a valer-se da inovação e criatividade das suas gentes, assente no desenvolvimento económico através da reconversão do antigo tecido fabril, a recuperar o património edificado do centro histórico da cidade ao invés da desenfreada construção “nova” que promoveu, apostando, também, na sua vida nocturna, marco tão importante na nossa memória colectiva.

Ano após ano, as oportunidades parecem fugir-nos por entre os dedos, por entre os apontamentos fugazes que nos enchem mais o ego que a esperança. Por carolice, no Barreiro, os barreirenses continuam a imperar contra a lógica reinante. Abrem novos negócios, dinamizam o espaço público, criam associações culturais e desportivas, novos festivais. Não se conformam. O Barreiro continua a ser terra de barreirenses. Dos que o sempre foram, dos que continuam a ser, dos que saíram sem nunca ter deixado de o ser e dos que um dia o serão. O Barreiro será sempre a nossa terra, mesmo quando a contemplamos do outro lado. E por carolice, como bons barreirenses que somos, dela faremos terra de sonho e de futuro.

sábado, 28 de junho de 2014

os dias normais da história

28 de abril de 1974. não havia dias normais, naqueles que se seguiram ao dia inicial inteiro e limpo. 28 de abril de 1974. de entre os dias especiais aquele sê-lo-ia um pouco mais do que os outros. Mário Soares chega a Santa Apolónia trazendo consigo de Bad Münstereifel o Partido Socialista. se Soares não tivesse chegado naquele dia, o 28 de Abril teria sido sempre um dia especial. assim, foi um dia histórico. a pedido do General Spínola, Soares torna-se Ministro dos Negócios Estrangeiros com vista ao reconhecimento do novo regime português junto da comunidade internacional. já se sabe, vem nos livros, o poder só o é quando é reconhecido como tal e tem capacidade para ser usado.

25 de abril de 1975. os dias haviam seguido especiais, em busca da normalidade. 25 de abril de 1975. um ano volvido e um dia que, para além de especial, era também histórico. era o primeiro ano, quão mais histórico poderia ser? quando as urnas fecharam, naquele dia especial e histórico e das primeiras eleições democráticas após 48 anos de obscurantismo, o Partido Socialista, que Soares havia trazido para Portugal um ano antes, tinha obtido 37,9% dos votos e eleito 116 deputados para a Assembleia Constituinte.

2 de abril e 25 de abril de 1976. os dias normalizavam-se por estes lados, numa sucessão de dias especiais. 2 de abril e 25 de abril de 1976. a Assembleia aprova a Constituição da República Portuguesa para que ela entrasse em vigor no segundo aniversário da Revolução. dias históricos, impressos na memória de uma nação que refloresceu na primavera, como os cravos fazem todos os anos. os dias seguiram normais, ou normalizaram-se.

ao longo destes anos, Portugal procurou encontrar-se com a democracia e o PS afirmou-se determinante nesta reconstrução democrática do país. por seu lado, no interior do Partido Socialista, o seu líder e fundador desempenhou sempre um papel activo de orientação ideológica e política, quer das várias lideranças - mesmo daquelas que dele se afastaram e lhe disputaram o espaço interno - quer dos militantes de base. não esteve sempre certo, como ninguém está sempre; não foi sempre consensual ou unânime, como não podem ser os homens que defendem as suas convicções; tão pouco foi sempre conveniente às diversas lideranças do partido, como não se esperava que fosse.

31 de maio de 2014. no Vimeiro, perante um partido dividido, com análises diferentes dos resultados eleitorais da semana anterior, que inferiam de análises diferentes do trabalho político de António José Seguro enquanto líder, um dia normal transforma-se num dia especial. 31 de maio de 2014. um dia normal dos muitos normais que fazem parte da vida democrática de um país, de um partido democrático, deixou de o ser. no dia anterior, Mário Soares, líder e fundador do PS, havia declarado o seu apoio a um dos candidatos à liderança do partido e considerado inevitável a convocação de um congresso extraordinário, com as respectivas eleições directas para o cargo de Secretário Geral. no dia 31 de maio de 2014, no Vimeiro, um dia mais que normal, quase banal de tão normalzinho, tornou-se um dia histórico. ignorando o passado e a tradição do partido, a actual liderança lançou o partido num enredo kafkiano e todos nós nos transformámos em Josef K. o processo começou torto e já não se vai endireitar. primeiro, tinha de ser a comissão nacional ou a maioria das federações a lançarem o processo de convocatória do congresso extraordinário e de eleições directas, já que o SG continuava seguro. depois, afinal, os estatutos, que foram alterados à margem dos próprios estatutos, num outro qualquer dia que devia ter sido normal e não foi, deixaram de dizer o que lá diziam. e aquilo que lá não dizia - melhor, aquilo que lá não podia constar por ser contra os próprios estatutos - foi aprovado como se assim tivesse sido sempre. e quem devia ter salvaguardado o partido - a sua presidente - e os estatutos - a Comissão Nacional de Jurisdição - decidiu reservar o seu lugar na história e validar aquilo que não tinha cabimento de qualquer tipo ou natureza - política, estatutária ou, até mesmo, do velho bom senso. a 31 de maio de 2014, o jogo estava a decorrer e alteraram-se as regras. pior, anunciou-se que as regras iam mudar mas que era uma das equipas que ia fazer as novas regras.

