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terça-feira, 13 de outubro de 2015

Portugal, vermelho esperança

Foram várias décadas a colar o PS à direita, que só ao centro não chegava. Pinceladas de cinzentismo que lhe quiseram esbater o vermelho escarlate da sua identidade. Um pragmatismo excessivo, uma impossibilidade de base histórica no entendimento à sua esquerda e forças internas levaram a que, 40 anos depois dos cravos, acordos à esquerda tenham sido sempre impossíveis. 40 anos depois do outro 25, o de novembro, estamos à beira dum acordo histórico, único, esclarecedor.

No dealbar da assinatura de um compromisso jamais registado na nossa história democrática, repetem-se as opiniões e as manipulações, quais lobos em pele de cordeiro, mascarados de conselhos amigos. De uma noite eleitoral que se antevia dura, marcada pelo irritante e inconsequente chiar das longas facas afiadas, das análise prematuras mas previamente traçadas, emergiu a esperança clara e real de, finalmente, ser alcançada uma aliança de esquerda, desavergonhada, fora do seu armário, despida de preconceitos e amarras datadas. Uma coligação pré-eleitoral, formada com o único e legítimo interesse de alcançar, de novo, a maioria suficiente para a continuação de mais austeridade nos quatro anos que aí vêm, saiu inequivocamente derrotada, afastada dessa possibilidade, objectivos gorados pela votação expressiva de quem na urna depositou a sua aspiração. E, da rejeição desses interesses, emergiu uma nova e absoluta maioria, forjada na afirmação de um caminho novo, diferente, desfasado dos trilhos austeritários do passado recente.

Ao longo deste processo, ainda em curso, e revolucionário apenas na novidade que representa, será necessário às partes definirem, aliás, clarificarem e esclarecerem, qual o caminho que pretendem trilhar. As diferenças não cessarão de emergir se a elas apenas se dedicarem os seus intervenientes, iludidos por aqueles que lhe anteveem – e lhe desejam – o fracasso. Por sobre as diferenças, urge fazer triunfar os pontos comuns. Importa respeitar compromissos internacionais e parcerias europeias estratégicas para o desenvolvimento, mas não ficar refém das imposições sancionatórias e restritivas de ação que vêm da Europa concêntrica e monocéfala; é essencial definir que o modelo de sociedade a (re)construir é, de uma vez por todas, de inclusão, que não deixa ninguém de fora nem para trás, seja por motivos de identidade de género, de sexo, de raça, de etnia, de nacionalidade, ou de condição económica; que, definido este modelo de sociedade, se procura alcançar o equilíbrio e a sustentabilidade do Estado que a regula; urge estabelecer que se garante que a escola pública voltará a ser o pilar elementar da eliminação total das desigualdades económicas e sociais, garantindo uma educação de excelência, melhor como as melhores do mundo; que aos hospitais acorrerão todos por igual, e que nesses hospitais serão tratados pelos melhores profissionais, nas melhores condições possíveis; assegurar que a justiça estará, já hoje, por ontem ser por demais tarde, à disposição de todos, e não apenas acessível a quem melhores recursos puder empenhar na defesa dos seus direitos; e é fundamental criar em Portugal, se assim entenderem os que por cá andam e por cá fazem a sua vida, um lugar de futuro, agora que precisa, também, de se tornar num lugar de retorno para os que de cá partiram.

Neste mês de outubro de 2015, sem messianismos ou ambições revolucionárias, que não todas aquelas que acompanham e formam os sonhos de um futuro melhor, outubro pode trazer o triunfo adiado da esquerda unida na governação de Portugal. E, pela primeira vez, enterrar definitivamente o espectro de medo instalado sobre o socialismo, elevando-o e conotando-o com os padrões a que sempre aspirou, de igualdade, justiça e liberdade. Que este triunfo seja, ao contrário dos agoiros que por ele pairam, a oportunidade dourada de construção de um verdadeiro estado social, protegendo aqueles que mais do estado necessitam e potenciando o desenvolvimento humano de todos aqueles que em Portugal depositarem o seu futuro. Que em outubro, o vermelho rubro possa voltar a ser sinónimo da verde esperança que o acompanha, desfraldados ambos que foram pela República.

apesar de você, amanhã vai ser (de novo) outro dia

hoje é dia da República. não de uma qualquer imaginária, mas da nossa, da portuguesa. hoje, pela terceira vez, não é feriado, forma simbólica de assinalar um dia histórico, determinante para a evolução e consolidação do nosso regime democrático - porque a República é, sobretudo, sobre democracia, renovação de mandatos e a sua legitimidade. hoje, pela primeira vez, o Presidente da República não comemora a República. mas, se outra prova fosse necessária, 105 anos depois, e mesmo apesar da negritude dos 48 anos de interrupção, as eleições de ontem demonstram a sua vivacidade. e que ela sobrevive aos golpes contra ela desferidos.

os resultados de ontem constituem o triunfo de uma visão de sociedade e de estado na qual não me revejo. um estado reduzido aos seus serviços mínimos, uma sociedade injusta e desigual. elegeu-se um governo que, à semelhança do que fez nos últimos quatro anos, continuará a destruir os mecanismos de proteção social, a tentar privatizar os últimos recursos económicos do Estado e a aumentar o fosso entre ricos e pobres, jovens e seniores, empregados e desempregados, os que ficaram e os que partiram, aparentemente, até, entre o norte e o sul. ontem, como há quatro anos, a vitória veio assente em falsas promessas, em mentiras, em ocultações. amanhã, como antes, saber-se-á o que foi escondido, mesmo com o rabo de fora.

