"As malas do portugueses | São como os olhos das rezes | Que se mastigam três vezes | Em cada chão"
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terça-feira, 13 de outubro de 2015
os torna-viagem tornarão
110.000 por ano. o mito que nunca saiu da Portela. o drama que não é drama nenhum. um país de costas voltadas, dividido e quebrado. mal tratante.
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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
sobre a política
'globalização em trincheiras'
lembro-me de, há uns anos, a Alexandra Prado Coelho ter escrito um artigo intitulado "As elites já não querem estudar Letras". neste artigo ela explicava que as humanidades e as letras perderam o interesse ao mesmo tempo que desceram as taxas de empregabilidade e que, para a elite portuguesa, estudar estas áreas do saber era redundante e uma perda de tempo, para não falar de uma condenação à miséria económico-social. bem, não sei muito sobre as elevadas taxas de empregabilidade dos estudantes de letras e de humanidades, mas gostava de saber algo mais sobre os números de quem estuda e termina os seus estudos de economia. não sei em que momento concreto é que isto aconteceu mas, de repente, a economia passou a ser gestão e deixou de ser economia. não se planifica e não se compreende, gere-se. e qualifica-se. ratings. MBA são cool e as escolas digladiam-se para terem os melhores dos melhores. e gere-se.
também sei que não se fala de Friedman nos MBA. fala-se sem se falar. fala-se só do que ele nos impôs, com naturalidade. aceita-se. e também não se fala da Thatcher ou do Reagan. mas devia. gerir foi tudo o que fizeram. estados como famílias, em busca do maior lucro. da mesma forma que não se fala de Marx ou de Keynes. fala-se de gestores. e eu não sei bem quem são as referências deste pequeno universo. e esta é a parte que mais me intriga. o que é que se gere exactamente se não se sabe ao certo o que se tem pela frente? porque caminhos é que se levam as empresas e os bancos se não se percebe bem como chegámos onde chegámos e como saímos do sítio onde estamos. que sociedade se constrói exactamente?
intriga-me sim, como deixámos subordinar a política à economia; mas intriga-me tremendamente saber como é que subordinámos a gestão à economia. gere-se o que não se compreende na esperança de que o rumo se trace miraculosamente; de que, por magia, buscando o máximo proveito e lucro se construa uma sociedade mais justa e paritária. de que, sem saber quem foi Friedman, se consiga combater os seus desígnios e que, sem saber quem foi Marx, se produza espontaneamente uma revolução. até lá, vai-se gerindo.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Europe - a matter of principle
O texto do Klemie / Klemie's text
No man is an island, entire of itself; every man is a piece of the continent, a part of the main.
John Donne, Meditation XVII
It sounds cynical to say that the still ongoing economic crisis has had positive aspects. But, if you want to, you could say that it brought International and European politics back on the radar again. I come from Austria. Austrians usually like themselves and suppress all their self-loathing to let it out in culture. As long as the Schnitzel is dainty, we like our songs to be morbid and see others fail on the screen of private tv.
We like to think of our country as stable - and nag about it, every time, all the time. We nag on a high level. We're in no way as fucked up as Greece, Spain, Italy or Portugal. We benefit from persisting social policies from the years of our iconic socialist chancellor Bruno Kreisky that long held our heads far above the stinky waters of poverty and social unrest. And with our noses high, we like to think about ourselves. That's why it was so convenient for our politicians to blame everything "bad" on the EU. With Brussels quite some kilometres away and the complicated structure of the European institutions, politicians from a broad range, left to right, found a convenient scapegoat in the EU. You can blame the EU for everything, you can nag - remember, we love that - but the money keeps on flowing. For every Euro we give, we get something back. But that's not what you say if you want to be popular with people who nag more and more. People see that the rich get richer and the poor get poorer. What do you do? Tell them, that your policies failed? Tell them, that you want it to be that way? (Hey, conservatives!) No. You tell them that Greece is taking their money! We like to go there on our holidays. But give them money beyond tourism? What are you, a crazy person?