31 de maio de 2014. nesse dia que deixara de ser normal, enquanto as regras mudavam, transformava-se, também, a tradição e o respeito democrático interno no Partido Socialista. enquanto se pretendia tornar ilegítima a divergência de opiniões, choviam insinuações sobre o estado mental de Soares. Soares discordava, mais uma vez, de uma liderança do PS e manifestava-o, alertando para aqueles que considerava serem os perigos institucionais que encerrava a não convocação de eleições e do congresso, bem como a desorientação que considerava ver na actual liderança de Seguro. a 31 de maio de 2014, Soares e os militantes do PS foram desconsiderados, não com base em argumentos políticos, mas com alegações de senilidade e de maquiavelismo. no dia 31 de maio de 2014, a normalidade não imperou e aquele dia tornou-se especial. o dia 31 de maio de 2014 tornou-se especial porque entrou para a história como o dia em que se tentou eliminar o normal funcionamento institucional e democrático do PS.

como os dias não terminam e a história não pára, o dia 28 de setembro de 2014 já não pode ser um dia normal. o dia 28 de setembro, que ia ser um dia normalzinho e banal, vai ter de ser um dia especial. façamo-lo entrar na história.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

do pensamento único

as palavras são facilmente manipuláveis e deturpadas. acrescenta-se "nacional" a "socialismo" e ele deixa de o ser. junta-se "centralismo" a "democrático" e ele perde a sua essência. o PS sempre foi Socialista e Democrático. e, dentro do PS, sempre houve espaço para divergência de opiniões, fossem elas quanto ao rumo do partido, ao seu posicionamento ideológico, às decisões governamentais, à decisão sobre coligações eleitorais ou ao apoio a candidatos presidenciais e até mesmo quanto às lideranças do partido. as divergências de opinião sempre fortaleceram o PS, não só fazendo emergir as melhores lideranças, como também as melhores ideias. reduzir as divergências a uma divisão maniqueísta dos bons contra os maus, em que quem discorda só pode querer prejudicar o partido, é aceitável apenas em partidos que, há muito, manipularam a palavra "democrático". se Isabel Moreira, ou Soares, ou eu, não necessariamente por esta ordem de grandeza, enquanto militantes do PS, partido socialista e democrático, quisermos manifestar a nossa opinião sobre quem pode ser o melhor candidato do PS às eleições presidenciais, podemos fazê-lo. sempre pudemos. espero que o possamos continuar a fazer. eu, Barreirense de criação e crescimento, familiarizado com o soviete vermelho da Margem Sul, levo anos de prática no reconhecimento da manipulação das palavras; e se parece centralismo democrático, cheira a centralismo democrático e sabe a centralismo democrático, então é porque é centralismo democrático. deixem as palavras em paz.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Isto é uma análise às eleições europeias

As eleições europeias de domingo foram o culminar dum processo lento de emergência das forças de extrema-direita na Europa que demorou várias décadas até alcançar o êxito triunfal que os eleitores lhes conferiram. Mas esta vitória não teria sido possível sem Maastricht, sem Durão Barroso, sem o Tratado Orçamental e sem o fim da história.

A derrota de PPD e PP – juntos na Aliança por todos nós, porque é por nós que eles têm andado a trabalhar, não é? –, mais a vitória do Marinho – em coligação com o Manuel Luís e com a Cristina –, para além da vitória do PCP – em coligação com o camarada Brejnev – e a queda do BE já foram bastante esmiuçadas. Os partidos do governo saem penalizados pelas políticas austericidas que implementaram, o Marinho é o Marinho e o PCP é o PCP e o BE pagou a continuação da estratégia de Louçã de sovietização do partido,e a sua saída tardia da coordenação do mesmo. Lá por fora, na Europa – que nós por cá continuamos a não fazer muito parte da Europa – triunfaram as forças do mal, não imperialistas como no filme de George Lucas, mas sim cessacionistas, como naquele filme muito famoso dos anos 90 filmado na ex-Jugoslávia. Diz-se, aliás, que quando quiseram fazer o remake deste clássico dos anos 90, na seleção do novo casting, Durão Barroso e companhia valorizaram muito a experiência dosatores e foram escolher os que já tinham participado em filmes alemães de meados da década de 30. É uma nova era na cinematografia europeia, um neo-realismo pós-moderno que é tão moderno que é antigo.

Fim de parêntesis metafórico, que falta falar, ainda, dos grandes e retumbantes vencedores da noite, em Portugal: o PS e a abstenção. Os resultados de um e de outro indiciam aquilo que à partida, entre si, pouca relação teria. A elevada abstenção – em Portugal e no resto da Europa – reflete o total desinteresse dos cidadãos pela participação ativa na vida política mas, acima de tudo, o desfasamento completo entre osatuais partidos e os eleitores. E é aqui que entra a vitória do PS, uma vitória que não deixa confiança suficiente nos eleitores nem nos militantes para garantir que o partido está preparado para governar daqui a um ano. E esta é, a nível nacional, a análise mais importante a fazer.