com os resultados de ontem, a lição também fica para quem com ela quiser aprender. e há uma renovação no socialismo que é necessária fazer. recentrá-lo à esquerda. e não dividir para reinar. sobretudo não dividir para reinar.

com os resultados de ontem, o dia hoje amanheceu cinzento, metáfora sublime do porvir. mas, como diz o Chico Buarque, na música que tudo cura, "Hoje [ontem] você é quem manda | Falou, tá falado | Não tem discussão | A minha gente hoje anda | Falando de lado | E olhando pro chão, viu". felizmente, "Apesar de você | Amanhã há de ser | Outro dia | Você vai ter que ver | A manhã renascer | E esbanjar poesia | Como vai se explicar | Vendo o céu clarear | De repente, impunemente | Como vai abafar | Nosso coro a cantar | Na sua frente"

avante, camarada. amanhã há de ser outro dia.


Portuguese elections: isolated event or turning point for Europe?

My first collaboration with FEPS and the Queries Magazine, in the Millenial Progressive Dialogue Initiative. Full link here.

Next Sunday the Portuguese people will vote on what can be considered as one of the most disputed parliamentary elections of the last two decades. With abstention playing a major role, since figures have consistently increased from one election to the other, recent polls, as controversial as they have been, all seem to point to a large number of undecided voters.

This election could be just another unnoticed event in yet another austerity smashed Southern European country, with no real impact on the direction of EU policies. However, this election can be a decisive turnout point in the course of action of social democratic parties and policies. So, what is turning this regular and ordinary election into such an extraordinary event?

Austerity pack

Alongside with Greece, Portugal was one of the countries most hard-hit by the strong austerity measures imposed by the troika. Over the last four years, the Portuguese government has been extremely cooperative and willing to implement the measures that the IMF, the European Commission and the ECB have set as goals for the country. What is more, several statements by Portuguese government officials, including the Prime minister, have demonstrated a strange willingness to implement even harsher policies than those asked by the troika. However, an economic assessment of these measures after four years can show a country with a higher external and public debt, same deficit in 2014 as in 2011, and a repeated failure in achieving the set out goals of public expenditure and budget deficit. On a social level, Portugal has lost over 200.000 jobs, leading to roaring unemployment figures, particularly high among the young population, which in turn caused the Portuguese population to emigrate to levels higher than those estimated during the 1960’s, under the fascist regime and colonial war. Thus, the result of these elections will clearly indicate the acceptance or rejection of austerity measures, sending a strong message for Europe to hear.

What kind of state?

Never before as in these elections, two so very different visions of State have clashed. Over the last four years, the right-wing Government made several attempts to reduce the size of the State to its minimum: cuts on public expenditure, namely in education – which has cost the country a downfall in several of the OECD PISA indicators –, on the national healthcare system – increasing the waiting list for surgeries and everyday appointments in public hospitals or decreasing the number of nurses and doctors per patient, as well as the general time for recovery at the hospital –, and on social benefits – such as unemployment, pensions or sick leave. Adding to all of this, the average salary decreased, being now more than half of the European average, leaving Portugal with a lower average salary than Spain or Greece. In this election, the Socialist Party has clearly put emphasis on defining what kind of State we want for the future, hence setting another important discussion on a European level, and a decisive one for that matter. Will Brussels continue to promote a minimalistic State even it the majority of States oppose it? Is the minimum State model capable of promoting one of Europe’s biggest achievements after WWII, that is, the reduction of inequalities between the richer and the poorer?

The future of Europe & the future of social democracy

Which Europe do we want to build? More or less integration, which kind of powers shall the institutions have and on which level of transparency? What level of scope on a national level shall European decisions have and what kind of mechanisms can national states have during a crisis? Finally, what kind of cooperation and solidarity between States should there be? During this election, the Socialist Party has been insistently defending the utter need to reinforce the cooperation ties between States in order to increase the level of solidarity in the European Union. When facing the harshest economic crisis since the Great Depression, States cannot be let alone to face such a hardship. This is also what’s at stake next Sunday, in Portugal.

On Sunday, October 4th, when the first results come out, Portugal can be the gateway for a bigger change in Europe and hopefully a sign of hope for a more just and equal Europe. The spanish elections will follow soon, setting what can be a turning point in the direction of European policies towards Southern countries, with a fairer and more inclusive and cohesive Europe being in sight.

a história do não que é um sim

Saibam as pessoas que fazem a política entender a mensagem dos gregos

Publicado no P3 | 13 Julho 2015 | Link completo aqui

Não, isto não é um texto sobre a Grécia. É um texto sobre todos nós, que somos gregos de herança. Este passado que carregamos hoje como se de um fardo se tratasse, foi outrora berço e ideal de democracia e filosofia e política e Εὐρώπη (Europa). E esta Europa, ali nascida, ali construída, ali mitificada, cresceu apesar das veias abertas e ardentes que nela pulsaram durante séculos e séculos. Esta Europa, que foi fratricida por mais de dois milénios, ergueu-se das cinzas e enterrou as diferenças para se unificar no que de mais encontrou em comum. Desses pontos comuns sobressaíram, que nem fénix, a democracia, a paz e uma identidade suficientemente forte para levar à construção do mais ambicioso projeto político jamais tentado neste nosso continente.