In and around politics, there's a whole lot of stuff going on. You don't need to be a person with principles; you can seek and execute your power if you get the majority. That's the game democracy allows you to play. Promise stuff, do something else. Some people don't like it? Blame it on someone else; you will need their votes to stay in power. But sooner or later, you will get to the point where your power is limited. Where you finally will have to look beyond your social and national borders to act in a responsible way. And still, if you don't want to be responsible, you want to stay in power. You can either go all dictator on your people (been there, done that - monarchy, Dollfuss, Hitler...), or you can have a look at what the problems are. That's where globalization comes into play. It's not only us having problems. Others struggle with the same problems. If you want to change something about that, you will have to join hands.
That's one of the beautiful things about the European Union and its Eurozone. It doesn't matter if you want to; you have to sort the mess out, together. The last five years feel as if the news opened up again, with a whole new perspective, to the way we look at our neighbours. We still like to talk about ourselves, but I feel like the whole perspective is shifting towards a European "we". And that's where the dangers of nationalism come in. Whenever solidarity is getting stronger, the forces opposing get more brutal in fighting back. Nationalists are on the rise, because they do not only see the chance that social unrest in the southern parts of Europe brings, but also because they feel threatened to live in a society that strongly opposes their view of our world divided into little, itsy-bitsy pieces. What once was nagging becomes either the realization that we need to build this together - or tear it down as a whole.
After years of peace and prosperity, we have to face a threat that some believed was nearly gone: as the principles of hyper-capitalism clearly shifted wealth away from the poor and the middle class, social unrest is on the rise with the perspectives of whole generations systematically destroyed to save how the system works. With the insecurity that has risen after the 9-11 attacks, conservatives are mixing a dangerous cocktail for the powerful to stay in power while the common folks lose their jobs and end up on the street. Solidarity doesn't seem to be high up on the list of their agenda of promoting painful budget cuts that prohibit growth.
You could say I'm nagging (again!), but I tell you: this is where Austria, as a member of the top 10 rich countries of Europe, has to step in. Sure, we shall not forget about our brothers and sisters in our own country, but they're not the only ones, never where. We have to continue to expand and broaden our horizon and give back for what the European Union, with stability and expansion, has given us. Now, we also have to look out for the others that helped us to get where we are. For sure it is difficult and the economic situation in Austria has seen brighter days, but this is not a time for nationalist short-term policies. We need an economic vision that not only includes national needs, but promotes the broad distribution of wealth across Europe.
This never was a simple matter of economics - it's a matter of principle. Principles we should never lose, never compromise on. The fight for a renewed stability in Europe is a fight for a fair distribution of wealth and growth, focusing on education and jobs. Looking out for the poorest, we have to renew our faith in a democratic society that puts each and every one of us on equal footing. Without the same chances for everyone, the future of Europe might not be as bright as we would like it to be.
Klemens Wieringer
terça-feira, 13 de março de 2012
Globalização em Trincheiras - Intro II
O Paradoxo do Morango
Introdução - Parte II
Gosto muito de morangos. Morangos com chantilly, com açúcar, ao natural; gelado de morango, compota de morango, iogurte de morango, doces de morango, no fundo, praticamente tudo. Gosto, sobretudo, de bons morangos. Mas, como em tudo o que há na vida, há bons morangos e há maus morangos. Infelizmente, esta não é a única distinção que é feita em relação aos morangos: há os morangos espanhóis, franceses, italianos ou, mais vulgarmente todos os outros; e, depois, sublime perfeição, há os morangos portugueses. Ah, os morangos portugueses: pequenininhos, maneirinhos, docinhos e saborosinhos, morangos que são moranguinhos, como não há outros. Morangos com super poderes porque estimulam a economia nacional, criam postos de trabalho, salvam a agricultura portuguesa e tudo e tudo e tudo.
Gosto muito de morangos. Morangos com chantilly, com açúcar, ao natural; gelado de morango, compota de morango, iogurte de morango, doces de morango, no fundo, praticamente tudo. Gosto, sobretudo, de bons morangos. Mas, como em tudo o que há na vida, há bons morangos e há maus morangos. Infelizmente, esta não é a única distinção que é feita em relação aos morangos: há os morangos espanhóis, franceses, italianos ou, mais vulgarmente todos os outros; e, depois, sublime perfeição, há os morangos portugueses. Ah, os morangos portugueses: pequenininhos, maneirinhos, docinhos e saborosinhos, morangos que são moranguinhos, como não há outros. Morangos com super poderes porque estimulam a economia nacional, criam postos de trabalho, salvam a agricultura portuguesa e tudo e tudo e tudo.