Depois de 3 anos de violência doméstica – batemos-te, Zé Povinho, mas é para o teu bem, que tu ficas cheio de nódoas negras mas o ambiente cá em casa fica melhor –, em que a casa nem sequer se pode dizer que tenha ficado arrumada, o PS contenta-se em arrecadar mais um eurodeputado do que há cinco anos e ter uma vitória que mal chega aos 4% de diferença para os partidos que sustentam Passos e Portas. De que deriva esta vitória curta? De várias combinações trágicas. Em primeiro lugar, da descaracterização ideológica do partido. Que pretendemos ser, em 2014, quando pretendemos ser socialistas(se é isso que efetivamente somos…)? Pretendermos ser tudo e o seu contrário coloca-nos perante contradições – ideológicas e de atuação – que nos impossibilitam uma postura coerente e decidida nas principais questões de tomada de decisão pública. Urge abandonar a terceira via e repensar os princípios orientadores de ação do partido para o futuro. Num momento de triunfo das forças de extrema-direita, anti-europeístas e xenófobas, os partidos socialistas e sociais-democratas têm de reafirmar a sua posição firmemente esquerdista. Em segundo lugar, a proximidade com os cidadãos. Transformar as campanhas eleitorais em momentos mediáticos e unidirecionais – dos candidatos para o público e sem vice-versa – menorizam o espaço de participação e interação que, com toda a naturalidade, os eleitores reclamam – não é esta a geração mais bem preparada de sempre e não sei o quê? Para além da falta de interação que existe, reflexo da indisponibilidade permanente de auscultaçãodireta aos cidadãos por parte de quem é eleito, no período que intermedeia os ciclos eleitorais, esta “proximidade” com os eleitores tende a esvaziar-se no momento após a eleição e a só se repetir na eleição seguinte. Em terceiro lugar, a militância e a atividade partidária. A redução considerável de militantesque os partidos políticos registaram em Portugal desde 1974/75 até aos dias de hoje, faz com que deles se tenha afastado uma considerável parte da elite intelectual nacional e, consequentemente, a prática primordial dos partidos de fomentarem o debate e a discussão no seu interior. Isto provoca, no limite, a que os partidos se vejam hoje desprovidos de massa crítica suficiente para desenvolver uma militância ativa, que tenha no serviço da causa pública o principal objectivo de ação. E, por último, a liderança. Parece indissociável da falta de confiança depositada no PS nestas últimas eleições pelos cidadãos, a liderança atual do partido, ou a falta dela. A incapacidade de compreender a ligação com os cidadãos, com os movimentos organizados ou desorganizados de cidadãos, de congregar à sua volta outras forças de esquerda – o Livre não podia ser livre dentro do PS?– e de se apresentar como uma alternativa de governo viável,com capacidade de governar o país durante os quatro anos dalegislatura – e isto significa demonstrar inequivocamente que o que pretende para o país é radicalmente diferente daquilo que o país conheceu nos últimos 3 anos –, minam por completo a “confiança na mudança” que se pretende transmitir.

A recusa em entender estes fenómenos poderá condenar o país a um período de instabilidade governativa - e o partido a um afastamento ainda maior dos eleitores, semelhante ao do PASOK e do PS Francês. Há não muito tempo, quando se perspectivava que pudesse ser candidato á liderança do PSF, Manuel Vals afirmava a necessidade do partido mudar a sua identidade para se ver livre do fardo do seu passado e história socialista. Após estas eleições, que deram a vitória à Frente Nacional dos Le Pen, Hollande, em mais uma demonstração profunda de socialismo – francês, além de tudo – decidiu manifestar a sua incompreensão da Europa e afirmar que a UE deve retirar a sua presença dos sectores onde não é necessária. Previsível, o presidente francês responde aos ensejos nacionalistas e xenófobos dos que votaram na extrema-direita com menos europeísmo e menos socialismo. Esta quinta-feira, o Livre organiza um evento para discussão dos resultados eleitorais aberto aos seus membros, apoiantes, ou a quem quiser lá aparecer. Querem saber a opinião de quem acompanhou o processo de campanha, quais as suas expectativas, e o caminho a ser seguido no futuro. No domingo, no Altis, a vitória começou histórica e acabou amarela no sorriso, mas a tónica dominante foi a ausência de ilações e nova incapacidade de percepção do rumo de mudança que o PS tem de seguir: a mudança de si próprio.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

os partidos e o futuro

Grécia, Junho de 2009, eleições europeias: PASOK ganha com 43,92% dos votos. Grécia, Maio de 2012, eleições legislativas: PASOK é a terceira força política, com 13,18% dos votos. Grécia, Fevereiro de 2014, sondagens para as eleições europeias: PASOK espera ter entre 5 e 7% dos votos. O acordo formulado entre o PASOK e o partido Nova Democracia para a formação do Governo em 2012, ainda que fundamental para a sua viabilização, descredibilizou o partido aos olhos do eleitorado, e atirou-o para uma posição eleitoral de difícil recuperação. Para agravar a situação, já de si frágil, do partido, a Iniciativa dos 58, um movimento de intelectuais e académicos ligados ao PASOK e que o abandonaram, deixou o partido ainda mais desprovido das suas principais figuras e ferido de parte da importante massa intelectual que tinha no seu seio. Pelo meio, um novo partido emergiu, a Aurora Dourada, de inspiração neo-nazi. Esta realidade, que baralhou por completo as contas eleitorais no país e que se apresentou como a tentativa de capitalização do descontentamento popular com a actuação das instituições que compõem a Troika - que deixaram o país num estado de emergência social - foi, também, fruto do afastamento dos dois tradicionais partidos gregos, e da alienação que ambos manifestaram relativamente ao seu eleitorado.