Hoje, na pressa mediática, na pressão constante do acontecimento que não alcança relevância suficiente para sequer se transformar na espuma dos dias, vemos as imagens que nos chegam dessa capital original da Europa, empoladas pelos comentários redutoramente maniqueístas, das filas de pessoas que aguardam um sinal que não seja o que tem marcado as suas vidas recentes. Esperam pela esperança, numa redundância que tem tanto de literal quanto tem pouco de realidade, porque a esperança tarda em aparecer.

Os sinais dessa Europa real, pautada pelo inevitável, pela retórica da ausência de alternativas, têm continuamente empurrado a Grécia para a parede mais funda de uma Caverna escura, onde a pouca luz que parece lá entrar, apenas reflete o mais horrendo dos passados que, mais que esquecer, todos pensávamos ter ultrapassado.

Para fazer frente a esse passado de cruzes entrelaçadas em fundos vermelhos que ameaça invadir o presente, e para construir o seu futuro sob os auspícios de uma luz de esperança, a Grécia rompeu com as ameaças, mesmo as mais altas e graves e profundas, e refundou-se no que de mais belo pôde um dia inventar. Acossada por vozes autoritárias, revestidas da enorme sapiência dos cargos que autocraticamente julgam exercer, a Grécia recorreu à Democracia e deu ao seu povo a hipótese de decidir o seu destino. A mensagem clara, que ecoou retumbante sobre a acrópole europeia, fez tremer as heras que parecem insistir em trepar sobre as fundações democráticas desta União. A mensagem, inequivocamente política, disse-nos que não é na ida e vinda do chicote que folgam as costas; é na solidez da fibra de quem sabe que o tempo é o pai de todos os deuses e que os deuses só protegem os audazes.

Os gregos, audazes, disseram-nos que a política são as pessoas. Saibam as pessoas que fazem a política entender a mensagem dos gregos. Se a austeridade nos tirou o chão onde julgávamos assentar, se nos levou a riqueza que mais estimámos porque resultou do nosso suor, se nos fez voltar costas aos nossos irmãos europeus e nos deu a conhecer a pior face da desconfiança e da xenofobia, aproveitemos a fibra helénica para não deixarmos que nos retirem aquilo que, ainda há bem pouco tempo lográmos recuperar. Não deixemos que a austeridade nos roube a democracia e a liberdade. Não deixemos que a austeridade nos retire Abril.

PS: este artigo foi escrito ao abrigo do acordo ortográfico de 1.100 a.C., sem o qual nunca teria sido possível utilizar uma parte considerável do vocabulário aqui vertido. Assim o saibamos preservar.

domingo, 7 de abril de 2013

o Estado de Direito é à prova da Canalha

na noite em que o Presidente Nixon se demitiu, Lanny Davis, que viria mais tarde a ser conselheiro de Bill Clinton, conta que pegou nos filhos, conduziu em direcção à Casa Branca e estacionou na Pennsylvania Avenue. terá dito aos seus filhos que, nesse dia, o homem mais poderoso do mundo acabava de deixar o poder e que não havia uma única milícia na rua ou um golpe de Estado; era o Estado de Direito e agora outro homem ocupava o seu lugar.*1

a importância do Estado de Direito, sublimado pelas palavras de Davis, não é volátil, não é ajustável e não oscila ao sabor dos momentos. em Portugal, define-o a Constituição, garantem-no as instituições do Estado. o Tribunal Constitucional afirmou, sexta feira passada, que a Constituição não tinha sido respeitada na elaboração de algumas normas do Orçamento de Estado, exercendo o poder que a própria lhe confere. no rescaldo da decisão, o Governo, num violento e ilegítimo ataque, acusou o TC de responsabilidade na orientação orçamental, convocou um Conselho de Ministros - de onde não saíram soluções -, correu para Belém e viu aprovada a moção de confiança presidencial.

ferido o Estado de Direito, o Governo prepara-se, agora, para atacar o Estado-Social, com cortes na saúde, na educação e na protecção social. prevêem-se despedimentos na função pública e mais miséria, que isto de estar vivo sai caro.

da esquerda, das minhas esquerdas, a portuguesa e a europeia, sinto falta de rumo, de líder e do socialismo. sinto falta da esquerda, que de tão preocupada em ser "democrata" - pensando eu que democratas eram todos os partidos verdadeiros - se esqueceu de ser socialista. sinto falta dos líderes que falam quando têm de falar. da América, sinto falta de Lenny Davis; e da figura legal de impeachment. a usar com moderação, o quanto antes.



*1 "[Lanny Davis] put his two small kids in the back seat of the car and drove them to the White House. He parked the car on Pennsylvania Avenue and gave a speech to his kids about how the most powerful man in the world left office today. There was no militia, and there was no coupe; it was the rule of law, and now a new man is taking office. retirado daqui."

terça-feira, 27 de novembro de 2012

sobre o admirável mundo já não tão novo...