Vem toda esta conversa a propósito de uma outra, mantida num almoço dominical, dia de comemoração de aniversário em que, para sobremesa, havia, precisamente morangos. Oh, pobres morangos, difamados, vilipendiados, infames; morangos condenados muito antes da primeira prova; morangos espanhóis!
Este é o verdadeiro motivo por detrás da "Globalização em Trincheiras" - o protecionismo, entenda-se, não os morangos - e era por aqui que queria ter começado. Aparentemente, o mundo globalizado em que vivemos tem de funcionar só para um lado, para aquele lado em que tudo são vantagens e benefícios, em que podemos comunicar com pessoas do outro lado do mundo como se elas estivessem mesmo ao nosso lado, encurtar distâncias, viajar em low cost, comer pratos típicos japoneses, chineses, coreanos, indianos ou russos sem grandes deslocações e, muitas vezes, sem sair de casa, conhecer o mais recente filme de uma realizadora iraniana ou a nova música de uma cantora islandesa, comprar todos e cada um dos produtos que sai das mentes criativas da Califórnia, para produção na China. É assim que somos levados a entender a globalização, um mar de oportunidades para quem as souber (ou puder) aproveitar; foi assim que a conhecemos durante largos anos, ou assim quiseram que fosse.
Mas, eis a crise, que entrou sorrateiramente por entre os olhares distraídos dos faroleiros adormecidos, embalados por uma mão suavemente invisível, mas incapaz de suster a fúria inapelável do egoísmo humano, que tanto alimentou. A crise esteve só à porta durante um tempo, impaciente, não tão discreta quanto isso, crescendo, ganhando força, até poder aparecer e entrar na nossa vida, na vida de muitos 99%, poupando conscientemente os poucos 1%, implacável, triunfante, arrasadora. E a preocupação dominante? Defender a nossa trincheira, custe o que custar. Que importa se, mesmo ao nosso lado, na trincheira vizinha, várias vidas são ceifadas diariamente, corpos queimados vivos e o cheiro da putrefação nos invade e domina o olfato? Que importa tentar ver para lá da retórica mediática farpada que nos cerca, que nos tolda a racionalidade e nos contraria instintos naturais, instintos que nos impelem à entreajuda e à solidariedade?
E se o individualismo for uma construção? E se o egoísmo competitivo nos for incutido? E se pararmos de nos importar apenas com a nossa trincheira? Que invenção tão genialmente bacoca, os nacionalismos, indiscutíveis, exacerbados, vigentes - nada mais que «trincheirismos» multiplicados globalmente, neologismo igualmente sinónimo da subalternização do Ser.
As "reflexões alternativas sobre o estado a que isto chegou" são sobre isto mesmo, por uma globalização global, assim, tal e qual, sem correções adstritas - sobretudo, sem trincheiras. Pelo ser humano, pela humanidade, por nós!
É que não consigo perceber: porque raio é que tenho de comer só morangos portugueses?
Mas, eis a crise, que entrou sorrateiramente por entre os olhares distraídos dos faroleiros adormecidos, embalados por uma mão suavemente invisível, mas incapaz de suster a fúria inapelável do egoísmo humano, que tanto alimentou. A crise esteve só à porta durante um tempo, impaciente, não tão discreta quanto isso, crescendo, ganhando força, até poder aparecer e entrar na nossa vida, na vida de muitos 99%, poupando conscientemente os poucos 1%, implacável, triunfante, arrasadora. E a preocupação dominante? Defender a nossa trincheira, custe o que custar. Que importa se, mesmo ao nosso lado, na trincheira vizinha, várias vidas são ceifadas diariamente, corpos queimados vivos e o cheiro da putrefação nos invade e domina o olfato? Que importa tentar ver para lá da retórica mediática farpada que nos cerca, que nos tolda a racionalidade e nos contraria instintos naturais, instintos que nos impelem à entreajuda e à solidariedade?
