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domingo, 2 de dezembro de 2012

sobre nós

"muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo." muitos anos depois, também nós vamos recordar este tempo, este mesmo, que agora nos vemos incapazes de prender com as nossas próprias mãos. este tempo que é já história feita por nós, pelas mesmas mãos que não o conseguem segurar. tempo feio, frio, escuro e obscuro e opaco; tão opaco como brumas que se erguem como muros impenetráveis, inquebráveis, imperscrutáveis, entrelaçados por números e mais números e mais números, sem face nem alma, perdidos na sua origem, acumulados em forma de milhões e biliões e triliões de interesses; interesses triunfantes, como os porcos do Orwell, e os outros, que nos esmagam e nos estilhaçam, que nos trespassam e despedaçam, indiferentes ao fluir do sangue que jorram à sua passagem. e as nossas mãos? mudam elas o tempo ou enrugam incoscientemente, impotentes e inoperantes, contrárias à natureza que as criou, logo elas, moldadas para trabalhar e talhar o que sem elas permaneceria imutável? que fatalidade inevitável seria a imutabilidade, sem elas, as mãos; essas mãos, aquelas mãos. quais? aquelas da Ilíada e da Odisseia, essas d'Os Lusíadas e do Quixote, aquelas dos prelúdios e fugas, essas das sonatas e as dos nocturnos, as mãos que se heterenomizaram, as mãos do Pessoa, fragmentos de luz num cristal; as mãos do Zeca. do Zeca? sim, as mãos do Zeca. não era a voz? se fosse a voz como é que ele podia penetrar no meu peito e contrair o meu coração até que ele se torna tão apertado que só lhe resta explodir num grito, num clamor de justiça, uníssono com o mundo, urlando e bombeando sangue, suor e lágrimas e raiva e revolta? não, o Zeca cantava com as mãos dele, pedindo as nossas.

muitos anos depois, mesmo muitos anos depois, depois de nós, depois dos nossos depois de nós e até depois dos deles dos nossos depois de nós, vão lembrar-se deste tempo, deste tempo que de gelo não é porque fascínio não tem, mas que com ele se parece na frieza, na aspereza e na dureza com que nos queima. não pode ser de gelo este tempo porque neste tempo, não como no gelo, as partículas separam-se, quebram-se, dividem-se, dividem-nos. Onde está a "cidade | sem muros nem ameias | gente igual por dentro | gente igual por fora | onde a folha da palma | afaga a cantaria | cidade do homem | não do lobo, mas irmão | capital da alegria || braço que dormes | nos braços do rio | toma o fruto da terra | é teu a ti o deves | lança o teu desafio || homem que olhas nos olhos | que não negas | o sorriso, a palavra forte e justa | homem para quem | o nada disto custa | será que existe | lá para os lados do oriente | este rio, este rumo, esta gaivota | que outro fumo deverei seguir | na minha rota?" quando foi que deixámos de lutar pela utopia e nos entregámos à fatalidade do choque, da crise, da oportunidade, da crise que cria o choque que gera a oportunidade?

por entre este meio, navegamos nós com a incerteza, peso constante sobre os ombros e na cabeça. alteram-se, novamente, as relações de trabalho, na lengalenga da dialéctica dos detentores do aparelho produtivo e da força de trabalho, malandros uns e outros, fascistas imperialistas aqueles, marxistas grevistas estes. como diria o Zé Mário, companheiro camarada do Zeca, "somos todos, ou anti-comunistas ou anti-fascistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá" e no caminho esquecemos o único ismo que importa, o do humano. quando foi mesmo que esquecemos o caminho que percorremos, que nos esquecemos que somos gregos desde que nascemos até ao momento em que morremos e que lá pelo meio existe uma longa e duradoura catarse a que chamamos vida. esquecemos que da grécia importámos - em linguagem mercantilista, de fácil compreensão - tudo aquilo que hoje perpetuamos na Ακαδήμεια; sim, a academia. quem tornou a solidariedade um produto do situacionismo, quem transformou em objecto a mais plena das palavras, uma arma à espera de uma oportunidade para ser utilizada, em vez de praticada todos os dias? quem silenciou os deuses quando Atenas ardia e Europa assistia impávida e serena, ou correndo num frenesim para salvar os seus filhos predilectos, hiper-activos e de risco, de valor superior a qualquer cidadão, dos antigos ou dos modernos.

