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terça-feira, 13 de outubro de 2015

Portugal, vermelho esperança

Foram várias décadas a colar o PS à direita, que só ao centro não chegava. Pinceladas de cinzentismo que lhe quiseram esbater o vermelho escarlate da sua identidade. Um pragmatismo excessivo, uma impossibilidade de base histórica no entendimento à sua esquerda e forças internas levaram a que, 40 anos depois dos cravos, acordos à esquerda tenham sido sempre impossíveis. 40 anos depois do outro 25, o de novembro, estamos à beira dum acordo histórico, único, esclarecedor.

No dealbar da assinatura de um compromisso jamais registado na nossa história democrática, repetem-se as opiniões e as manipulações, quais lobos em pele de cordeiro, mascarados de conselhos amigos. De uma noite eleitoral que se antevia dura, marcada pelo irritante e inconsequente chiar das longas facas afiadas, das análise prematuras mas previamente traçadas, emergiu a esperança clara e real de, finalmente, ser alcançada uma aliança de esquerda, desavergonhada, fora do seu armário, despida de preconceitos e amarras datadas. Uma coligação pré-eleitoral, formada com o único e legítimo interesse de alcançar, de novo, a maioria suficiente para a continuação de mais austeridade nos quatro anos que aí vêm, saiu inequivocamente derrotada, afastada dessa possibilidade, objectivos gorados pela votação expressiva de quem na urna depositou a sua aspiração. E, da rejeição desses interesses, emergiu uma nova e absoluta maioria, forjada na afirmação de um caminho novo, diferente, desfasado dos trilhos austeritários do passado recente.

Ao longo deste processo, ainda em curso, e revolucionário apenas na novidade que representa, será necessário às partes definirem, aliás, clarificarem e esclarecerem, qual o caminho que pretendem trilhar. As diferenças não cessarão de emergir se a elas apenas se dedicarem os seus intervenientes, iludidos por aqueles que lhe anteveem – e lhe desejam – o fracasso. Por sobre as diferenças, urge fazer triunfar os pontos comuns. Importa respeitar compromissos internacionais e parcerias europeias estratégicas para o desenvolvimento, mas não ficar refém das imposições sancionatórias e restritivas de ação que vêm da Europa concêntrica e monocéfala; é essencial definir que o modelo de sociedade a (re)construir é, de uma vez por todas, de inclusão, que não deixa ninguém de fora nem para trás, seja por motivos de identidade de género, de sexo, de raça, de etnia, de nacionalidade, ou de condição económica; que, definido este modelo de sociedade, se procura alcançar o equilíbrio e a sustentabilidade do Estado que a regula; urge estabelecer que se garante que a escola pública voltará a ser o pilar elementar da eliminação total das desigualdades económicas e sociais, garantindo uma educação de excelência, melhor como as melhores do mundo; que aos hospitais acorrerão todos por igual, e que nesses hospitais serão tratados pelos melhores profissionais, nas melhores condições possíveis; assegurar que a justiça estará, já hoje, por ontem ser por demais tarde, à disposição de todos, e não apenas acessível a quem melhores recursos puder empenhar na defesa dos seus direitos; e é fundamental criar em Portugal, se assim entenderem os que por cá andam e por cá fazem a sua vida, um lugar de futuro, agora que precisa, também, de se tornar num lugar de retorno para os que de cá partiram.

Neste mês de outubro de 2015, sem messianismos ou ambições revolucionárias, que não todas aquelas que acompanham e formam os sonhos de um futuro melhor, outubro pode trazer o triunfo adiado da esquerda unida na governação de Portugal. E, pela primeira vez, enterrar definitivamente o espectro de medo instalado sobre o socialismo, elevando-o e conotando-o com os padrões a que sempre aspirou, de igualdade, justiça e liberdade. Que este triunfo seja, ao contrário dos agoiros que por ele pairam, a oportunidade dourada de construção de um verdadeiro estado social, protegendo aqueles que mais do estado necessitam e potenciando o desenvolvimento humano de todos aqueles que em Portugal depositarem o seu futuro. Que em outubro, o vermelho rubro possa voltar a ser sinónimo da verde esperança que o acompanha, desfraldados ambos que foram pela República.

segunda-feira, 18 de março de 2013

sobre a raíz

nunca há só uma, pois não? raíz, quero dizer. eu tenho várias. vão crescendo em mim e brotando quando menos se esperam, envoltas num misto qualquer de saudade cigana, nómada, daqui e dali. não têm sequer assentado, talvez nem precisem, antes têm vagueado.

há cerca de um ano atrás, em Siena, no congresso dos Giovani Democratici, lembro-me de duas pessoas terem subido ao palanque para relembrar outros dois camaradas, sicilianos ambos, de quem tinham perdido o rasto, porque a eles lhes cortaram abruptamente as raízes. assim, sem mais, retirados à força de onde tinham acidentalmente nascido. levaram-nos sob protecção policial para longe da sua ilha. a "cosa nostra", que não é de mais ninguém a não ser dos próprios, considerou-os incómodos e ameaçou a sua ligação à terra e à vida. e assim partiram, sem deixar nova morada, sem poder olhar para trás, levando apenas na memória o que também lhes deu identidade, o sítio onde lhes assentaram os arraiais. o fim de linha das opções de quem se vê obrigado a preservar a sua vida no anonimato de uma nova vida é um drama sem comparação, cujas marcas não se apagam nem com a erosão do tempo. perduram como perdura toda a injustiça até que o homem e a mulher, não o tempo, se encarreguem de a eliminar. e esta, em particular, teima em persistir na história, apoiada nos ombros irredutíveis do medo.