E se o individualismo for uma construção? E se o egoísmo competitivo nos for incutido? E se pararmos de nos importar apenas com a nossa trincheira? Que invenção tão genialmente bacoca, os nacionalismos, indiscutíveis, exacerbados, vigentes - nada mais que «trincheirismos» multiplicados globalmente, neologismo igualmente sinónimo da subalternização do Ser.
As "reflexões alternativas sobre o estado a que isto chegou" são sobre isto mesmo, por uma globalização global, assim, tal e qual, sem correções adstritas - sobretudo, sem trincheiras. Pelo ser humano, pela humanidade, por nós!
É que não consigo perceber: porque raio é que tenho de comer só morangos portugueses?
mj
segunda-feira, 5 de março de 2012
Globalização em Trincheiras II
O texto do Frederico
Os meus agradecimentos ao João pelo seu simpático convite para contribuir para o blogue A Melhor Juventude. O desafio que me colocou consiste num texto dedicado a modelos e soluções para a superação da actual crise sócio-económica. Segue-se a minha proposta, na forma de uma moção sectorial, por mim redigida, apresentada à XI Convenção Federativa JS Porto, a 28 de Janeiro.
O Caminho da Juventude Socialista
"Diversidade é vida, uniformidade é morte." Esta declaração emblemática, do Poeta Orlando Paz, recorda-nos dessa característica essencial das comunidades, associações, empresas, partidos políticos, para resistirem às adversidades externas e, enfim, progredirem para além delas. É na diversidade de perspectivas, competências e sensibilidades, que os grupos sociais se capacitam, a fim de superarem as dificuldades e obstáculos. E não haja dúvidas, que os tempos actuais exigem a clarividência e criatividade, que só podem advir da dialéctica e da comunicação ideal no seio dos grupos.
Em particular, o Partido Socialista atravessa uma etapa crítica, que só poderá superar com a definição de um projecto heterogéneo, renovado e alternativo, para a governação do País. Que apresente, convictamente, aos Portugueses, nas Eleições Autárquicas de 2013, Europeias de 2014 e Legislativas de 2015.
É dever da Juventude Socialista contribuir para a construção desse projecto. E só poderá fazê-lo se assumir uma orientação autónoma e pós-convencional, no seio do Partido Socialista.
Neste sentido, proponho que a Juventude Socialista se comprometa com um programa de fundo específico, enquadrando novos modelos e instrumentos de organização económica e sociopolítica que, tendo em conta as limitações socioeconómicas vigentes, procurem cumprir o ideário Socialista no nosso País.
Desde os sonhos que fundaram as democracias ocidentais, orientaram a integração das Nações Europeias, até às temáticas emergentes do século XXI, a economia social, a democracia participativa e o desenvolvimento sustentável, a Esquerda Internacional converge actualmente para uma estratégia concertada em prol das comunidades locais auto-suficientes, economicamente sofisticadas, qualificadas e competitivas, e socialmente emancipadoras, inclusivas e solidárias.
No contexto da crise socioeconómica, e da necessidade de uma nova via para salvaguardar o modelo social Europeu, abre-se a oportunidade para um novo projecto político. Que enquadre opções programáticas no domínio da integração e emancipação social dos grupos mais desfavorecidos; promoção do desenvolvimento local sustentado e dos serviços de proximidade; organização dos recursos económicos, baseados na redistribuição e reciprocidade; e a promoção de modelos e instrumentos da governação cívicos, participativos e inclusivos. A defesa do modelo social europeu, através de um paradigma político horizontal, solidário, ecológico e regionalista.
Será este o caminho do Partido Socialista para retomar a confiança dos Portugueses e, conhecendo a sua validação eleitoral, colocar o País no rumo do progresso social e desenvolvimento económico sustentável. E é este o caminho da Juventude Socialista para reflectir as aspirações e anseios da sua geração, influenciar o projecto Socialista e imprimir uma marca idiossincrática no momento político do País.
A construção de um tal projecto atravessa três eixos de pensamento e intervenção:
- Terceiro Sector: propor modelos de acção social e intervenção comunitária, fundamentados nas valências da sociedade civil e organizações não lucrativas, em prol de estratégias locais articuladas, para a emancipação dos cidadãos mais privados e a superação das desigualdades socioeconómicas.