O fenómeno de emergência de novos partidos de extrema-direita - e, nalguns países, de partidos de extrema-esquerda - tem sido assente, de um modo ou de outro, em princípios semelhantes: anti-europeísmo, xenofobia, racismo, ultra-conservadorismo social e defesa de um modelo neo-liberal na economia. Alimentando-se da crise europeia, do descontentamento com as respostas europeias - e nacionais - a essa crise, do agravamento das situações de desigualdade, com o aumento do desemprego e do afastamento dos cidadãos dos partidos tradicionais, partidos como a Aurora Dourada (Grécia), o UKIP (Reino Unido), a Front Nationale (França), o Freedom Party (Áustria) ou o Party for Freedom (Holanda) têm crescido nas intenções de voto e ganho espaço mediático, tornando imprevisível o resultado final destas forças políticas nas próximas eleições europeias. A composição do novo Parlamento Europeu pós-Maio de 2014 trará, certamente, uma alteração profunda na retórica política, e a confrontação com a necessidade de alcançar compromissos com forças que operavam, até recentemente, fora do sistema, forçando a deriva da Europa para terrenos por onde há muitas décadas não navegava. Os sinais apresentam-se com clareza e indiciam o afastamento progressivo dos cidadãos dos partidos; só as respostas parecem tardar.

Num estudo de Setembro de 2011 - Sindicalização: a vida por detrás das Estatísticas - Henrique Carvalho de Sousa apresentava a evolução da taxa de sindicalização em vários países europeus e nos Estados Unidos da América, de 1978 a 2010. A tendência é clara, embora com várias oscilações e com maior ou menor acentuação: todos os países no estudo apresentaram uma diminuição do número de pessoas sindicalizadas*. Em Portugal, a queda é das mais acentuadas: em 1978 a taxa de sindicalização em Portugal era de 60,8%; em 2010 era de 19,3%. Durante vários anos, os sinais repetiram-se e o decréscimo foi progressivo, mas as estruturas sindicais poucas alterações sofreram na sua organização interna e pouco acompanhamento souberam aportar às novas condições laborais da sociedade portuguesa. Perante o desfasamento dos sindicatos das expectativas dos trabalhadores, e face a uma nova realidade que inclui falsos recibos verdes, contratos renováveis bi-semanalmente ou mensalmente, o aumento da precarização, e com o aparecimento de mais e mais trabalhos não remunerados, surgiram associações que procuraram defender os interesses de quem se encontrava nestas situações, como são o caso dos Precários Inflexíveis e do FERVE (Fartas/os d'Estes Recibos Verdes), que acabariam por se fundir no final de 2012. Progressivamente, pese embora não se possa considerar que estas associações tenham substituído os sindicatos, nem tão pouco se assumam como estruturas desse tipo, a verdade é que foram ganhando preponderância na protecção e apoio aos trabalhadores que se viam confrontados com a nova realidade laboral, e que frequentemente a estas recorrem na procura de funções que, tradicionalmente, eram desempenhadas em exclusivo pelos sindicatos.

Com os partidos políticos em Portugal, a situação é semelhante. Desde meados da década de 1980 que os partidos têm progressivamente perdido militantes e não têm sido poucos os sinais que demonstram o afastamento dos cidadãos da participação na vida partidária ou mesmo eleitoral. O aumento contínuo da taxa de abstenção eleitoral, dos votos nulos e dos votos brancos revelam um descontentamento crescente do eleitorado relativamente aos partidos actuais e indicam uma maior alienação da participação política a nível nacional. É desta realidade que resulta a necessidade dos partidos políticos encontrarem a solução para a sua reforma. Modelos que assentem num endémico modelo de recrutamento apressado de militantes, na manutenção da opacidade das decisões internas - sejam elas estatutárias ou de nomeação de candidatos a eleições -, que não contemplem a participação externa dos cidadãos na vida interna dos partidos, que insistam na ruptura dos programas eleitorais e que não assentem numa visão de continuidade para o país poderão representar o cavar de uma maior fissura entre as estruturas partidárias e os cidadãos. A representatividade, a abrangência e a transparência devem ser elementos estruturantes e transversais aos partidos, sobretudo tendo em vista uma maior abertura a tentativas de renovação democrática e reestruturação orgânica. Acresce a estes factores o posicionamento ideológico dos partidos. É apenas natural que os partidos sejam estruturas evolutivas, que acompanhem o desenvolvimento das sociedades e que adaptem as suas estruturas às necessidades que se apresentam ao longo dos anos. Contudo, a ideia que procurou prevalecer no imediato pós-guerra fria, de fim da história e de fim da ideologia, de triunfo absoluto de um só modelo social, económico e político, não encontrou eco nas reais aspirações dos indivíduos nem permitiu aos partidos, transfigurados ideologicamente, corresponder às expectativas dos seus eleitores. Nos partidos de esquerda, sobretudo socialistas e sociais-democratas, a crise ideológica foi particularmente sentida e atingiu-os com maior profundidade a partir dos anos 1990, com o triunfo da Terceira Via de Giddens, incorporada no New Labour inglês de Blair, no SPD de Schroeder e no Democratic Party de Clinton. A incursão destes partidos na adopção de práticas e modelos capitalistas de governo, numa tentativa de misturar a social-democracia europeia com o modelo liberal instaurado por Reagan e Thatcher uma década antes, arrastou estes partidos, e muitos dos seus congéneres europeus, para o centro do espectro político-ideológico e levou a que, na percepção dos seus eleitorados tradicionais, se tivessem diluído as fronteiras entre a esquerda e a direita, em particular o centro-esquerda e o centro-direita.