porque não fazemos como Ferreira Gullar, que sabia que "a cidade não está no homem | do mesmo modo que em suas | quitandas praças e ruas"? porque a ele não nos juntamos no clamor límpido do seu poema sujo "e também rastejais comigo | pelos túneis das noites clandestinas | sob o céu constelado do país | entre fulgor e lepra | debaixo de lençóis de lama e de terror | vos esgueirais comigo, mesas velhas, | armários obsoletos gavetas perfumadas de passado, | dobrais comigo as esquinas do susto | e esperais esperais | que o dia venha"? porque capitalizámos os valores e lhes atribuímos números, preços, cifras? porque não realizamos - assim mesmo, tal como no Brasil - que "o homem é um ser cultural, porque a essência dele é a cultura e os valores" e que o sentido da vida é o outro? que grilhetas tão fortes nos aprisionam que nos impedem de estender a mão fraternalmente a quem dela precisa quando a nossa mão é tudo o que de nós precisam? façamos a história que queremos que contem de nós, porque dela hoje somos parte, livres de grilhetas e prisões, sem cedências éticas e morais, sem preço nos nossos valores, seguindo o sentido da vida.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

em 1516-1517

ora, se nos negócios dos mortais existe algo que convenha empreender com cautela, ou melhor, que por todas as vias seja necessário fugir, afastar e repelir, sem dúvida que tal coisa é a guerra, que é o que há de mais ímpio, mais calamitoso, mais largamente pernicioso, ou que se aferra mais tenazmente, ou mais abominável ou mais inteiramente indigno do homem (…).

Desidério Erasmo (de Roterdão), Dulce Bellum Inexpertis (A Guerra)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

a Grande Marcha

sobre a insustentável leveza do ser
(continuação)

a grande marcha

1.

só em 1980, através de um artigo publicado no Sunday Times, se ficou a saber em que circunstâncias morreu Iakov, o filho de Estaline. prisioneiro de guerra durante a Segunda Guerra Mundial, encontrava-se detido num campo onde também havia oficiais ingleses. as latrinas eram comuns. o filho de Estaline deixava-as sempre sujas. os ingleses não gostavam de ver as suas latrinas cheias de merda, mesmo que a merda fosse do filho daquele que era então o homem mais poderoso do universo. ralharam com ele. o filho de Estaline ficou ofendido. os oficiais ingleses voltaram a repreendê-lo e obrigaram-no a limpar as latrinas. zangou-se, discutiu com eles e agrediu-os. por fim, pediu para ser recebido pelo comandante do campo. queria que ele arbitrasse o diferendo. mas o alemão estava demasiado imbuído da sua importância para deixar-se envolver numa discussão sobre merda. o filho de Estaline não pôde suportar tal humilhação. lançando aos céus as pragas russas mais tremendas, correu em direcção ao arame farpado e electrificado que cercava o campo. atirou-se contra os fios. aí ficou suspenso o corpo que nunca mais havia de sujar as latrinas britânicas.

2.