Para mim a grande questão é perceber a forma como os governos autocráticos, e de alguma maneira activistas pela democracia, foram bem sucedidos ao colocar a tecnologia ao seu serviço. Se olharmos para os últimos três anos, encontramos exemplos que indicam que algumas destas tecnologias ajudaram as pessoas a organizar-se. Mas também ajudaram alguns ditadores a apanhar dissidentes, através dos seus telemóveis, vendo quem são os seus amigos nas redes sociais, ajudaram-nos a espalhar propaganda online através de bloggers contratados e ajudaram-nos a fazer ataques cibernéticos para desactivar websites que são críticos. Podem encontrar-se exemplos de como é que os movimentos de protesto foram bem sucedidos a gerar dissidentes e participação pública, mas também encontramos factos que permitem dizer que a tecnologia foi usada para a repressão. Não quero retratar a tecnologia como repressiva, só apontei as suas limitações e alertei para a forma como podemos ser mais realistas sobre a confiança que temos na Internet, em que na verdade nós e os que definem políticas públicas não querem absoluta liberdade da Internet – e isso cria um impasse. Por outro lado, isso deixa-nos de mãos atadas e facilita os ditadores a apanhar dissidentes, a fechar websites ou a abolir a Internet, como no Irão. É preciso ver como as coisas mudam tão rapidamente.
(…)
em termos gerais, há que tentar usar ferramentas mais seguras, não levar o telemóvel para todo o lado, usar aplicações para proteger a privacidade, mas também estar consciente de que, se se tornar bem sucedido, o governo pode perseguir e torturar – portanto, é bom ter uma estratégia para resistir a uma eventual perseguição.

Evgueny Morozov, in Público

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

em jeito de balanço

Intervenção no XVIII Congresso Nacional da JS
2, 3 e 4 de Novembro 2012 - Pavilhão do Inatel, Viseu

Caras e caros camaradas,

Há dois anos atrás, na nossa Lisboa, sentado numa cadeira parecida com aquelas onde hoje estamos sentados, recordo-me bem dos discursos emocionados de dezenas de camaradas que, cada um e cada uma à sua maneira, connosco partilharam. Eram relatos sinceros que nos transmitiam com orgulho as experiências vividas ao lado do Duarte; relatos de um tempo que a todos honrou. Dois anos volvidos, encontro-me eu na circunstância de ter mais histórias que tempo para as contar.

Não só porque o tempo é escasso, mas sobretudo porque essas histórias, mais que a ninguém, a mim me servem de referência, não me cabe hoje, nem aqui, partilhá-las. Para o Pedro, segue o meu mais profundo agradecimento: o agradecimento pelo prazer de uma amizade que tanto prezo e estimo, o agradecimento pela camaradagem e pela luta sempre na primeira linha (que ele nem consegue fazer de outra forma) e, acima de tudo, o agradecimento por me ter feito sempre, em todas as circunstâncias, sentir um tremendo orgulho por pertencer à maior organização política de juventude em Portugal, a Juventude Socialista.

Mas, se as histórias não as posso partilhar por virtude do tempo, outras coisas há que não posso guardar para mim, por achar que a todos pertencem.

No final destes dois anos, é minha convicção, a JS sai mais forte e mais prestigiada por ter tido o Pedro como Secretário-Geral. Continuámos na vanguarda da luta pelas causas estruturantes, por aquilo que naturalmente devia estar consagrado: a igualdade entre todas e todos, sem descriminação de raça, género, religião ou orientação sexual. Nas questões fundamentais para todos nós, lutámos pela melhoria da escola pública, defendemos os nossos ideais ao defendermos Novas Oportunidades, ao pugnarmos por melhores recintos escolares, ao combatermos o abandono escolar, o fim dos passes sociais e das bolsas escolares. Na Assembleia da República fomos voz ativa na apresentação de propostas alternativas de crescimento económico que, através de investimento público, permitiria combater o flagelo do desemprego e criar inúmeros postos de trabalho.

Caras e caros camaradas, muito me orgulha que não tenhamos estado sozinhos nesta visão nem na nossa luta. Desde o primeiro dia que o Pedro deixou bem claro que nunca triunfaríamos sozinhos, que esta luta era transnacional, que ultrapassava as nossas fronteiras e se travava em conjunto com todos os nossos camaradas europeus e de todo o mundo, uma luta verdadeiramente internacional e verdadeiramente socialista. E, neste ponto, permitam-me que saliente, com mais veemência que a força da amizade que nos une, o papel desempenhado pela Mafalda Serrasqueiro na coordenação das Relações Internacionais. Foram a coragem, a determinação e a lucidez dela que permitiram que, em todos os fóruns internacionais onde estamos representados, tenhamos tido um papel decisivo e uma representação condigna, na defesa intransigente dos nossos valores e ideais. Daqui a minha vénia e a certeza que não podia ter tido melhor chefe!

Fugindo muito brevemente ao ponto, Sr. Presidente, se me é permitido, e porque esta será a minha única intervenção, não deixar de referir, igualmente, o meu camarada e amigo, João Torres. A minha convicção mantém-se inabalável de que és a escolha acertada para liderar a JS e, levando-a por rumos necessariamente diferentes e por todos os militantes sufragados, continuar o excelente trabalho dos últimos anos. Muita força e coragem é tudo o que te desejo, juntamente com as maiores felicidades que, a serem tuas, serão também de todos nós.