em portugal cortam-se raízes de outra forma, mas com a mesma força implacável. empurra-se devagarinho até que elas se soltam e se esvaem. e, mesmo que o salto para esta realidade seja do tamanho dos mares que separam a Sicília deste nosso atlântico, este sentimento de perda persiste em mim, persiste em aproximar a dor de uma com a dor da outra. veio-me este sentimento de uma conversa com o Hugo, uma das muitas, como sempre, consciência que se desperta. dizia-me ele, o Hugo, que dos amigos mais próximos, foram quase uma dezena que partiram. quebraram-nas porque o peso delas os fazia vergar. e as árvores, como os homens e as mulheres, nasceram para estar direitas. esse peso, da falta de oportunidades, dos salários desproporcionais, da miséria que se incrosta no corpo faminto, do desemprego, do desespero, do desânimo, do descrédito, esse peso, dizia, é de tal forma insuportável que obriga a desfazer esperanças e a arrumá-las numa mala de viagem. os sonhos comprimem-se, bem apertadinhos, para caberem todos, ficando sempre de fora aquele que mais se almejava, o de se cumprir Portugal. desses amigos ficam as memórias e as visitas ocasionais, as dores partilhadas de uma ausência sentida todos os dias, os abraços que se apertam na esperança que durem mais, sem que se aguentem até ao próximo reencontro. raízes que se agarram desesperadamente, com a força que cresce nos dentes, que quem não se sente escorraçado não é filho de boa gente. triste dura sina de quem não se vê ter bom destino. triste duro país que devasta raízes como se de uma inevitabilidade se tratasse. triste dura sorte esta de a Grândola ecoar bem alto na voz de um povo para se depositar, do outro lado, num coração que não a sabe escutar. triste duro fado.

dos amigos do Hugo, eu sou um deles. e os abraços nunca me chegam.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

sobre democracia, liberdade e protesto

O assalto à Democracia

Temos de aceitar tudo o que nos é imposto com fatalista resignação? A violência das obrigações imputadas autoriza-nos a reagir com semelhante atitude, exactamente porque o que poderá ser legal perdeu a legitimidade por excesso e atropelo. Ninguém sabe o que nos espera no final desta longa e penosa travessia: nem mesmo aqueles que para ela nos impeliram. Temos de reflectir nas actividades políticas de um Governo que não parece muito animado em aspirações sociais e em equilíbrios éticos. Um Governo declaradamente inclinado em nos empobrecer, em estancar qualquer manifestação de cidadania e pouco preocupado em sacrificar legiões de desempregados e de excluídos. A justiça económica da livre troca é uma monstruosa falácia. Todos os dias sofremos ou temos conhecimento dessa fraude ideológica, mas não conseguimos mobilizar as forças da nossa inteligência e o domínio da nossa razão a fim de enfrentar o embuste que nos desgraça.

O poder perdeu (se alguma vez os teve) o pudor e a respeitabilidade. O exemplo recente das nomeações para a EDP tem o carimbo da coligação; mas, antes, o PS procedeu de igual ou pior forma. Eis a ressurreição do rotativismo do séc. XIX. Não há meio de alterar este pêndulo. O assunto da deslocação de Alexandre Soares dos Santos para a Holanda, reprovável no que comporta de moralmente indigno, define o tratado de hipocrisia dos que desencadearam a "polémica". Então, e os antecessores do processo?, são anjos imaculados ou pertencem todos a uma hagiografia de tratantes? Os mesmos preopinantes que, nos jornais, em bravas elucubrações, esgarçam o projecto socialista e, por antinomia, constituem-se como indefectíveis paladinos do capitalismo, viram-se, agora, contra quê?

O sistema que os procriou é aquele que colonizou as mentes e favorece quem o protege e preserva. Passem os olhos pelos rostos dos que dominam o Governo, mas não mandam no País. Assustam. As ordens procedem de fora. E as rodas dentadas da grande engrenagem movem-se através dessas cumplicidades ocultas. Lenta mas perseverantemente foram roubando o nosso já de si tão ausente protagonismo. Deixámos, há muito, de decidir o nosso destino; mas, pelo menos, possuíamos uma noção de presente, por obscuro que fosse. A marcha de José Mário Branco: "Qual é a tua, ó meu / andares a dizer / quem manda aqui sou eu?" - é o apogeu simbólico e trágico da nossa derrota. Andámos quase sempre enganados; no entanto, talvez aprendêssemos que podíamos ser livres no opróbrio. O regresso ao passado talvez forme novos resistentes.

O Governo a nada acede; não se trata de ceder, sim de aceder. E desrespeita a concertação social, simplesmente ignorando-a, e insultando os sindicatos com a soberba da omissão. Não restam dúvidas de que o assalto à democracia está em andamento acelerado.

Baptista Bastos, Diário de Notícias


(Última) Crónica de Pedro Rosa Mendes
Programa "Este Tempo" - Antena 1

Este Tempo - Pedro Rosa Mendes by melhorjuventude