o filho de Estaline não teve uma vida fácil. o pai engendrou-o com uma mulher que, conforme tudo indica, acabou por mandar fuzilar. o jovem Estaline era, portanto, ao mesmo tempo, filho de Deus (porque o seu pai era venerado como Deus) e maldito por ele. as pessoas temiam-no duplamente: podia prejudicá-los tanto pelo poder que ainda tinha (sempre era o filho de Estaline) como pela sua amizade (o pai podia mandar castigar os amigos em vez do filho).
maldição e privilégio, felicidade e infelicidade - nunca ninguém sentiu tanto na própria pele o ponto a que essas oposições são intermutáveis e como é estreita a margem entre os dois pólos da existência humana.
logo no princípio da guerra foi capturado pelos alemães e eis que outros prisioneiros, membros de uma nação pela qual sempre sentira uma antipatia visceral, porque lhe parecia incompreensivelmente fechada, o acusavam de ser porco. ele, que carregava às costas o drama mais sublime que possa ser concebido (ser ao mesmo tempo filho de Deus e anjo caído em desgraça), tinha agora que suportar ser julgado, e não por coisas nobres (a respeito de Deus ou dos anjos), mas por causa da merda? o drama mais nobre e o incidente mais trivial estarão assim tão vertiginosamente próximos um do outro?
vertiginosamente próximos? então a proximidade também pode causar vertigens?
claro que pode. quando o pólo norte se aproximar do pólo sul quase a ponto de o tocar, o nosso planeta desaparecerá e o homem terá à sua volta um tal vazio que ficará aturdido e cederá à sedução da queda.
se a maldição e o privilégio são uma e a mesma coisa, se não diferenças entre o nobre e o vil, se o filho de Deus pode ser julgado por causa da merda, a existência humana perde as suas dimensões e torna-se de uma leveza insustentável. então o filho de Estaline corre em direcção ao arame farpado para lançar contra ele o corpo, como se estivesse a lançá-lo para o prato de uma balança que miseravelmente subisse soerguido pela infinita leveza de um mundo sem dimensões.
o filho de Estaline deu a vida pela merda. mas morrer pela merda não é uma morte absurda. os alemães que sacrificaram a vida para aumentar o território do império para leste, os russos que morreram para que o poder do seu país se estendesse mais para ocidente, esses sim, morreram por um disparate e a sua morte não tem nem qualquer espécie de sentido nem de valor geral. em contrapartida, a morte do filho de Estaline foi a única morte metafísica no meio da estupidez universal da guerra.

(…)

5.

o debate entre aqueles que afirmam que o universo foi criado por Deus e aqueles que pensam que ninguém o criou tem como objecto algo que ultrapassa o nosso entendimento e a nossa experiência. bem mais real é a diferença entre aqueles que contestam o ser tal como foi dado ao homem (pouco importa como e por quem) e aqueles que a ele aderem sem reservas de espécie nenhuma.
todas as crenças europeias, sejam elas religiosas ou políticas, têm por detrás de si o primeiro capítulo do Génesis, do qual se infere que o mundo foi criado tal como devia ser, que o ser é bom e, por consequência, que procriar é uma coisa boa. chamemos a esta crença fundamental acordo categórico com o ser.
se, ainda recentemente, a palavra merda era substituída nos livros por três pontinhos, não era seguramente por uma questão de moral. apesar de tudo, ninguém pode pretender que a merda seja imoral! o desacordo com a merda é metafísico. o instante da defecção é a prova quotidiana do carácter inaceitável da criação. das duas, uma: ou a merda é aceitável (então porque é que se fecham na casa de banho?) ou a maneira como nos criaram é que é inadmissível.
daqui se infere que o acordo categórico com o ser tem como ideal estético um mundo onde a merda é negada e onde todos se comportam como se ela não existisse. esse ideal estético chama-se kitsch.
é uma palavra alemã que apareceu em meados do século XIX sentimental e que depois se vulgarizou em todas as línguas. mas a sua utilização frequente fê-la perder todo o valor metafísico original: o kitsch é, por essência, a negação absoluta da merda; tanto no sentido literal como no sentido figurado, o kitsch exclui do seu campo de visão tudo o que a existência humana tem de essencialmente inaceitável.

Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser

(eu terminei hoje de ler esta excelente obra. mesmo que não queiram ler o livro todo, algo que eu recomendo vivamente, aconselho a que leiam a 6ª Parte - A Grande Marcha. naturalmente que lendo o livro todo tudo faz mais sentido, mas esta é uma parte absolutamente magnífica e de uma profundidade filosófica sobre a vida incomparável. a mim fascinou-me e fiquei perplexo com algumas das reflexões apresentadas neste capítulo conclusivo d' A Insustentável Leveza do Ser.)

sexta-feira, 12 de junho de 2009

coisas... aqui ao lado... para não julgar...