Termino, caras e caros camaradas, saudando-vos fraternalmente, e deixando um apontamento que, não tendo sido preocupação na elaboração deste texto, não deixou de ser curioso: a ausência da palavra crise!

Que se lixe a crise, para que viva Portugal!
Viva a República,
Viva a JS!

terça-feira, 19 de junho de 2012

sobre a história

Albert Camus e Thomas Mann não foram decerto os únicos a compreender depressa, mal a guerra terminou, o que todos ansiamos esquecer: o bacilo fascista estará sempre presente no corpo da democracia de massas. Negar este facto ou dar outro nome ao bacilo não nos tornará mais resistentes a ele. Pelo contrário. Se queremos combatê-lo eficazmente, teremos de começar por admitir que está novamente prestes a contaminar a nossa sociedade, teremos de o chamar pelo seu nome: «fascismo». Além disso, o fascismo nunca é um desafio, é sempre um grave problema porque desemboca, inevitavelmente, no despotismo e na violência. E chamamos perigo a tudo o que provoque estas consequências. Negar a existência de um problema ou, pior ainda, de um perigo é praticar a política da avestruz. Quem não aprende com a história está condenado a vê-la repetir-se.

Rob Riemen, O eterno retorno do fascismo

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Naturalmente que apoio!

*declaração de apoio à candidatura de Madalena Alves Pereira à Federação Distrital de Setúbal do PS

É sempre bom questionarmos o porquê das coisas; é sempre necessário irmos à raiz das nossas escolhas. “Porquê a Madalena?” foi uma questão que me surgiu tão naturalmente quanto a sucessão de respostas que lhe advieram. Tive, e tenho, o privilégio de conviver com a Madalena nesta terra barreirense que a ambos formou e viu crescer. Tive, e tenho, o privilégio de lutar politicamente, todos os dias, ao lado dela por uma convicção irredutível na força dos ideais que nos ligam e nos unem.

Foi, precisamente, por causa desta convivência que pude descobrir tão facilmente a minha primeira resposta, a minha primeira razão: sim, fazer política com a Madalena é caminhar ao lado dela. É ser constantemente desafiado a fazer mais e melhor; a ver, em cada momento, como é a primeira a dar o exemplo e a estar na linha da frente.

Depois compreendi a segunda razão: a dedicação e abnegação à causa pública. A Madalena é republicana, democrata e socialista todos os dias, em tudo o que faz na vida e na política. É real e efetivamente militante, servindo sempre o que considera ser o interesse geral e nunca se servindo daquilo que é de todos.

A Madalena é, profissional e politicamente, uma pessoa extremamente competente e rigorosa. Demonstrou, ou melhor, tem demonstrado de forma sistemática como sabe compreender e enfrentar os principais problemas que enfrentamos enquanto comunidade, sem nunca descurar os pequenos pormenores que marcam, diariamente, a vida de todos nós.

Estas são as minhas razões, foram as minhas respostas. Tantas outras existem, sei-o bem. A competência política faz dela um dos melhores quadros que o nosso distrito tem; a honra, a dignidade, a justiça e o humanismo fazem dela a pessoa certa para liderar a nossa federação.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

sobre democracia, liberdade e protesto

O assalto à Democracia

Temos de aceitar tudo o que nos é imposto com fatalista resignação? A violência das obrigações imputadas autoriza-nos a reagir com semelhante atitude, exactamente porque o que poderá ser legal perdeu a legitimidade por excesso e atropelo. Ninguém sabe o que nos espera no final desta longa e penosa travessia: nem mesmo aqueles que para ela nos impeliram. Temos de reflectir nas actividades políticas de um Governo que não parece muito animado em aspirações sociais e em equilíbrios éticos. Um Governo declaradamente inclinado em nos empobrecer, em estancar qualquer manifestação de cidadania e pouco preocupado em sacrificar legiões de desempregados e de excluídos. A justiça económica da livre troca é uma monstruosa falácia. Todos os dias sofremos ou temos conhecimento dessa fraude ideológica, mas não conseguimos mobilizar as forças da nossa inteligência e o domínio da nossa razão a fim de enfrentar o embuste que nos desgraça.

O poder perdeu (se alguma vez os teve) o pudor e a respeitabilidade. O exemplo recente das nomeações para a EDP tem o carimbo da coligação; mas, antes, o PS procedeu de igual ou pior forma. Eis a ressurreição do rotativismo do séc. XIX. Não há meio de alterar este pêndulo. O assunto da deslocação de Alexandre Soares dos Santos para a Holanda, reprovável no que comporta de moralmente indigno, define o tratado de hipocrisia dos que desencadearam a "polémica". Então, e os antecessores do processo?, são anjos imaculados ou pertencem todos a uma hagiografia de tratantes? Os mesmos preopinantes que, nos jornais, em bravas elucubrações, esgarçam o projecto socialista e, por antinomia, constituem-se como indefectíveis paladinos do capitalismo, viram-se, agora, contra quê?