A crise que eclodiu em 2008 e que fez implodir o sistema financeiro mundial, atingindo de forma brutal a Europa e a sua incompleta União Económica e Monetária, foi resultado da especulação e da desregulação dos mercados, corolário da implementação das teorias Hayekianas e Friedmanianas e seus discípulos, das famosas Escolas Austríacas e de Chicago; foi fruto do abandono do modelo social europeu, que havia saído da II Guerra Mundial, tal como idealizado por Keynes. Perante este quadro, após a profunda crise que atravessamos e no momento em que vivemos actualmente, procurar (re)formar ou (re)construir os partidos políticos, considerando que a ideologia pode ocupar um lugar de somenos importância na sua definição identitária, pode constituir um erro crasso na tentativa - assim haja essa vontade - de aproximação aos eleitores. Urge (re)pensar os partidos de forma a que estes: a) sejam mais abertos à participação da sociedade civil; b) retomem a centralidade do espaço de debate político público; c) eliminem as suas práticas menos transparentes, quer na sua actividade interior quer na apropriação dos aparelhos do Estado, através da selecção pouco clara dos representantes eleitos e não eleitos para cargos de responsabilidade política; d) apresentem uma linha coerente de acção política e uma definição ideológica demarcada - não estática - que corresponda às matrizes originais da sua formação e que estão na base da ligação identitária dos eleitores com os partidos.

O preço a pagar pela ignorância voluntária dos sinais que se apresentam está à vista e a sua primeira amostra ocorrerá já no próximo dia 25 de Maio. Os partidos representaram, e continuam a representar, o local por excelência para a prática da actividade política; não obstante, os últimos anos têm demonstrado que estão longe de serem os únicos actores políticos na vida social e movimentos como o Que se Lixe a Troika, saídos da manifestação de 15 de Setembro de 2012, têm desempenhado um papel activo na vida política nacional. Será a sua capacidade de adaptação e transformação - que não representa um retorno ao passado, mas sim o assumir de novas valências, competências e formas de praxis política, de adopção de comportamentos éticos e dum compromisso inequívoco com a res publica - que permitirá aos partidos impedir a sua extinção perante aquela que aparenta ser, já, uma preocupante obsolescência.


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* Casos como a Bélgica, a Suécia, a Dinamarca e a Finlândia - a Noruega apresenta números muito estáveis ao longo dos anos - registaram quedas muito ligeiras, pouco significativas, e registaram um grande aumento da taxa de sindicalização ao longo das décadas de 1980 e 1990, tendo a descida ocorrido somente a partir dos anos 2000.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

sobre coisas que é preciso entender

The Shock Doctrine - um documentário realizado por Mat Whitecross e Michael Winterbottom, com base na obra homónima de Naomi Klein.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

em jeito de balanço

Intervenção no XVIII Congresso Nacional da JS
2, 3 e 4 de Novembro 2012 - Pavilhão do Inatel, Viseu

Caras e caros camaradas,

Há dois anos atrás, na nossa Lisboa, sentado numa cadeira parecida com aquelas onde hoje estamos sentados, recordo-me bem dos discursos emocionados de dezenas de camaradas que, cada um e cada uma à sua maneira, connosco partilharam. Eram relatos sinceros que nos transmitiam com orgulho as experiências vividas ao lado do Duarte; relatos de um tempo que a todos honrou. Dois anos volvidos, encontro-me eu na circunstância de ter mais histórias que tempo para as contar.

Não só porque o tempo é escasso, mas sobretudo porque essas histórias, mais que a ninguém, a mim me servem de referência, não me cabe hoje, nem aqui, partilhá-las. Para o Pedro, segue o meu mais profundo agradecimento: o agradecimento pelo prazer de uma amizade que tanto prezo e estimo, o agradecimento pela camaradagem e pela luta sempre na primeira linha (que ele nem consegue fazer de outra forma) e, acima de tudo, o agradecimento por me ter feito sempre, em todas as circunstâncias, sentir um tremendo orgulho por pertencer à maior organização política de juventude em Portugal, a Juventude Socialista.

Mas, se as histórias não as posso partilhar por virtude do tempo, outras coisas há que não posso guardar para mim, por achar que a todos pertencem.

No final destes dois anos, é minha convicção, a JS sai mais forte e mais prestigiada por ter tido o Pedro como Secretário-Geral. Continuámos na vanguarda da luta pelas causas estruturantes, por aquilo que naturalmente devia estar consagrado: a igualdade entre todas e todos, sem descriminação de raça, género, religião ou orientação sexual. Nas questões fundamentais para todos nós, lutámos pela melhoria da escola pública, defendemos os nossos ideais ao defendermos Novas Oportunidades, ao pugnarmos por melhores recintos escolares, ao combatermos o abandono escolar, o fim dos passes sociais e das bolsas escolares. Na Assembleia da República fomos voz ativa na apresentação de propostas alternativas de crescimento económico que, através de investimento público, permitiria combater o flagelo do desemprego e criar inúmeros postos de trabalho.