- Democracia Participativa: desenvolver estruturas e ferramentas políticas que reforcem o poder local, promovam a cidadania activa e a participação dos cidadãos nas esferas da vida pública.
- Economias Sustentáveis: promover o desenvolvimento sustentável, através de modelos ecológicos de produção, comércio e consumo, particularmente nas áreas das energias renováveis, indústria, construção, transporte e agricultura.
O Partido Socialista tem a responsabilidade fundamental de definir uma estratégia alternativa e coerente para a governação do País. Que contrarie as políticas de austeridade e o agravamento da recessão e proponha os alicerces políticos da coesão social e desenvolvimento económico.
A Juventude Socialista pode desempenhar aí um papel determinante. Contribuir ao projecto Socialista com uma linha de actuação própria, que seja, simultaneamente, conscienciosa, inovadora e galvanizadora. Que revigore e inspire o Partido Socialista a transcender as práticas convencionais e a colocar-se perante novas visões e possibilidades de futuro. Que enquadrem os princípios basilares do Socialismo Democrático, em opções criativas, construtivas e eficientes. Será daqui, a afirmação da Juventude Socialista no seio do Partido Socialista, e da sua contribuição para o futuro do País.
Frederico Guilherme
quinta-feira, 1 de março de 2012
Globalização em Trincheiras I
O texto da Anita
Suportando-me em Giddens tentarei, nas próximas linhas, cumprir o repto lançado pelo João.
Democratizar a Democracia
É certo que vivemos um período difícil. Mas também é verdade que há muito vivemos tempos difíceis e, por isso, não é muito diferente daquilo que foi em épocas passadas. Porém, este constrangimento mundial tem especificidades que outrora não existiam, causadas por fenómenos que nessa época eram desconhecidos ou talvez tivessem outro nome. Naturalmente que os problemas e as exigências atuais são também diferentes.
A globalização, fenómeno, a meu ver, tão injusto quanto espetacular, poderá explicar algumas das preocupações levantadas pelo João. Conseguiremos conviver com ele se formos capazes de pensar de forma transversal pois já não estamos sozinhos no mundo. Hoje, somos bombardeados diariamente com imagens que nos chegam de todo o planeta, estando em contacto permanente com outros que pensam e vivem de maneira diferente. Mc Luhan estava longe de imaginar que a sua “aldeia global” fizesse hoje mais sentido do que nunca.
Sobre este assunto, Giddens não explicaria melhor. Segundo ele, “a globalização não é firme nem segura, mas repleta de ansiedades, bem como marcada por profundas divisões” De facto, a globalização, de um ponto de vista económico, veio trazer não só coisas positivas, como também veio contribuir para a destruição de culturas e aumentar as desigualdades no mundo. Não esqueçamos, no entanto, dos seus efeitos positivos, nomeadamente no que à expansão da democracia diz respeito: as transformações que todos assistimos quase “in loco”, na Europa de Leste, nos finais do século XX, são um grande exemplo disso, bem como, mais recentemente, os acontecimentos da “Primavera Árabe”.
Mas vivemos num período assustador e injusto e é natural que nos sintamos, muitas vezes, abandonados, perdidos e sem grandes expectativas. Tal como escreve o João, “quando os representantes deixam de nos representar, quando a barbárie primária procura irromper pela veia amorfa da nossa apatia e ameaça instalar-se no berço fundador da nossa demo por força do poder, é nosso dever fazer ecoar a nossa voz e defender, como sempre, aquilo que, muitos de nós, nunca viram ameaçada: a dignidade humana”, considero que é também nosso dever participar com mais fervor na vida política da nossa terra, do nosso país, do nosso mundo para combater a nossa desilusão, a nossa desconfiança e o nosso desinteresse para com os agentes governativos e partidários. Mais do que uma realidade incontornável, trata-se de uma responsabilidade e exigência que todos devemos ter bem presentes. No fundo, tudo isto se resume a um simples conceito, promovido por Giddens: “democratização da democracia”, cuja intenção de aprofundamento da democracia, subscrevo e espero praticar.