um dia na vida de drazen erdemovic

já passava das nove da manhã quando drazen erdemovic e a sua unidade chegaram à quinta colectiva de Branjevo. não tinham sido informados do objectivo da missão. o comandante, brano gojkovic, estivera pouco falador durante a viagem de autocarro desde a base, em Vlasenica; nem sequer dissera aos seus homens onde iam. a situação não agradou a drazen. normalmente, o 10º destacamento de sabotagem das forças armadas da república srpska tinha missões bem definidas, de reconhecimento ou minagem do território inimigo, e era sempre informado delas com bastante antecedência. mas esta era diferente. fosse qual fosse o seu objectivo, era secreta. a única coisa que drazen sabia é que traziam com eles muitas munições, quer para pistolas quer para armas automáticas. a viagem não foi longa e, quando saíram do autocarro, viram que se encontravam perto de uma quinta. tratava-se de uma suinicultura, mas parecia deserta; não se viam animais nem pessoas, à excepção de um vigia solitário. no pátio erguia-se um imponente carvalho e drazen sentou-se à sua sombra, com outros companheiros. (…)
agora, deitado no chão daquela quinta de Branjevo, sentiu que a terra vibrava ligeiramente. era como daquela vez que tinha encostado uma orelha a um carril e conseguira ouvir o comboio a aproximar-se antes de ter aparecido por detrás de uma colina próxima. drazen levantou-se e olhou à sua volta. os outros não tinham dado por nada, mas por pouco tempo. vinha lá uma camioneta. era um veículo bastante velho, uma daquelas camionetas de carreira entre aldeias, quase sempre avariadas. drazen viu o nome "centrotrans" pintado em grandes letras na carroçaria e alguns soldados sentados nos lugares da frente. a camioneta deteve-se junto do edifício principal da quinta, a uns quinze metros deles. o comandante disse umas palavras ao condutor, enquanto dois soldados abriam a porta traseira, da qual emergiu um homem. drazen recordá-lo-á para sempre, pois nesse instante compreendeu qual era a missão do seu destacamento e sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. o homem era alto e muito magro. tinha bigode, mas drazen não conseguiu perceber que idade teria, pois estava vendado com um trapo sujo. vestia uma camisola azulada empapada em suor, umas calças azuis com riscas brancas de lado e calçava sapatilhas. vinha com as mãos atadas atrás das costas. o homem apeou-se da camioneta e deu alguns passos tacteantes; seguiram-se-lhe outros, igualmente vendados. um soldado conduziu-os a um campo próximo.
o comandante reuniu os seus homens e informou-os de que iriam chegar mais camionetas com civis de Srebrenica - ou seja, muçulmanos que se haviam rendido às forças da república srpska, tendo sido feitos prisioneiros. "vão ser executados pela nossa unidade", acrescentou. drazen e os seus camaradas de armas ficaram subitamente a saber que o seu destacamento se iria converter num pelotão de execução. drazen ficou aflito. nunca tinham recebido uma missão semelhante, mas ninguém disse palavra. só um deles, pero, parecia ansioso por começar, mas drazen reparou que ele bebia grandes tragos de uma garrafa de aguardente. olhou para os prisioneiros que estavam de pé, de costas voltadas para os soldados. um deles virou ligeiramente a cabeça na sua direcção, como se estivesse à espera de alguma coisa. quereria algo deles? drazen sentiu-se fortemente nauseado e pensou que ia vomitar.
não, não o faria! não podia matar outros homens assim, à queima roupa. as mãos tremiam-lhe quando se aproximou do comandante. "não quero fazer isto", disse. brano gojkovic virou-se para drazen, como se não tivesse ouvido bem. "o quê?" drazen conhecia o estratagema: gojkovic queria que ele repetisse alto e bom som o que dissera, para que toda a gente ouvisse e pudesse testemunhar o que quer que acontecesse a seguir. drazen olhou para os companheiros: "camaradas, eu não quero fazer isto. vocês são normais? sabem o que estão a fazer?" ,perguntou, embora com menos firmeza, sentindo a coragem a desvanecer-se rapidamente ao ver que os outros evitavam cuidadosamente o seu olhar. pero riu-se-lhe na cara. drazen pensou de repente que não ouvira um único pássaro cantar naquele dia. gojkovic encarou-o sem vacilar; a sua expressão era séria. "erdemovic", disse, "se não quer fazê-lo, vá até ali e junte-se aos prisioneiros para que possamos matá-lo também. dê-me a sua metralhadora!"