Caras e caros camaradas, muito me orgulha que não tenhamos estado sozinhos nesta visão nem na nossa luta. Desde o primeiro dia que o Pedro deixou bem claro que nunca triunfaríamos sozinhos, que esta luta era transnacional, que ultrapassava as nossas fronteiras e se travava em conjunto com todos os nossos camaradas europeus e de todo o mundo, uma luta verdadeiramente internacional e verdadeiramente socialista. E, neste ponto, permitam-me que saliente, com mais veemência que a força da amizade que nos une, o papel desempenhado pela Mafalda Serrasqueiro na coordenação das Relações Internacionais. Foram a coragem, a determinação e a lucidez dela que permitiram que, em todos os fóruns internacionais onde estamos representados, tenhamos tido um papel decisivo e uma representação condigna, na defesa intransigente dos nossos valores e ideais. Daqui a minha vénia e a certeza que não podia ter tido melhor chefe!

Fugindo muito brevemente ao ponto, Sr. Presidente, se me é permitido, e porque esta será a minha única intervenção, não deixar de referir, igualmente, o meu camarada e amigo, João Torres. A minha convicção mantém-se inabalável de que és a escolha acertada para liderar a JS e, levando-a por rumos necessariamente diferentes e por todos os militantes sufragados, continuar o excelente trabalho dos últimos anos. Muita força e coragem é tudo o que te desejo, juntamente com as maiores felicidades que, a serem tuas, serão também de todos nós.

Termino, caras e caros camaradas, saudando-vos fraternalmente, e deixando um apontamento que, não tendo sido preocupação na elaboração deste texto, não deixou de ser curioso: a ausência da palavra crise!

Que se lixe a crise, para que viva Portugal!
Viva a República,
Viva a JS!

terça-feira, 26 de junho de 2012

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Naturalmente que apoio!

*declaração de apoio à candidatura de Madalena Alves Pereira à Federação Distrital de Setúbal do PS

É sempre bom questionarmos o porquê das coisas; é sempre necessário irmos à raiz das nossas escolhas. “Porquê a Madalena?” foi uma questão que me surgiu tão naturalmente quanto a sucessão de respostas que lhe advieram. Tive, e tenho, o privilégio de conviver com a Madalena nesta terra barreirense que a ambos formou e viu crescer. Tive, e tenho, o privilégio de lutar politicamente, todos os dias, ao lado dela por uma convicção irredutível na força dos ideais que nos ligam e nos unem.

Foi, precisamente, por causa desta convivência que pude descobrir tão facilmente a minha primeira resposta, a minha primeira razão: sim, fazer política com a Madalena é caminhar ao lado dela. É ser constantemente desafiado a fazer mais e melhor; a ver, em cada momento, como é a primeira a dar o exemplo e a estar na linha da frente.

Depois compreendi a segunda razão: a dedicação e abnegação à causa pública. A Madalena é republicana, democrata e socialista todos os dias, em tudo o que faz na vida e na política. É real e efetivamente militante, servindo sempre o que considera ser o interesse geral e nunca se servindo daquilo que é de todos.

A Madalena é, profissional e politicamente, uma pessoa extremamente competente e rigorosa. Demonstrou, ou melhor, tem demonstrado de forma sistemática como sabe compreender e enfrentar os principais problemas que enfrentamos enquanto comunidade, sem nunca descurar os pequenos pormenores que marcam, diariamente, a vida de todos nós.

Estas são as minhas razões, foram as minhas respostas. Tantas outras existem, sei-o bem. A competência política faz dela um dos melhores quadros que o nosso distrito tem; a honra, a dignidade, a justiça e o humanismo fazem dela a pessoa certa para liderar a nossa federação.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

socialismo



sobre isto - JS vota contra tratados europeus - há várias coisas que não devia ser preciso explicar mas, vai-se a ver, e afinal é:

1) sei que o PS é um partido cosmopolita e europeísta. ao longo de toda a sua história tem defendido o aprofundamento das formas de participação democrática europeias, com um sistema político que garanta equidade e equilíbrio entre estados;

2) sei que o PS teve vários líderes - e tem muitos militantes - que defendem um modelo federalista para a União Europeia;

3) acho que o PS entende que ser um estado-membro da União Europeia implica a perda de algumas funções que, tradicionalmente, eram de soberania nacional;

4) acho que o PS sabe que fazer parte da União Económica e Monetária implica obedecer e cumprir vários critérios orçamentais e de natureza económica, firmemente estabelecidos no Tratado de Adesão ao Euro;

5) acho que o PS sabe que a União Europeia não é um estado federal nem se vai tornar com estes tratados;

6) sei que o S de PS é de socialista.

não sei se é suficiente para explicar porque é que o PS não podia votar favoravelmente este novo tratado europeu. se não for, a razão é simples: não se entrega poder soberano a uma entidade não democrática e opaca de livre vontade, nem se abdica de poder de decisão a favor de uma organização que caminha cada vez mais para modelos de decisão não democráticos. parte séria da coisa: estes tratados cometem o mesmo erro já identificado - impõem uma coisa sem oferecerem a garantia de que têm a solução para a resolver caso ela corra mal, i. e., impõe limites aos défices, estabelece equipas de intervenção, mas continua sem estabelecer mecanismos de solidariedade europeia.

a juventude SOCIALISTA defende um novo modelo europeu, não assente numa economia liberal, unicamente regulada pelos mercados e sem mecanismos de controlo igualitários por parte da UE. e vota contra. acho que combater o liberalismo económico triunfante do século XXI é razão que baste. o problema não reside na perda de soberania, mas sim na confirmação de um modelo económico que privilegia o controlo orçamental cego e retira aos estados mais mecanismos de intervenção e estímulo económicos sem oferecer, em contrapeso, as garantias de solidariedade exigidas em situação de crise e incumprimento.