A globalização colocou-nos à prova e nós seremos capazes de a acompanhar, de mangas arregaçadas, na defesa dos valores fundamentais da justiça , solidariedade e igualdade, sem nunca deixarmos – por um minuto que seja – de sonhar com um mundo ou uma vida melhor. Os nossos sonhos de meninice, por mais ridículos que nos possam parecer, devem acompanhar-nos para o resto da nossas vidas.
Ana Leite
sábado, 18 de fevereiro de 2012
Globalização em Trincheiras
Ainda faz sentido falar em pátria? Ainda vivemos, hoje, num mundo que nos permite colocar a pátria à frente do Humano? Porque é que, na tabela hierarquizada das pátrias, uma vida humana tem diferentes valores? Estabelecem-se valores de vidas humanas por diversas razões: à razão de 1/10.000 se 1 for americano e 10.000 forem africanos; à razão de 1/1 se 1 for americano e 1 for europeu; à razão de 1/10 se 1 for americano e 10 forem trabalhadores chineses de uma fábrica chinesa (sempre que importa expor as atrozes violações do governo chinês); à razão de 1/100, se 1 for americano e 100 forem imigrantes ilegais da América do Sul. Ainda faz sentido insistir numa pirâmide de valores invertida?
John Locke afirmou que "as leis foram feitas para os homens e não os homens para as leis" e, por isso – interpretação minha – nenhuma lei faz sentido se a sua aplicação for contrária ao Homem. Decidir, hoje, sobre o futuro da Europa sem ter presente o Espírito das Leis é tanto mais grave quando, pelo caminho, se parece ter esquecido, igualmente o caminho da História. Todos os dias se decide sobre o nosso futuro contra o nosso futuro; fazem-se leis contra o Homem; destroem-se as pontes de entendimento, paulatina e sofridamente, erguidas – do Atlântico ao Báltico, do Mediterrâneo ao Norte. Todos os dias se destrói a nossa Melhor Juventude!
Durante vários anos, esta nossa natureza estupidificante, acomodativa e rotineira, que coabita em guerra aberta com o inconformismo natural – que de imperfeições e contradições somos plenos – depositou na democracia representativa todas as suas amenas aspirações. Mas, quando os representantes deixam de nos representar, quando a barbárie primária procura irromper pela veia amorfa da nossa apatia e ameaça instalar-se no berço fundador da nossa demo por força do poder, é nosso dever fazer ecoar a nossa voz e defender, como sempre, aquilo que, muitos de nós, nunca viram ameaçada: a dignidade humana.
É atribuída a Tácito a declaração de que “quanto mais corrupta é a República, maior é o número de leis” e, acrescento eu, em República onde proliferam as leis, não pode imperar a defesa do bem comum. Por toda a Europa, exacerbam-se sentimentos de um passado recente, alvitram-se medos e desconfianças, agitam-se as bandeiras dos prós – nacionalistas, imperialistas – e as bandeiras dos anti – europeístas, humanistas – uns e outros, a mesma coisa. Explora-se o atrofio entrópico de uma União Europeia que deixou de conseguir mover o seu corpo porque perdeu a sua base de sustentação – uma comissão desapoderada, um parlamento que nunca teve poder e uns órgãos novos avulsos que nem têm poder, nem legitimidade para o ter.
Imposições morais e moralistas que, bem aplicadinhas, como já foram no passado, provocaram a morte de milhões de pessoas: Guerras de 1 ano, de 3 anos, de 30, de 100, duas Mundiais, genocidárias, coloniais, civis, de classes... Guerras, guerras e mais guerras; exploração, exploração, exploração!
Não! Nesta Europa não! Não feita pelas nossas mãos, não manchada pelo nosso sangue, nunca executada com a arma que é o nosso voto! Daqui, deste cantinho que a todo mundo pertence como a nós pertence todo o mundo, lançamos a nossa revolta, apresentamos a nossa recusa e expressamos a nossa vontade!
Com este texto que por aqui se publica – o centésimo – inicia-se um ciclo de opiniões: tamanho indefinido, contornos obscuros, raízes distintas, mas vozes legítimas. E palavras sábias, bem mais sábias que a minha. Grito próprio - "Basta!"
Objetivo comum: defender a nossa Melhor Juventude!
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