drazen deve ter percebido imediatamente que o oficial falava a sério, mas ficou desconcertado; não antecipara aquela reacção. por instantes imaginara poder sair-se daquela situação com uma simples recusa. mas de que estava ele à espera? lembrou-se de ouvir falar de um caso de desobediência anterior, na qual um soldado fora executado por ordem do tenente-coronel pelemis, e percebeu que era demasiado tarde para dizer não. já o deveria ter dito há muito tempo. o coração batia-lhe com tanta força, que não conseguia ouvir mais nada. durante um minuto, ou talvez menos, ficou pregado ao chão, com a kalashnikov nas mãos. por um instante, pensou em correr para um bosque, mas viu o rosto da sua mulher diante de si e sentiu-se impotente. podiam vingar-se nela e no bebé quando quisessem. ele era responsável por três vidas. tratava-se de uma desculpa, sim; a verdade é que demonstrara ser um cobarde, e sabia-o, mas poderia ter feito outra coisa? gojkovic não hesitaria em mandá-lo matar e pero teria cumprido a ordem de bom grado, embora drazen não percebesse o que tinha ele contra si. talvez o facto de não ser cem por cento sérvio, o que tornava ainda mais aconselhável levar a ameaça de gojkovic a sério.
o comandante já não olhava para ele, como se a sua decisão lhe fosse indiferente. ordenou aos soldados que se posicionassem atrás dos prisioneiros e a estes que se ajoelhassem. drazen tomou o seu lugar numa extremidade do pelotão. o coração continuava a bater-lhe furiosamente quando apontou a arma a um homem de idade cujo rosto, felizmente, não vira antes. rápida e febrilmente, pesou as alternativas. claro que podia fazer pontaria entre dois prisioneiros, mas aquele que lhe cabia iria morrer de qualquer forma. seria como morrer duas vezes. além disso, aquele pelotão de execução compunha-se apenas de uma dúzia de soldados, pelo que, se não apontasse devidamente, seria logo detectado. o comandante perceberia e ele seria executado. não, tinha de apontar ao prisioneiro. ouviu então a ordem, "disparar!", e o homem desapareceu do seu campo de visão. lembrava-se apenas de que a sua primeira vítima vestia uma camizeta cinzenta. drazen fechou os olhos e procurou acalmar-se, mas já outro grupo de prisioneiros estava diante dele. um deles gritou, "vão-se foder, seus...", mas a ordem de disparar foi dada antes que tivesse tempo de acabar a frase. depois da primeira vez, drazen disparou várias outras a intervalos de minutos, sem pensar muito no que estava a fazer. a única coisa que fazia conscientemente era tentar apontar a idosos e não a homens novos. parecia-lhe um desperdício menor. em pouco tempo, a camioneta ficou vazia.
quando olhou para o relógio, drazen sentiu-se chocado: tinham levado apenas um quarto de hora a executar cerca de sessenta pessoas. mas chegara entretanto uma segunda camioneta. os seus ocupantes não podiam ver o que os esperava, pois também estavam vendados. drazen sentiu-se aliviado, pensando que, afinal, se tratava de um acto de misericórdia para com aqueles pobres homens. contudo, não tardaram a chegar camionetas transportando homens sem vendas; nem sequer tinham as mãos amarradas. (...) drazen nunca vira algo semelhante: homens marchando ordeiramente para o local onde seriam executados, como animais num matadouro.
(...) já devia passar do meio-dia, mas os soldados não tinham tempo para descansar. a princípio, de meia em meia hora, drazen sentava-se debaixo da árvore e fumava um cigarro. era uma espécie de fuga, uma pausa. depois, deixou de lhe apetecer fumar. os seus movimentos tornaram-se cada vez mais mecânicos: apontava à cabeça de um homem e disparava, e ainda não tinha tido tempo para limpar o suor da testa quando já outro se ajoelhava à sua frente. era preferível assim; se fizesse um intervalo, aperceber-se-ia do cheiro desagradável que emanava dos corpos.
(...) o sol ainda ia alto e o fedor era insuportável. drazen tinha de sair daquele lugar dantesco. teve novamente vontade de saltar para dentro de água ou, pelo menos, de tomar um duche, para se libertar do cheiro a morte. se ao menos pudesse lavar as mãos... examinou-as cuidadosamente. não viu sangue, apenas uma bolha no indicador direito. uma bolha redonda, rosada. que estranho, pensou drazen, ficar com uma bolha por matar pessoas. calculou que devia ter puxado o gatilho umas setenta vezes. matara umas setenta pessoas, talvez, e tinha ficado com uma bolha. de repente, achou a situação tão hilariante, que destaou a rir histericamente.


Slavenka Drakulic, Não faziam mal a uma mosca:
como os homens banais podem ser criminosos de guerra