O sistema que os procriou é aquele que colonizou as mentes e favorece quem o protege e preserva. Passem os olhos pelos rostos dos que dominam o Governo, mas não mandam no País. Assustam. As ordens procedem de fora. E as rodas dentadas da grande engrenagem movem-se através dessas cumplicidades ocultas. Lenta mas perseverantemente foram roubando o nosso já de si tão ausente protagonismo. Deixámos, há muito, de decidir o nosso destino; mas, pelo menos, possuíamos uma noção de presente, por obscuro que fosse. A marcha de José Mário Branco: "Qual é a tua, ó meu / andares a dizer / quem manda aqui sou eu?" - é o apogeu simbólico e trágico da nossa derrota. Andámos quase sempre enganados; no entanto, talvez aprendêssemos que podíamos ser livres no opróbrio. O regresso ao passado talvez forme novos resistentes.

O Governo a nada acede; não se trata de ceder, sim de aceder. E desrespeita a concertação social, simplesmente ignorando-a, e insultando os sindicatos com a soberba da omissão. Não restam dúvidas de que o assalto à democracia está em andamento acelerado.

Baptista Bastos, Diário de Notícias


(Última) Crónica de Pedro Rosa Mendes
Programa "Este Tempo" - Antena 1

Este Tempo - Pedro Rosa Mendes by melhorjuventude

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

sobre a inteligência

gostava que, no meu tempo de vida, houvesse alguém que crescesse para se tornar nisto. não me importa se é homem, mulher, preto, branco, amarelo ou vermelho. mas crescei e sede assim.


quarta-feira, 6 de abril de 2011

sobre estupidificação... três vezes...

como é que eu hei-de explicar isto?


o senhor Blatter e o senhor Platini já tinham dado boas provas de inépcia de pensamento e de análise; e compreendem a realidade quase tão bem como eu da melhor forma de se apanhar um bom bacalhau graúdo.
ora sucede que a Bósnia não é assim um Estado tão antigo quanto isso, pelo menos, de forma independente e, pelo menos, esta Bósnia contemporânea. e sucede da mesma forma que tem um governo tripartido que deriva da tripartição étnica, política e administrativa do país. e sucede também que há coisa de uma década estava a ocorrer um genocídio por estes lados. lembro-me sempre da forma triste como Emídio Fernando, jornalista da TSF, me contou que um dia em Lisboa, ao olhar pela janela da frente e ao ver uma senhora a regar as suas flores, se apercebeu de que, na Sarajevo que tinha acabado de deixar, muito provavelmente um deles já não estaria a olhar para o outro...
"- mas os estatutos..." "- ah! pois é, senhor presidente, os estatutos..."

e depois isto?

Cerimónia do 25 de Abril cancelada no Parlamento

por mim, acho que faz todo o sentido! também já farta tanta liberdade... dá-lhe Zé Mário:

Preocupações, crises políticas pá?
A culpa é dos partidos pá!
Esta merda dos partidos é que divide a malta pá,
pois pá, é só paleio pá, o pessoal não quer é trabalhar pá!
Razão tem o Jaime Neves pá!
(Olha deixaste cair as chaves do carro!)
Pois pá!
(Que é essa orelha de preto que tens no porta-chaves?)
É pá, deixa-te disso, não desestabilizes pá!
Eh, faz favor, mais uma bica e um pastel de nata.
Uma porra pá, um autêntico desastre o 25 de Abril,
esta confusão pá,
a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa...
Tá bem, essa merda da pide pá, Tarrafais e o carago,
mas no fim de contas quem é que não colaborava, ah?

Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, ah?
Quem é que não se calava, quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, ah?
Meia dúzia de líricos, pá,
meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá,
isto é tudo a mesma carneirada!
FMI, José Mário Branco

e por fim isto?

Parlamento italiano salva Berlusconi do caso Ruby

acho que é só assim, e chega, não?

ciao!


quarta-feira, 7 de outubro de 2009

troca-tintas

a suposta juventude e as coisas que ela perdoa

inspirado pelos escritos de uma amiga, decidi escrever sobre aquilo de que não gosto. não consegui ter a mesma capacidade para fazer uma lista de tudo aquilo que me irrita e que eu não aprecio, mas decidi escrever sobre algo de que não gosto particularmente.


o presidente da Comissão Europeia, José Barroso, José Manuel Barroso, Durão Barroso, Durão, seja qual for o seu nome artístico neste momento, é uma personagem interessante da cena política. tem um percurso académico excepcional, sabe falar várias línguas, estudou em várias universidades de vários países europeus, não é mau de todo a falar e a discursar perante multidões, estejam elas à sua frente ou recostadas tranquilamente no sofá, gosta de viajar, gosta de ir aos Açores, sabe receber e aperta muito bem as mãos enquanto sorri. o senhor presidente (para não complicar a escolha do melhor nome de entre os possíveis), viveu a sua juventude, a sua entrada na vida adulta, em tempos de grande indefinição política, de enormes e compreensíveis euforias, de exageradas divisões e exacerbadas afirmações ideológicas, um período marcado por um maravilhoso idealismo revolucionário, uma total esperança no futuro e a certeza absoluta de uma ruptura consumada com o passado. facilmente se percebe o quão difícil terá sido para o jovem senhor presidente ultrapassar as dúvidas normais de qualquer jovem quando a estas acresce uma conjuntura política nacional extremamente complicada de definir. naturalmente, o jovem senhor presidente teve dificuldades em ajustar-se ao tempo em que vivia e em definir as suas convicções ideológicas e acabou por se juntar ao grande partido revolucionário e defensor dos direitos dos operários (trabalhadores já é uma concessão contemporânea), o PCTP / MRPP - Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses / Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado - para ajudar a liderar os seus colegas estudantes na luta do proletariado. em 1980, o já não tão jovem senhor presidente percebeu finalmente e de forma definitiva as suas convicções ideológicas e abraçou-as para sempre. desvarios de uma juventude difícil. não faz mal porque era jovem e não sabia bem o que andava a fazer. hoje defende outros ideais, tem outra população alvo, outras preocupações e outros conceitos económicos que o guiam; hoje pertence ao "centro"-direita, ao PPD / PSD - Partido Popular Democrático / Partido Social-Democrata - e a uma família partidária europeia diferente, chamada popular.
são coisas que acontecem. porque era jovem.
hoje já não é jovem, por isso não faz mal.