agora devagarinho: impõe-se o limite do défice na constituição => não se cumpre o limite do défice na constituição => a UE vem cá impor medidas para voltarmos aos valores de défice orçamental exigidos e estipulados => enterram-se os mortos e não se curam os feridos que surgirem pelo caminho.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

sobre democracia, liberdade e protesto

O assalto à Democracia

Temos de aceitar tudo o que nos é imposto com fatalista resignação? A violência das obrigações imputadas autoriza-nos a reagir com semelhante atitude, exactamente porque o que poderá ser legal perdeu a legitimidade por excesso e atropelo. Ninguém sabe o que nos espera no final desta longa e penosa travessia: nem mesmo aqueles que para ela nos impeliram. Temos de reflectir nas actividades políticas de um Governo que não parece muito animado em aspirações sociais e em equilíbrios éticos. Um Governo declaradamente inclinado em nos empobrecer, em estancar qualquer manifestação de cidadania e pouco preocupado em sacrificar legiões de desempregados e de excluídos. A justiça económica da livre troca é uma monstruosa falácia. Todos os dias sofremos ou temos conhecimento dessa fraude ideológica, mas não conseguimos mobilizar as forças da nossa inteligência e o domínio da nossa razão a fim de enfrentar o embuste que nos desgraça.

O poder perdeu (se alguma vez os teve) o pudor e a respeitabilidade. O exemplo recente das nomeações para a EDP tem o carimbo da coligação; mas, antes, o PS procedeu de igual ou pior forma. Eis a ressurreição do rotativismo do séc. XIX. Não há meio de alterar este pêndulo. O assunto da deslocação de Alexandre Soares dos Santos para a Holanda, reprovável no que comporta de moralmente indigno, define o tratado de hipocrisia dos que desencadearam a "polémica". Então, e os antecessores do processo?, são anjos imaculados ou pertencem todos a uma hagiografia de tratantes? Os mesmos preopinantes que, nos jornais, em bravas elucubrações, esgarçam o projecto socialista e, por antinomia, constituem-se como indefectíveis paladinos do capitalismo, viram-se, agora, contra quê?

O sistema que os procriou é aquele que colonizou as mentes e favorece quem o protege e preserva. Passem os olhos pelos rostos dos que dominam o Governo, mas não mandam no País. Assustam. As ordens procedem de fora. E as rodas dentadas da grande engrenagem movem-se através dessas cumplicidades ocultas. Lenta mas perseverantemente foram roubando o nosso já de si tão ausente protagonismo. Deixámos, há muito, de decidir o nosso destino; mas, pelo menos, possuíamos uma noção de presente, por obscuro que fosse. A marcha de José Mário Branco: "Qual é a tua, ó meu / andares a dizer / quem manda aqui sou eu?" - é o apogeu simbólico e trágico da nossa derrota. Andámos quase sempre enganados; no entanto, talvez aprendêssemos que podíamos ser livres no opróbrio. O regresso ao passado talvez forme novos resistentes.

O Governo a nada acede; não se trata de ceder, sim de aceder. E desrespeita a concertação social, simplesmente ignorando-a, e insultando os sindicatos com a soberba da omissão. Não restam dúvidas de que o assalto à democracia está em andamento acelerado.

Baptista Bastos, Diário de Notícias


(Última) Crónica de Pedro Rosa Mendes
Programa "Este Tempo" - Antena 1

Este Tempo - Pedro Rosa Mendes by melhorjuventude

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

sobre a inteligência

gostava que, no meu tempo de vida, houvesse alguém que crescesse para se tornar nisto. não me importa se é homem, mulher, preto, branco, amarelo ou vermelho. mas crescei e sede assim.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

sobre o medo. talvez mais sobre a hipocrisia

as imagens do navio a afundar-se no Mediterrâneo não deixam de impressionar - e sabe-se tanto sobre miséria humana, hoje em dia. como isto, por exemplo: África. Resposta tardia à crise alimentar matou 50 a 100 mil pessoas. impressiona, talvez mais, a atitude do seu comandante - como é mais impressionante a inação global de todos nós, seres humanos e nações unidas.

o Daniel escreveu, e muito bem, sobre isso. não julgou, porque não se deve julgar. deve-se esperar ter fibra moral para aguentar a coisa. o comandante schettino não teve. não terá, na História, letra maiúscula. isso incomoda-me. e ao schettino também deve incomodar. a hipocrisia e a incoerência incomodam-me mais. o Daniel não foi nem uma coisa, nem outra.

Tenho, perante o comandante Schettino, sentimentos contraditórios. Os mesmos que tenho perante a cobardia. Talvez por ser o defeito que mais me repugna num ser humano. Aquele que mais gosto de imaginar longe dos meus atos passados e futuros. E, ao mesmo tempo, um dos mais compreensíveis. Quando o medo vence a vergonha, olho para o cobarde com nojo e compaixão: nojo pela sua cobardia, compaixão pela solidão que carregará na única vida que terá. E até depois dela. Haverá quem, depois de um ato hediondo, não a sinta? Claro. Assim se comportam os sociopatas, diagnosticados ou não. Mas pelo que sabemos do comportamento do homem que se escondeu, acocorado, num rochedo, não parece ser o caso. Schettino já sentia vergonha. Mas, na hora da verdade, o medo foi mais forte. Carregará para sempre o insuportável peso da solidão. Que nunca a vida me ponha de tal forma à prova. Porque poderia descobrir, enojado comigo próprio, que não sou quem julgo ser.

conheço algumas pessoas que não abandonam navios, tal como o Daniel, seguramente, também conhece. talvez o resto não devesse fazer tanto alarido.