troca-tintas - ou nas palavras de Sepúlveda, vomitivo, carne de blogue!


um destacado jornalista de referência e director de referência de um jornal de referência, mais constante no nome utilizado, José Manuel Fernandes, vive neste momento os seus últimos dias nessas mesmas funções directivas. José Manuel Fernandes pertenceu à UDP - União Democrática Popular -, colaborou com A Voz do Povo, abraçou na sua juventude os ideias ideológicos de um partido de esquerda, lutou por esses ideais, escreveu sobre eles, eram a sua convicção. há não muito tempo atrás, durante um período de campanha eleitoral, participou num jantar de campanha do PPD / PSD.
são coisas que acontecem, porque era jovem.
hoje já não é jovem, por isso não faz mal.

troca-tintas - vomitivo, carne de blogue!


João Carlos Espada... é mais difícil porque oficialmente não pertence a nenhum partido. já pertenceu, quando era novo, quando era jovem e até foi director d' A Voz do Povo, o jornal da UDP. hoje tem opiniões um bocadinho diferentes de quando tinha convicções ideológicas fortes e era de esquerda e defendia o socialismo revolucionário e os operários e trabalhadores e as classes desfavorecidas e os estudantes e tudo o mais que havia para defender.
são coisas que acontecem, porque era jovem.
hoje já não é jovem, por isso não faz mal.

troca-tintas - vomitivo, carne de blogue!

sábado, 12 de setembro de 2009

Mediocridade

Medíocres... para chegar ao topo

Burocratas, como Durão Barroso e Ban Ki-moon, são postos à frente de instituições internacionais por conveniência de Chefes de Estado e Governo

O sorriso de José Manuel Durão Barroso tornou-se deslavado e inseguro. De tempos a tempos, este seu habitual sorriso desaparece e um véu acizentado parece velar-lhe o rosto bronzeado. Esta é uma fase complicada para o Presidente português da Comissão Europeia e entrar no recém-eleito Parlamento Europeu em Estrasburgo, no dia 15 de Julho, foi uma experiência particularmente difícil.
Foi no dia em que se esperava que Durão Barroso fosse eleito para mais um mandato de cinco anos à frente do quartel-general da União Europeia, em Bruxelas. Era o que estava previsto no guião escrito durante a última reunião de Chefes de Estado e de Governo. Mas o Parlamento decidiu fazer-se difícil, tendo os membros do Partido Os Verdes e os sociais-democratas decidido adiar a votação.
A próxima oportunidade para eleger Durão Barroso será a 15 de Setembro, mas talvez então nada aconteça, já que também alguns correligionários democratas cristãos começaram a distanciar-se do seu candidato.
Durão Barroso tornou-se numa figura tragicómica. Já quase ninguém o tem em grande conta. Na verdade, há agora muita gente que o critica e espalha calúnias maliciosas acerca das suas tentativas desesperadas para conseguir o apoio dos seus antigos defensores. Um destes, a chanceler alemã Angela Merkel, que em tempos o ajudou a conseguir a nomeação, ridiculariza-o agora por recorrer tantas vezes a ela. Membros do gabinete da ministra sueca dos Assuntos Europeus, Cecilia Malmstrõm, também fizeram comentários depreciativos sobre Barroso.
Este deixou de ter qualquer autoridade significativa, se é que alguma vez a teve. A questão que se coloca é saber por que motivo os líderes europeus o escolheram? E por que razão troçam agora dele e o deixam cair, como se a sua posição fosse meramente acessória e não um cargo proeminente dentro da UE, uma grande potência económica com aspirações a ser uma potência política? A razão é óbvia, diz um dirigente da Europa do Sudeste: a UE agarra-se a este homem, conhecido pela sua fraqueza, por razões de conveniência e porque a procura de uma alternativa iria provavelmente desencadear maiores conflitos.
Na verdade, políticos como Angela Merkel e o Presidente francês, Nicolas Sarkosy, valorizam a sua superioridade em relação ao Presidente da Comissão Europeia. Se fosse um dos seus pares, um homem como o francês Jacques Delors, que dirigiu a Comissão entre 1985 e 1995 com um misto de ambição e panache, e que foi justamente alcunhado de «Sr. Europa», a UE não seria o tipo de organização que os grandes países conseguem controlar em benefício próprio.
Barroso não levanta este tipo de problemas aos líderes francês e alemão. Dele não se esperam propostas sobre os limites da expansão ou sobre um «núcleo forte» europeu, que pudesse liderar uma organização que cresceu significativamente nos últimos anos.
É óbvio que esta gritante falta de iniciativa ao mais alto nível não é benéfica para uma instituição como a UE, num momento em que esta enfrenta uma grave crise económica e está cada vez mais a ser marginalizada por um Presidente americano que domina a cena mundial.
Não serve de consolo o facto de outras organizações importantes, que tentam desempenhar um papel na política mundial, terem optado por uma abordagem semelhantes. O desequilíbrio entre os princípios e a liderança é actualmente gritante nas Nações Unidas, onde o Secretário-Geral, Ban Ki-moon, um sul-coreano, é sobretudo um gestor e não um líder. Do mesmo modo, a NATO e o Banco Mundial também aplicaram o critério da discrição à escolha dos seus actuais secretários-gerais.
Estes dirigentes são o produto de uma forma de pensar equilibrada. A sua selecção assenta no princípio da mediocridade e eles são incapazes de estar à altura das possibilidades que os seus cargos oferecem. Porém, concretizar as potencialidades desses cargos parece ser exactamente aquilo que os países e líderes nacionais que os escolheram não querem que eles façam.
Há cinco anos, a Comissão Europeia poderia ter tido uma alternativa a Durão Barroso: o político belga Guy Verhofstadt, um homem que pensa pela sua cabeça, com experiência e determinado a não desempenhar um papel secundário. O então chanceler Gerhard Schroeder fez campanha a seu favor, mas, em 2004, o percurso político de Schroeder já estava em declínio, o que permitiu a Angela Merkel agarrar a sua oportunidade. Esta mobilizou os líderes europeus conservadores e derrotou Schroeder. Durão Barroso, então primeiro-ministro português, não era o melhor candidato mas tinha ambições modestas - e foi isso que contou.
(…)
Ban Ki-moon, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros da Coreia do Sul, é Secretário-Geral da ONU há dois anos e meio. Na sede da organização, em Nova Iorque, e não só, é visto como uma desilusão e como o homem errado para assumir um cargo de destaque e liderar a comunidade global, num período em que o eixo político mundial está a deslocar-se da América para a Ásia. Sempre se disse que Ban Ki-moon está mais interessado em ser secretário do que ge(ne)ral, e é exactamente isso que ele é hoje.
(…)


Der Spiegel

Ralf Beste, Klaus Brinkbäumer, Manfred Ertel,
Rüdiger Falksohn, Hans-Jürgen Schlamp

(Jornal alemão, Munique)

Publicado na edição portuguesa de Setembro do Courrier Internacional

sexta-feira, 12 de junho de 2009

para não esquecer

la cosa Berlusconi

No veo qué otro nombre le podría dar. Una cosa peligrosamente parecida a un ser humano, una cosa que da fiestas, organiza orgías y manda en un país llamado Italia. Esta cosa, esta enfermedad, este virus amenaza con ser la causa de la muerte moral del país de Verdi si un vómito profundo no consigue arrancarlo de la conciencia de los italianos antes de que el veneno acabe corroyéndole las venas y destrozando el corazón de una de las más ricas culturas europeas. Los valores básicos de la convivencia humana son pisoteados todos los días por las patas viscosas de la cosa Berlusconi que, entre sus múltiples talentos, tiene una habilidad funambulesca para abusar de las palabras, pervirtiéndoles la intención y el sentido, como en el caso del Polo de la Libertad, que así se llama el partido con que asaltó el poder. Le llamé delincuente a esta cosa y no me arrepiento. Por razones de naturaleza semántica y social que otros podrán explicar mejor que yo, el término delincuente tiene en Italia una carga negativa mucho más fuerte que en cualquier otro idioma hablado en Europa. Para traducir de forma clara y contundente lo que pienso de la cosa Berlusconi utilizo el término en la acepción que la lengua de Dante le viene dando habitualmente, aunque sea más que dudoso que Dante lo haya usado alguna vez. Delincuencia, en mi portugués, significa, de acuerdo con los diccionarios y la práctica corriente de la comunicación, "acto de cometer delitos, desobedecer leyes o padrones morales". La definición asienta en la cosa Berlusconi sin una arruga, sin una tirantez, hasta el punto de parecerse más a una segunda piel que la ropa que se pone encima. Desde hace años la cosa Berlusconi viene cometiendo delitos de variable aunque siempre demostrada gravedad. Para colmo, no es que desobedezca leyes sino, peor todavía, las manda fabricar para salvaguarda de sus intereses públicos y privados, de político, empresario y acompañante de menores, y en cuanto a los patrones morales, ni merece la pena hablar, no hay quien no sepa en Italia y en el mundo que la cosa Berlusconi hace mucho tiempo que cayó en la más completa abyección. Este es el primer ministro italiano, esta es la cosa que el pueblo italiano dos veces ha elegido para que le sirva de modelo, este es el camino de la ruina al que, por arrastramiento, están siendo llevados los valores de libertad y dignidad que impregnaron la música de Verdi y la acción política de Garibaldi, esos que hicieron de la Italia del siglo XIX, durante la lucha por la unificación, una guía espiritual de Europa y de los europeos. Es esto lo que la cosa Berlusconi quiere lanzar al cubo de la basura de la Historia. ¿Lo acabarán permitiendo los italianos?

El País, José Saramago