No fundo é isto:
Carlos Zorrinho - Público

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

coisas que merecem destaque I

Geração André

25 de Dezembro. Foi o último dia do André na redacção. Sentou-se à mesa, no bar, como se fosse ficar ali para sempre. Como se aquela fosse a sua casa. Como se a dedicação e o brilhantismo de seis meses de estágio fossem suficientes para garantir um lugar entre nós.

O André foi o melhor estagiário que passou por aquela redacção desde que cheguei. O André trabalhou dia e noite, fez sábados, domingos e feriados. Dispensou folgas, esqueceu horários, correu, transpirou, apanhou chuva, frio e voltou sempre com aquele sorriso de quem ama o jornalismo. O André fez reportagens brilhantes: entrevistou ministros, pescadores, sem-abrigo, artistas de circo, sempre com o mesmo rigor, a mesma dedicação, o mesmo profissionalismo. O André aprendeu a editar, a legendar, a sonorizar e a escrever como poucos. O André será um grande jornalista deste país, se o país deixar. O André foi-se embora no dia de Natal, depois de mais uma jornada de intenso trabalho na redacção. Acabou o estágio.

A crise. A crise. A “crise diz” que não há espaço para o André numa empresa com nove milhões de lucro. O André não é bom. O André é muito bom. Mas ser muito bom não chega num país liderado por medíocres. E é este o drama da geração do André. Esqueçam esse eufemismo da “geração à rasca”. Esta é a geração sem futuro num país liderado por uma geração parida pelas “vacas gordas” do cavaquismo à qual o guterrismo deu de mamar. É esta, sim. É esta a geração que mostrou o rabo indignada contra o aumento de meia-dúzia de tostões nas propinas. Tão rebeldes que eles eram.

Chegou ao poder a geração do “baixa as calças”, a geração jota. É a mesma coisa. Quando não havia emprego, sobrava o partido. Quando não havia partido, sobrava o amigo do partido, ou uma sociedade de advogados. E foi andando assim, nos anos loucos do Portugal do “Progresso” de Cavaco Silva, ou no país da “Razão e Coração” de Guterres. Foi-se o Progresso, ficou o monstro do Estado cheio de parasitas. Faltou a razão e o coração começou a vacilar. Já instalada nos corredores do poder, a geração habituada a baixar as calças, indignada claro, calou-se e deixou-se embalar. O poder… O poder ali tão perto.

Hoje, é a geração que cresceu no tempo das “vacas-gordas” que vem falar de flexibilização laboral. Que fale. Que avance para a reforma do mercado de trabalho, sem medo, mas que entenda que isso só faz sentido se for para proteger os “Andrés” deste país. O problema é que a geração do poder, habituada a baixar as calças, fala pelos livros: leu por aí qualquer coisa sobre isso. Sopraram-lhe.

É disso que os abutres gostam: de quem baixa as calças e não sabe muito bem do que fala. É aqui que mora o perigo.

A reforma da legislação laboral deve ser feita em nome dos miúdos como o André e não para desafogar empresas que em dez anos acumularam mais de 500 milhões de lucro. O ponto de honra tem de ser outro: valorizar o mérito e conceder oportunidade a quem mostra que tem valor. Dói? Vai doer a alguém, claro. Vai doer a quem está há anos encostado, por preguiça, a fazer os serviços mínimos na empresa, a quem não acrescenta valor, a quem não veste a camisola, nem está disposto a inovar e a tentar fazer diferente todos os dias. A esses vai doer. Que doa!

Essa reforma deve ser feita tendo por base a ideia de que um estagiário como o André, brilhante, depois de seis meses a pagar para trabalhar, não pode não ser absorvido por uma empresa que dá nove milhões de lucro. Não pode. Doa a quem doer. Se para isso é preciso flexibilizar o despedimento do medíocre, do preguiçoso, do incompetente, vamos a isso. Um país que desperdiça a geração do André é um país condenado. Estes miúdos já não exigem um emprego para a vida. Querem apenas uma oportunidade.

Bem, deixemo-nos de utopias. Quando o poder é financeiro e os líderes medíocres, já toda a gente percebeu onde é que isto vai parar. Os deputados que alteram a Lei trabalham nas sociedades de advogados que prestam serviços às empresas interessadas em despedir. Está tudo dito. Um pouco como o contrato da barragem do Tua. O ministério do Ambiente tutela parte do processo e o contrato de concessão com a EDP, que pressupõe uma indemnização de quase 100 milhões de euros em caso de quebra, tem sido seguido pela antiga firma de advogados da ministra.

Deixemo-nos de utopias, de facto. Esta será mais uma reforma perdida para a maioria. O André continuará a enviar currículos. As empresas vão aproveitar a crise e a Lei. Um dia, o André acordará cansado e sem forma de continuar a trabalhar de borla em nome do sonho. Ou emigra, ou acaba na caixa do hipermercado para pagar a renda da casa que partilha com os amigos. “Não há drama”, grita a geração do poder. Pois não. Nem futuro.